Por gabriela.mattos

Rio - Preta Gil volta com algumas mudanças no novo disco, 'Todas as Cores', que comemora seus 15 anos de carreira. "Quis misturar coisas e ritmos no disco novo. Quando quis gravar um axezão, vi que queria gravar um sertanejo. Estava a fim de referências do Pará, dessas coisas que Joelma faz", conta ela, que teve produção do DJ Batutinha e foi além do pop de seus discos anteriores.

Preta Gil lança novo disco%2C 'Todas as cores'Alex Santana / Divulgação

Trouxe Pabllo Vittar para cantar um samba ('Decote') e Marilia Mendonça para dividir espaço num sertanejão ('Não Me Testa'), e ainda pôs Gal Costa num pancadão ('Vá Se Benzer'). O DIA bateu um papo com Preta sobre o disco novo, sobre a década e meia de carreira e sobre os desafios que vem enfrentando desde que começou a cantar (machismo, racismo, gordofobia, haters virtuais).

Descoberta do novo

Logo assim que resolveu que ia cantar, Preta pediu uma música a seu pai, Gilberto Gil, que negou. E disse que ela precisava procurar as referências dela, a turma dela. "Com certeza, devo ter ficado chateada com isso, mas logo depois eu entendi o que ele quis dizer. Foi um conselho fabuloso que ele me deu. E hoje eu encontrei a minha turma, tenho um corpo de parceiros muito forte. Meu objetivo é sempre descobrir o novo, poder me conectar com as pessoas e com as minhas raízes".

Opiniões

"Nesses 15 anos de carreira musical, um grande desafio foi lidar com as pessoas, com o que elas pensam a meu respeito. Me importo com quem gosta ou se identifica com o meu trabalho, com minha música, com meu discurso. Quando posei nua para a capa do meu primeiro disco, as pessoas me criticaram muito. Hoje, entendo que não posso deixar a opinião das pessoas me afetar. Não me afeta, não me abala e não me atinge".

Conquistas

“A mulher, o negro, o gay, eles vão conquistando espaço e respeito. Tem pessoas que não concordam com isso tudo e elas têm os mesmos direitos e o mesmo espaço. Respeito demais a opinião de uma pessoa que não aceita uma relação homossexual ou que não gosta de mim por eu ser gorda. O que não aceito é a violência, agressividade. Você pode não gostar de mim, por eu ser gorda ou negra. Mas a partir do momento em que você me ataca pessoalmente ou virtualmente, isso fere meu direito de ir e vir e nossa liberdade de sermos o que somos. Luto há 15 anos por isso”.

Preta Gil lança novo disco%2C "Todas as cores"Alex Santana / Divulgação

Democracia

“Existe um troço negativo, vindo do conservadorismo. Que na verdade não necessariamente é ruim, é um contraponto. As pessoas não precisam pensar iguais. Só precisam respeitar as outras. O mais legal no mundo, na sociedade, é você poder flertar com vários universos e poder ser você mesmo onde quer que você vá”.

Vida de avó

“É uma delícia. Ter sido avó tão nova é um privilégio. Também fui mãe jovem, do Francisco. Eu trabalho, ganho minha grana, tenho meus desafios e com a Sol (de Maria, a neta) é só felicidade. O pai e a mãe se preocupam com as coisas do dia a dia, e a avó só baba, né? Ela mudou muito a vida da minha família. É uma menina muito especial. Trabalho e volto para casa por ela”.

Gravar com Gal Costa

“A Gal é minha madrinha, me viu falar as primeiras palavras, tem uma importância  grande na minha vida pessoal e profissional. ‘Vá Se Benzer’, que gravamos juntas, é uma música muito forte. Fala para a gente parar de apontar o dedo para os outros, parar de julgar os outros. Ela me deu colo, foi um rebatismo. É como se ela dissesse: ‘Minha filha, não enfraqueça, seja forte, seja você mesma que você está no caminho certo’. Em breve vai ter até clipe!”.

Diferenças na infância

“Quando vim morar no Rio, meu pai era um cantor pop, conhecido. Eu estudava numa escola de classe média alta. Eu e meus irmãos éramos os únicos negros lá. Algumas meninas pegavam no meu pé por causa do meu sotaque baiano, ou porque o abecedário baiano é diferente (“rê” em vez de “r”, “mê” em vez de “m” etc). Essas diferenças deveriam nos unir em vez de nos separar. Uma irmã minha chegou a sofrer coisas mais graves que eu na escola. Mas a gente se defendia. Luto para exercer meus direitos desde muito nova”.

Saúde do pai

Gilberto Gil passou alguns meses internado ano passado, para tratar uma insuficiência renal. “Foi um susto! Meu pai é um cara muito forte, se cuida. Acabou que isso uniu muito a família. Hoje, ele tem uma energia maior do que a que tinha antes, um amor à vida ainda maior”.

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