Artigo: 112 anos de Paulo da Portela

Marília Trindade Barbosa exalta trajetória do compositor e fundador da azul e branco

Por O Dia

“Cidade, quem te fala é um sambista,
anteprojeto de artista,
teu grande admirador...”
(Cidade Mulher, de Paulo da Portela)

Paulo Benjamin de Oliveira, o Paulo da Portela, nasceu a 18 de junho de 1901, na Santa Casa da Misericórdia, centro do Rio de Janeiro, treze anos após a abolição da escravatura, e morreu a 30 de janeiro de 1949, 3 anos e pouco depois do final da Segunda Guerra Mundial, no subúrbio de Oswaldo Cruz. Com mais um irmão e uma irmã, foi criado pela mãe, D. Joana. O pai, igualzinho a muitos descendentes de escravos, desapareceu logo após o nascimento do filho. Tal comportamento, tão comum à época, não era senão a herança do comportamento aprendido sob a força da chibata dos feitores: fora convencido de que era apenas um reprodutor de crias.

Inspiração na Praça XI

Adolescente, Paulo trabalhou como entregador de marmitas numa pensão na Rua Senador Pompeu, próxima à Praça Onze, reduto dos altivos negros nagôs da Bahia, fundadores de ranchos. Aí, na segunda década do século, é que ele certamente observou a elegância de Donga e de Sinhô, as festas nas casas das tias Ciata, Amélia e Perciliana. Como não ter conhecido a flauta de Pixinguinha e o violão esperto de seu irmão, China, a pose de Heitor dos Prazeres? Curioso, é muito provável que tenha subido até o Estácio, tão próximo, onde viu de perto o talento de Ismael Silva, de Bide e Marçal e mesmo de Cartola, que não saía de lá.

E gostado do respeito com que esses negros eram tratados, tudo tão diferente dos humildes negros bantos lá de Madureira, para onde se mudou mais tarde, negros que abaixavam a cabeça para os ricos, aquela pobre gente da roça, vinda de Minas e do interior do Estado do Rio. Lá, as pessoas andavam a pé ou a cavalo, as casas não tinham água ou luz, nem as ruas calçamento. Era como se fosse uma grande favela na planície.

Sete anos mais velho que Cartola, tinha 9 quando o marinheiro negro João Cândido Felisberto, chamado o almirante negro, comandou a Revolta da Chibata, para desconforto geral da Nação. E o Botafogo foi campeão, para a grande alegria da torcida alvinegra. Cedo aprendeu a pedir licença aos tambores nas casas de santo, dançou jongo, freqüentou sessões de macumba, saiu dançando em cordões e blocos, nos carnavais de rua.

Tinha treze anos quando estourou a 1ª guerra mundial. Ouviu falar que, na França, o brasileiro Alberto Santos Dumont fez decolar o dirigível 14-Bis, o primeiro avião, fazendo a Europa curvar-se ante o Brasil. Aos quinze anos, tinha mania de organizar tudo: baile, serenata, gurufim, festa de colégio. Cantava, fazia música, ensaiava rancho. Formado na Cidade Nova, chegou no subúrbio como líder: - Chama o “seu” Paulo, que ele arruma!” Exigia o título – “seu” Paulo - por respeito. Mulato alto, bem falante, sem grandes estudos sistemáticos, mas portador do dom da palavra, muito elegante – só andava de terno, gravata e sapato engraxado - lustrador por profissão, compositor por talento, Paulo Benjamin de Oliveira resolveu fazer de Oswaldo Cruz, seu bairro de coração, um lugar bom de se viver, como era o centro da cidade, a Praça Onze..

Conheceu Antonio Rufino, mineiro sério, e Antonio Caetano, do Arsenal de Marinha. Com 25 anos, idade em que todos já estavam casados, permanecia solteiro, morando com a mãe. Como ganhava bem, sem compromissos maiores, passou a se vestir feito um príncipe. Ganhou o título: Príncipe Negro. Em 1925, lá na Mangueira, Cartola e seus amigos fundaram o Bloco dos Arengueiros, onde todo mundo saía para arengar, quer dizer, “ pra bater, pra brigar, pra ser preso”, uma bagunça só! Por que não fazer uma coisa séria, limpa, organizada? Foi o que fez.

Paulo da Portela é considerado uma das figuras mais importantes da história do sambaReprodução Internet

Em 11 de abril de 1926 os três fundaram o “Bloco Carnavalesco Escola de Samba de Oswaldo Cruz”. Seu símbolo, a águia, a que voa mais alto. O Bloco logo virou escola de samba “Vai Como Pode”. Respeitado, qualquer pai de família permitia que as filhas o acompanhassem. Devolvia uma a uma ao lar, na volta dos desfiles ou ensaios, intocada! Para manter a imagem de homem de respeito, nem podia namorar, prato feito para os desafetos, que passaram a questionar-lhe até a masculinidade! O grupo comandado por Paulo começou a fazer sucesso, ganhar respeito. Exigia elegância na roupa, no trato, nos gestos. Educação, a grande descoberta.

Ensaiava as pastoras, organizou o grupo como uma grande procissão sem reza, mas com sambas cantados com fervor. Paulo foi o grande estruturador do cortejo das escolas de samba como hoje as conhecemos. Em 1935, a “Vai como Pode”, por sua influência, passou a carregar o pomposo nome de “Grêmio Recreativo Escola de Samba Portela”. E a receber, por força de ato do prefeito Pedro Ernesto Batista, subvenção para desfilar para a enorme platéia que se postava nas calçadas da Avenida Presidente Vargas. Em agradecimento ao prefeito, regeu um coro de milhares de vozes cantando “Cidade Mulher”, de sua autoria, diante da Câmara Municipal, empunhando uma batuta guarnecida de prata.

Paulo foi o criador do primeiro samba-enredo plenamente realizado, “Teste ao Samba”, em 1939. Coincidentemente, fazia o papel de um professor dando aula aos alunos, metáfora daquilo que concebia como ideal: dirigia uma escola, onde cada um deveria aprender a respeitar e a respeitar-se. Fez parte da diretoria da primeira entidade de classe, a União das Escolas de Samba.

Amigo de intelectuais

Paulo da Portela fez política, tornou-se amigo de prefeito, escritores, intelectuais, virou membro da diretoria de diversas agremiações. Compositor respeitado, mestre de harmonia, dançarino de primeira linha, era um verdadeiro lorde. Portador de lesão cardíaca, morador de Oswaldo Cruz, casou-se, aos 38 anos, com um senhorita madura, chamada Maria Elisa. Foi Cidadão Samba, cantou no rádio, diretor musical de conjunto, líder de classe, enfim, lutou tanto por seu povo que nem esse povo entendeu a sua luta.

Em 1940, fundou com Cartola e Heitor dos Prazeres o Grupo Carioca, que saiu por aí divulgando o samba de sua gente. No carnaval de 1941, ao chegar de São Paulo com os dois amigos, vindo diretamente de um show, não lhe foi permitido desfilar na Portela. Sentiu-se expulso. Nos seis anos subseqüentes, nas escolas Paz e Amor e Lira do Amor, continuou seu trabalho, mas com o coração cheio de mágoa. Jamais se afastou do amor à Portela. Cansado, foi abandonando a arena. As 47 anos, na semana do carnaval, morreu de repente, não deixou filhos nem bens. Deixou uma obra musical considerável, onde se destacam “Cocorocó”, “Quitandeiro”, “Serei teu Ioiô”, “Ouro desça do seu trono”, “Orgulho, Hipocrisia”, “Olhar Assim”, “Cidade Mulher”, “Linda Borboleta”, entre outras.

De 18 de junho de 2000 a 18 de junho de 2001, o Museu da Imagem e do Som/MIS, em parceria com a Universidade do Estado de Rio de Janeiro/UERJ, com a Universidade Federal Fluminense/UFF, com o Centro Cultural Paulo da Portela/CCPP, a Associação das Velhas Guardas das Escolas de Samba e o apoio do Candongueiro, do Bip-Bip, do Instituto Palmares, da Casa de Noca, do Pagode da Tia Doca e de mais gente ainda, juntos no amor e no respeito ao maior dos baluartes do samba, dedicou um ano inteiro ao resgate da figura de Paulo Benjamim de Oliveira e da sua verdadeira dimensão como traço de união entre as massas e as elites, os negros e os brancos, os pobres e os ricos.

Homenagem do MIS em 2001

Para o Carnaval de 2001, o Museu buscou aprimorar a realização do seu já agora famoso Bloco MIS a MIS. O enredo selecionado homenageou o grande sambista Paulo da Portela, falecido em 1949, mas que, se vivo fosse, completaria nesse glorioso início do século XXI o seu centenário. Houve um concurso para escolha de samba-enredo, cuja sinopse distribuída aos concorrentes, foi desenvolvida com perfeição pelos vencedores: Ricardo Melo, Jorge de Paula e Marcelo Menezes, unanimemente consagrados pela comissão julgadora, de alto nível, composta por Marília Trindade Barboza, Maria Augusta, José Carlos Rego e Lígia Santos. Já agora os componentes do MIS a MIS alcançaram a expressiva cifra de 1.200 foliões.

Enredo: De pés e pescoços ocupados, como dizia Paulo da Portela
Autores: Jorge de Paula, Ricardo Mello, Marcelo Menezes

As estrelas da raça
Constelação de beleza singela
E reluz no céu de Oswaldo Cruz
Que imagem tão bela
De pés e pescoços ocupados
Fala elegante, gestos refinados
O bom sambista não marca bobeira
Deus da velha guarda
Paulo Benjamin de Oliveira

Um século se passou
Cocorocó, o galo já cantou
Perseguido por ser sambista
Ele deixou para nós uma pista
Hoje o MIS a MIS revela
Liberdade no asfalto e na favela

(O samba)
O samba é imagem, é som)
No compasso desse passo ) BIS
O bamba mostra seu dom)

Quando acabou a escravidão
E o Brasil então se fez nação
Ainda havia, ainda há – mas, quem diria?
O preconceito impedindo a união
O ouro não desceu do seu trono
Foi-se embora pras terras estrangeiras
Mas uma luz (uma luz) brilhou em Madureira
Foi a Portela com sua águia altaneira

(Oh meu Rio!)

Oh, meu Rio de Janeiro,)
Carnaval é a sua aquarela) BIS
Viva o samba verdadeiro )
MIS a MIS canta Paulo da Portela)

A legendária Dodô, 1ª porta-bandeira da Portela, emprestou uma das suas roupas de época, para que a porta-bandeira e o mestre-sala do Bloco MIS a MIS desfilassem como nos anos 40. Monarco gravou o samba graciosamente, mais um exemplo da generosidade portelense.

Nos doze anos que se seguiram, em todos os locais onde se canta samba de raiz, a figura de Paulo só tem crescido, reiterando as palavras sinceras de Cartola, registradas e repetidas pelo historiador José Ramos Tinhorão: “Eu sou o Cartola da Mangueira. Paulo da Portela era o Paulo de todas as escolas!”

Seja sob a ótica da cultura popular, seja sob a visão acadêmica, resgatamos o homem que viveu à frente do seu tempo. Que se sabia grande, talentoso, fértil de talento. Um homem que se autodefinia como anteprojeto de artista. Na verdade, a grande “sacada” de Paulo foi descobrir, antes de qualquer um, o significado de uma palavra que naquele tempo ainda não se usava: cidadania. O Príncipe Negro deu a sua vida por ela. Paulo, a mais alta patente da Estrada do Portela, foi Paulo da Portela antes de fundar a Escola. Porque Paulo vem primeiro. A Portela, muito depois.

Marília Trindade Barbosa

Pesquisadora e Historiadora da Música Popular Brasileira
Estudiosa sobre “Paulo da Portela”
Consultora dos filmes “Natal da Portela” e "Paulo da Portela – o teu nome não caiu no esquecimento”
Colaboradora ‘ad hoc’ do Departamento Cultural da Portela

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