Por raphael.perucci

Rio - Aos 68 anos, Jorge Perlingeiro diz que não consegue ficar parado. Aposentadoria? O apresentador do “Samba de Primeira” afirma que só vai pensar no assunto quando chegar aos 70. Enquanto a data não vem, o homem que é a voz da apuração do Carnaval do Rio segue a todo vapor na TV, agora em novos dia e horário — há duas semanas, seu programa deixou o domingo e passou a ser exibido aos sábados, às 23h, na CNT. Mudança, aliás, aprovada por Perlingeiro.

“O novo horário tem mais o perfil do público do meu programa. No horário antigo, eu só pegava canhão. Era ‘Pânico na Band’, Faustão, ‘Fantástico’, Silvio Santos”, explica o apresentador, que também é diretor social da Liesa (Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro).

Em entrevista, Perlingeiro fala sobre tudo isso e muito mais, como o carinho do público nas ruas, as gatas que vão ao “Samba de Primeira”, Carnaval e sua paixão pela Vila Isabel. 

Jorge Perlingeiro é a voz oficial da apuração do CarnavalDivulgação


O que você achou da mudança de dia e horário do Samba de Primeira?
Eu, particularmente, gostei. Já estava querendo mudar. O novo horário tem mais o perfil do público do meu programa. No horário antigo, eu só pegava canhão. Era “Pânico na Band”, Faustão, “Fantástico”, Silvio Santos. E meu programa é praticamente independente. Eu não tenho a pretensão de ganhar de ninguém e não vou fazer de tudo para aumentar audiência. Vejo estes programas sensacionalistas, eu não tenho nada contra, mas não vou apelar para tristeza. Gosto de falar do que é bom. Não que eu seja alheio ao que acontece no mundo, mas você liga a TV e só vê ponte caindo, gente morrendo, assalto. Alguém tem que falar de outra coisa na TV.

Mas você não achou o horário um pouco tarde?
Nada. No sábado, eu tenho o público que já saiu para jantar com a família e voltou e ainda tenho o público que ainda nem saiu. Além disso, eu fico mais à vontade para fazer as minhas brincadeiras mais picantes. Às 20h, não dá para falar nada, tem criança na sala. Mas depois das 21h, a novela já mostra os caras transando e ninguém fala nada. Então, eu posso brincar também.

Em mais de 40 anos de carreira, você agradece por ter conhecido ou entrevistado alguma personalidade?
Eu sou um privilegiado. Conheci muita gente legal, não só como apresentador, mas também como diretor social da Liga das Escolas de Samba. Posso falar o que eu quiser com quem eu quiser. Nunca usei o meu microfone para falar mal de ninguém. Nestes anos todos, nunca fiz um inimigo. Já levei muita gente desconhecida no meu programa. Quando eles estouram, eles voltam lá sem frescura. Tenho certeza de que eu sou o programa independente mais antigo da TV brasileira. Posso não ter uma equipe gigantesca, cenários monstruosos, mas o mesmo artista que vai na Globo canta no meu programa. Já ouvi muito grupo me chamando de padrinho. O Xande, do Revelação, e o Bruno, do Sorriso Maroto, beijam minha mão, dizem que eu abri as portas para eles. Mas eu não fiz nada demais. Eles estouraram porque têm talento e eu fico feliz por vê-los fazendo sucesso.

O que não pode faltar no Samba de Primeira?
Meu programa fala do que é bom, fala de variedades. Teatro é presença obrigatória. Meu pai sempre deu muita moral para o teatro e eu continuo fazendo o mesmo. Sempre dou dica de peças. Carnaval também não pode faltar. Agora, estou levando os carnavalescos para apresentar o enredo de todas as agremiações. Depois, vou levar os autores dos sambas-enredo. Fiquei orgulhoso quando a Regina Casé disse que se inspirou no meu programa para fazer o “Esquenta!”.

Jorge Perlingeiro agora comanda programa aos sábados na CNTDivulgação



Você percebe o carinho das pessoas nas ruas?
Onde eu passo na rua as pessoas me falam: “Só se for agora” (risos). Já ouvi muito “10, nota 10”.

É este carinho que faz você continuar na TV?
Na verdade, eu já cogitei a ideia de parar, mas eu não saberia o que fazer da minha vida. Tenho 68 anos e não consigo ficar parado. Acho que, quando eu chegar aos 70, vou pensar em pendurar o microfone, mas vou continuar prestando serviço ao Carnaval, fazendo as palestras e os eventos que eu faço. Se me convidarem, eu faço até batizado de cachorro. Não consigo ficar sem fazer nada. Talvez, eu esteja vivendo o melhor momento da minha vida.

As mulheres bonitas também têm um espaço garantido no seu programa. Você pode contar qual delas é a musa do Samba de Primeira, a mais bonita de todas?
Elas são todas lindas. Não dá para escolher. Eu consigo ver mulher bonita toda semana (risos). Isso é outra vantagem do meu programa. Mas fazer o quê? Eu gosto de mulher bonita. Então, não vou colocar halterofilista. Vou colocar a Rainha da escola de samba. Graças a Deus, o Brasil é um país muito próspero em beleza (risos).

Sua namorada sente ciúme?
No fundo, ela fica, mas ela já me conheceu assim.

Você nunca escondeu a sua paixão pela Vila Isabel. Anunciar uma nota 10 da Vila é diferente de uma nota 10 de outra agremiação?
É. Neste Carnaval, no último 10 da Vila, quase apanhei. Sério, queriam me bater. Eu mesmo quase caí da cadeira quando falei o 10. Todo juiz, jogador de futebol tem seu time e todo sambista tem sua escola. Não nasci Vila Isabel, mas fui trabalhar lá em 84 e me identifiquei com a escola. Eu não prejudico ninguém, mas não preciso esconder que sou Vila Isabel e América, este aí eu não largo nunca. Também não fico triste se outra escola vencer, gosto da Portela, da Mangueira.

Qual Carnaval foi inesquecível para você?
Engraçado, pensando assim nem me vem um Carnaval da Vila. Penso logo no “Ratos e Urubus — Larguem a Minha Fantasia”. Um enredo belíssimo que o Joãosinho Trinta fez pela Beija-Flor em 89. Parecia que não tinha mendigo nenhum na cidade. Todos estavam desfilando na Avenida. Nunca vi tanto trapo na Sapucaí. Antigamente, a limpeza da Avenida era feita depois da quarta escola. A Beija-Flor foi a terceira a desfilar, mas eles deixaram tanto lixo, tanto trapo, que tivemos que antecipar a limpeza. Acho que encheram uns três contêineres com os pedaços das fantasias que caíram. Foi muito emocionante. Também lembro de “O Amanhã”, enredo da União da Ilha. O samba da Vila este ano também estava lindo. Eu adoro Carnaval, me esbaldo.

Quando você não for mais diretor social da Liesa, pensa em ser jurado?
Não, acho que poderia ser parcial. Talvez, eu fosse dar nota maior para a Vila. Não quero problema. Deixa eu quietinho no meu canto (risos).

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