Por cadu.bruno

Paulinho Tapajós, que se foi na tarde da última sexta-feira, é filho do Brasil que o gerou e que, quando o perdeu fisicamente, não lhe soube reconhecer na medida certa o valor monumental de compositor, letrista. É certo que, nos obituários, as referências a Andanças e Sapato Velho facilitaram a identificação do grande público.

No entanto, Paulinho Tapajós contribuiu tanto à música brasileira com seu lirismo, com suas canções delicadas tranquilizam a alma, que receber o aposto de autor de duas canções – ainda que de excepcional qualidade – é ocultar-lhe uma obra rica e desconhecida da maioria. Ele não é nem será o único nesta situação.

Mais correto será dizer que Paulinho Tapajós é filho não de um, mas de dois Brasis – tamanha a diferença, para melhor e para pior, do país em que ele se formou e no qual despontou para a carreira artística e do qual agora ele se despede. Filho do radialista, produtor e compositor Paulo Tapajós, um dos pioneiros no rádio no Brasil, expoente da era do rádio, Paulinho é da geração que, tendo nascido nos anos quarenta, chegou à efervescência dos vinte e poucos anos na década de 60. E, com a herança da educação tradicional recebida pelos pais, quis não só rebelar-se contra ela – mas contra todos os padrões de comportamento e instituições estabelecidos.

No conturbado Brasil da segunda metade dos anos 60, alguns jovens afeitos à música estavam ávidos por criar coisas novas; mas, sabendo da importância das gerações anteriores, da força e da riqueza estética da tradição da música urbana e dos ritmos regionais, procuraram absorvê-los e recriá-los numa sonoridade moderna – num movimento dialético em que o antagonismo entre a tradição e a modernidade criou um novo padrão.

A geração que se revelou na Era dos Festivais, a última grande geração da música popular brasileira, representava este movimento – que ora pendia para, sem, fugir à nova estética, valorizar a tradição, como Edu Lobo, Chico Buarque, Geraldo Vandré, Sidnei Miller; ora para enfatizar o moderno, como os Tropicalistas. Paulinho Tapajós, assim como seu irmão Maurício, falecido em 95, valorizava a tradição.

No 3º. Festival Internacional da Canção, no mítico ano de 1968, Andanças ficou em terceiro lugar. Interpretada pela pré-sambista Beth Carvalho e pelos Golden Boys, a canção perdeu para duas outras cujo embate serviu de molde à aquarela daqueles tempos: Pra não dizer que não falei de flores, de Geraldo Vandré; e Sabiá, de Chico Buarque e Tom Jobim, a vencedora contestada pela multidão que, politizada até os ouvidos, elegeu e simples e forte composição de Vandré como a favorita.

Paulinho Tapajós gostava de samba: compôs vários, alguns com os grandes nomes. Pôs sua assinatura ao lado de Cartola e Nélson Cavaquinho. E chegou a arriscar-se no samba-enredo. Em 1998, participou com Moacyr Luz e Edmundo Souto (parceiro em Andanças ,junto com Danilo Caymmi ) da disputa de samba-enredo da Mangueira. O enredo era uma homenagem ao seu colega de geração e de festival Chico Buarque.

O desfile deu à escola o título, dividido com a Beija-Flor, no único empate da Era Sambódromo. Mas a trilha sonora do campeonato não foi dele. A composição chegou à final; derrotada, foi parar no CD de Moacyr Luz rebatizada de Ao Chico com carinho, em cuja gravação ouvem-se as vozes de Beth Carvalho e do próprio Paulinho Tapajós.

Neste link do youtube, pode-se ouvir a gravação.


Talvez seja tentador a muitos comparar o samba perdedor com o que foi para a avenida. Não é o propósito deste texto, que somente quer dizer, de modo prosaico, o quanto Paulinho Tapajós é importante e pouco reconhecido. A ele, com carinho, a alegria do carnaval. Fugaz, mas alegria.

Bruno Filippo é jornalista e sociólogo

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