Bruno Filippo: O verdadeiro valor de Délcio Carvalho

Colunista exalta compositor e destaca rica poesia de sua obra

Por O Dia

“Ah! Mas que vontade me deu de chorar/Com essa canção assim solta no ar/Parece até que foi feita para mim/”, diz a letra da tão desconhecida quanto bela valsa “Alfenim”, que Délcio Carvalho, com voz de compositor que sabe interpretar suas músicas, registrou em “A Lua e o conhaque”, gravado há dez anos pela gravadora independente CPC-Umes. As 16 faixas, todas de autoria de Délcio com parceiros, fazem desse disco um dos mais importantes não só do samba, mas da música brasileira em qualquer época.

Ao fim de sua audição, tem-se a certeza de que os versos iniciais de “Alfenim” descrevem, também, a sensação de êxtase pela beleza melódica e poética, pela qualidade dos arranjos e dos músicos. Mistura-se ao êxtase o estranhamento de nosso tempo: como pôde um compositor deste calibre permanecer a maior parte do tempo nas coxias, numa época em que por muito menos – cada vez menos! - pode-se passar para o proscênio?

Délcio Carvalho, que se foi na manhã desta terça-feira, duas semanas após Paulinho Tapajós, não era a rigor um desconhecido. Com mais quarenta anos de carreira, tinha músicas gravadas por Clara Nunes, Gal Costa, Roberto Ribeiro, Elizete Cardoso.

Délcio Carvalho morreu nesta quarta-feiraDivulgação

Ao lado de Dona Ivone Lara, formou uma das mais profícuas parcerias musicais - de que são exemplos os clássicos “Acreditar”, “Sonho meu” e “Alvorecer”. Mas, ao contrário da parceira que, quase nonagenária, conquistou tardia e merecidamente seu espaço como a grande dama do samba, faltou a Délcio a notoriedade para tirá-lo de um universo constrito; faltou-lhe, em vida, deixar de ser reconhecido apenas como o parceiro de Dona Ivone.

Délcio Carvalho é um estilista do samba; vai em direção oposta ao estilo que, desde a década de 80, mantém o samba em alta na indústria fonográfica. Seus sambas são líricos, melodiosos, tristes, sem a sonoridade mais pesada do pagode à Cacique de Ramos – embora haja pontos de interseção entre os dois estilos. Pertence à linhagem de Paulinho da Viola, Cartola, Nélson Cavaquinho, Guilherme de Brito, Nélson Sargento.

“Fio de Melodia”, outra de sua parceria com D. Ivone Lara, é a faixa que abre “A Lua e o Conhaque”. Sós, a voz de Délcio e os violões de Hélio Delmiro, com direito a solo jazzístico, garantem à gravação um toque de antologia. De certa forma, é a música-síntese do disco - e da carreira de Délcio.

Era tão somente um canto
Que a noite sem paz trazia
Um fio de melodia que embalava
Toda a solidão da gente
Que agasalhou meus sonhos
Que levou de mim os medos
Eu que vinha das saudades, das paixões,
Das aflições de mil segredos

Depois você me apareceu
Tal qual visão solta no ar
Com seu sorriso um sol se abriu
E beijou o mar
A natureza faz pensar
Que o sofrer tem sempre um dia de prazer
Todo cheio de alegria
Há sempre o amor que vai chegar
E o mundo gira sem parar
O vento sempre a sussurrar
O seu eterno cantar
Para fazer a gente crer
Que não há porque sofrer
Na festa do viver

Da primeira para a segunda parte da letra de “Fio de Melodia”, há mudança de perspectiva. A tristeza, a solidão, as paixões não correspondidas sucumbem ao aparecimento repentino de alguém que devolve ao “eu lírico” a alegria de viver. Na primeira parte, um canto e um fio de melodia embalam-no em noites de solidão.

Mas esse canto agasalha-lhe os sonhos, protegendo-os, e leva-lhe os medos; há tranqüilidade, sossego, esperança, portanto. Quando o amor que sempre vai chegar finalmente chega, é outro cantar, outro fio de melodia. Alegra-o, leva-o a crer que não há motivos para sofrer. Mas, descobertos os sonhos que estavam agasalhados, os medos voltam. Medo da traição, da desilusão, das saudades, das paixões - fonte de inspiração dos grandes mestres do samba.

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Ao pé do morro da Mangueira, numa birosca típica dessas paragens, Délcio Carvalho bebia cerveja e conversava num fim de tarde de verão, às vésperas do carnaval. Foi a última vez que o vi, há quase uma década. É fácil romantizar essa cena, enaltecendo a ingenuidade e a simplicidade do compositor que, em meio ao banal cotidiano, é capaz de edificar construções belíssimas. Resisto à tentação; vê-lo ali, naquela situação, era como o fio de melodia agasalhando-lhe os sonhos de prestígio e reconhecimento.

Délcio Carvalho deixou seus admiradores – ou, ao menos, este admirador - à espera do sussurro do vento. Na solidão dos dias sem medo, estava um dos maiores compositores do Brasil.