Por raphael.perucci

Um dos principais blocos da retomada do Carnaval de rua da Zona Sul carioca, o Simpatia É Quase Amor completa 30 desfiles neste ano, e presta uma homenagem ao criador do personagem cuja alcunha que lhe emprestou o nome. Esmeraldo Simpatia É Quase Amor encobria na realidade um primo mais velho, terror das domésticas de Vila Isabel, que conservava um bigodinho “refresco de suburbano”.

Aldir será homenageado pelo SimpatiaArte%3A O Dia

Ao ingressar de amarelo e lilás na sua fase balzaquiana, o bloco de Ipanema decidiu aproveitar uma primeira parte de um samba feito por Aldir Blanc para o CD comemorativo dos 15 anos do bloco, em 1999. Sua Ala de Compositores terá a difícil missão de completar os versos de um dos maiores compositores da música brasileira. Aldir topou e autorizou a brincadeira.

As inscrições se encerraram ontem, ou seja, quem aproveitou o embalo, vencendo ou não o concurso, terá em seu currículo de compositor um parceiro de peso. O Simpatia tem a tradição de bons compositores, portanto, Aldir pode ficar despreocupado porque vem coisa boa por aí. Eu mesmo já chamei meus parceiros Marceu e Orlando Magrinho e tratei de fazer a minha parte.

Depois de tal devaneio, parei para pensar no Aldir. Não o vejo há tempos, ele anda recluso, mas percebi que sua obra é parte fundamental da minha vida.

Em minhas lembranças de infância lá está minha mãe, Maria, em um piquenique, cantando ‘Latin Lover’ (“Me falaste de um sinal adquirido/ Numa queda de patins em Paquetá”). Já meu pai, Ivan, campeão de vela, mas também um boêmio, amante do samba e outras coisas boas da vida, teve um barco chamado Dragão do mar, que o levou a muitos títulos. Sempre lembro e lembrarei dele ao ouvir os versos de ‘Mestre-sala dos Mares’: “Ao acenar pelo mar na alegria das regatas/ Foi saudado no porto pelas mocinhas francesas/ Jovens polacas e por batalhões de mulatas”. Tá descrito o velho Ivan.

O Simpatia é Quase Amor nasceu em 1985 com o desejo de retomar o espaço público para, de forma carioquíssima, exercer a sua liberdade com alegria, crítica e beleza. A ditadura militar chegava ao fim. Antes disso, em 1979, Elis Regina clamava pela volta do “irmão do Henfil e tanta gente que partiu” no hino pela anistia ‘O Bêbado e a Equilibrista’, também da parceria de Aldir com João Bosco. Portanto os laços entre a turba e o poeta ultrapassam as fronteiras da folia.

Nessa homenagem do Simpatia ao mestre, e do mestre aos compositores do bloco, quem sai ganhando é o Rio de Janeiro. Como já disse o próprio Aldir: “É emocionante ver um personagem da Zona Norte virar bloco na Zona Sul”. Nesse caso o personagem é o próprio!

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