João Pimentel: Japa neguinha e as Mulheres de Chico

Ela é uma mistura da sabedoria oriental, do ouvir mais do que falar, com a irreverência e o charme carioca

Por O Dia

Sobrevivente do terremoto da cidade japonesa Kobe%2C em 1995%2C Mako faz parte do grupo Mulheres de ChicoDivulgação

Rio - Era o primeiro dia do ano. Curti a noite em que 2013 virou passado na casa que alugo em Benfica, próximo a São Pedro da Serra, distrito de Nova Friburgo, com meus compadres e minha afilhada Elena. O céu estrelado, o clima ameno se comparado ao calor escaldante que atormentou os cariocas na semana que antecedeu o réveillon, era um convite para a festa. Mas preferi a reclusão.

Dada a partida de 2014, saí de casa à convite de uma amiga, Lia, que falou de um sarau na casa de Cleise, uma artista plástica da região. “Parece que vão umas integrantes do Mulheres de Chico”, disse Lia. Logo na chegada, cruzei com três moças que vinham do bar da esquina em direção à festa. Dentre elas, reconheci uma japonesinha que eu havia entrevistado há tempos.

Não tinha como esquecer a figurinha que é Mako. Não lembro como esta matéria apareceu na minha mão, mas foi surrealista encontrar uma japonesa sobrevivente do terremoto que sacudiu Kobe, em 1995, que, apaixonada pela música brasileira, decidiu viver cada momento de sua vida como se não houvesse amanhã.

Veio para o Rio disposta a aprender bossa nova e samba. Caiu na casa da mãe de uma amiga, em Ramos, e ficou decepcionada ao voltar para o Japão sem falar uma palavra de português. Obstinada, juntou dinheiro e voltou, desta vez para Copacabana. E tudo mudou. Fez oficinas de percussão do Monobloco, estudou com o mestre dos ritmos Robertinho Silva e virou integrante dos blocos Exalta Rei e Mulheres de Chico, onde brilha com sua inusitada versão de “A banda”, de Chico Buarque, em japonês.

Quando nos cruzamos na festa, ela me cumprimentou com um efusivo: “E aí?” Então lembrei a ela que eu a havia entrevistado em seu apartamento, no Bairro de Fátima. Mako, então, às gargalhadas, me disse que não havia me reconhecido, e que o tal “e aí?” era sua maneira de ser carioca. Era a forma de não constranger o “desconhecido íntimo” rodrigueano.

A partir desse encontro conheci uma turma muito bacana, como as ritmistas Teca e Angela, além de Vivian, a cuiqueira que com uma amiga teve a ideia de juntar cantoras e ritmistas para homenagear o compositor que melhor revelou a alma feminina.

Sou daqueles que marca cinco compromissos ao mesmo tempo e não comparece a nenhum. Mas precisava desfrutar mais daquele astral. Então, na sexta passada, fui à Sala Baden Powell assistir ao show da mulherada. Saí de lá encantado com tudo. Com as cantoras e seus arranjos vocais, com o repertório que foge ao óbvio em canções como ‘Sou Eu’, de Chico e Wilson das Neves, com o entrosamento da turma e, claro, com a performance cheia de suingue de Mako, a mais animada, como se vivesse um sonho constante.

Me lembrei de uma amiga que tinha o apelido de japa neguinha por ser filha de pai japonês e mãe baiana. Não, ali estava a verdadeira japa neguinha, uma mistura da sabedoria oriental, do ouvir mais do que falar, com a irreverência e o charme carioca. Mako ainda tropeça em algumas pronúncias, mas até o erro vira piada, como na canção ‘Geni e o Zepelin’, quando um desavisado microfone chegou à sua mão e ela gritou a plenos pulmões: “Taca bôsta na Geni!”

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