Luis Pimentel: Samba e monarquia

É criador de encher os olhos, autor de sambas que estão entre os mais deliciosos da MPB

Por daniela.lima

Luis Pimentel%3A Samba e monarquiaDivulgação

Rio - Estou cercado de bambas em mesa do Bar da Maria, na Muda, no final dos anos 90: Paulo César Pinheiro, João Nogueira, Luiz Carlos da Vila, Moacyr Luz... (e pra que mais, né?...) quando chega o grande Monarco, avisando que não poderia demorar. Lançávamos uma das edições da pequenina ‘Revista Música Brasileira’, e esses gigantes davam uma prestigiada. Comento, quando Monarco se afasta: 

— Impressionante! Chegando aos 70 e com esse cabelo ainda tão pretinho.
Nogueira, nó na madeira, dando um gole na gelada e um trago no cigarro, àquela altura ambos já proibidos pelo médico:
— Cê bobo, cumpádi. O mestre deve ter feito aí um bom sinteco capilar...
João era um brincalhão. Monarco nem parece, mas é um grande contador de causos, como este: diz que numa das reuniões históricas entre compositores com os antigos companheiros da Velha Guarda, a mulher de um deles (Chico Santana) reclamava do machismo no repertório.
— Nas músicas de vocês a mulher é sempre a ingrata, a traidora, a leviana...
Dia seguinte, o parceiro se encheu de brios e romantismo, mostrando um samba vaselina, carregado de meu amor, minha flor, minha paixão, sem você não vivo etc. Quando acabou de cantar, a patroa, que ouvia atentamente, perguntou:
— E quem é essa puta, Chico?!
Melhor que o causo, só a gargalhada de Monarco, ao acabar de contá-lo.

Tendo à frente o bravo Serginho Procópio, arcebispo do cavaco e primaz da Portela, a escola que agora tem Seu Monarco como presidente de honra está prometendo fazer um Carnaval como nos velhos tempos. Todos ali merecem, especialmente o grande baluarte. Sou fã e tiete desse sujeito admirável e compositor genial, que começou a carreira ainda menino e até hoje exerce o seu ofício, e bem. Até hoje canta, cada vez melhor. Sozinho ou ao lado da família de músicos que a vida lhe deu, Hildemar Diniz, o nosso Monarco, não para de trabalhar.

É criador de encher os olhos, autor de sambas que estão entre os mais deliciosos da MPB e do repertório de excelências como Zeca Pagodinho, Paulinho da Viola, Clara Nunes, Martinho da Vila e Beth Carvalho. Monarco tem alguns discos gravados (com certeza, bem menos do que merece), inclusive no Japão. Ainda corre para cima e para baixo (quando faz bom tempo, viaja até o estrangeiro), em busca de shows que garantam o sustento e a dignidade. Mas sem perder a elegância e o bom humor.

É uma das joias mais raras da nossa música e do Carnaval brasileiro.

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