Por daniela.lima

Rio - Suando em bicas, Dudu Nobre adentra a Cidade do Samba, na Zona Portuária, embaixo de um sol de meio-dia e logo avisa: “Com esse calor, se não tomarem bastante cuidado vai ocorrer um incêndio aqui. Se não aconteceu ainda, deve ser porque Deus está olhando muito para cá”, alerta o sambista, com conhecimento de causa. “Estou praticamente morando aqui.” 

Dudu Nobre, entre as dançarinas Karla Moreno (E) e Tuane Rocha, que atuam em seu DVD e showEstefan Radovicz / Agência O Dia


Coautor do samba-enredo ‘Pernambucópolis’, que a sua Mocidade Independente de Padre Miguel vai defender no Carnaval este ano, Dudu está se dividindo entre a carreira solo — nesta sexta-feira, ele lança o novo DVD ‘Os Mais Lindos Sambas-Enredo de Todos os Tempos’ em show no Vivo Rio — e a direção musical da agremiação. “Se o dia tivesse 32 horas, eu estaria 32 horas respirando a Mocidade. Não sei como estou conseguindo, porque eu tenho uma carreira fora do mundo das escolas de samba”, ressalta.

Parece incrível mesmo, porque, no meio disso tudo, ele ainda arruma tempo para enfileirar Marquês de Sapucaí adentro os clássicos sambas-enredo registrados no DVD, no dia 23 deste mês, como parte das comemorações pelos 30 anos do Sambódromo.

“Será na tradicional lavagem da Sapucaí. Vou cantar em um trio elétrico, acompanhado de 100 ritmistas,mais de mil baianas, integrantes das velhas guardas e todos os casais de mestre-sala e porta-bandeira das escolas do Rio”, detalha Dudu Nobre, que vira puxador por um dia na ocasião. “Eu tinha esse sonho quando garoto, de ser intérprete de escola de samba.”

Sonho que este ano ele realiza pela primeira vez no Grupo Especial, já que dá o grito de guerra anunciando a entrada da Mocidade na Avenida e canta do carro de som o samba da agremiação. Porém, recordar com o público o repertório imbatível de ‘Os Mais Lindos Sambas-Enredo...’ guarda emoções únicas de sua memória afetiva: estão lá os inesquecíveis sambas ‘É Hoje’ (União da Ilha do Governador, 1982), ‘Liberdade, Liberdade Abre As Asas Sobre Nós’ (Imperatriz Leopoldinense, 1989), ‘Contos de Areia’ (Portela, 1984) e ‘Aquarela Brasileira’ (Império Serrano, 1964), entre vários outros memoráveis.


“Dá uma saudade enorme. O Carnaval mudou muito e chegou a um ponto em que as escolas precisam ter um enredo patrocinado. Isso esbarra na qualidade do samba-enredo. Criou-se uma fórmula de se fazer samba-enredo e, apesar de muitos compositores quererem mudar, as escolas não se sentem seguras a apostar”, lamenta. “Hoje, o faturamento fala mais alto, daí uma empresa que fabrica lona vai na escola e oferece dinheiro para se fazer um enredo. E aí o compositor tem que se virar para fazer enredo sobre lona. Espero que meu retorno à composição de sambas-enredo ajude a operar essa mudança”, vislumbra Dudu.

Seu samba para a Mocidade este ano — a escola será a primeira a desfilar na segunda-feira de Carnaval, dia 3 de março — exulta a paixão do torcedor no verso “com muito orgulho eu sou Mocidade”. Depois do susto do quase rebaixamento em 2013, o cantor e compositor está confiante que volta à Sapucaí para o desfile das campeãs. “A Mocidade é que nem o meu Flamengo: ‘incaível’”, diverte-se.

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