Clã de Castor de Andrade volta à Mocidade

Sobrinho de bicheiro assume comando e reafirma a influência da contravenção no samba

Por O Dia

Rio - A alta temperatura no barracão da Mocidade Independente de Padre Miguel subiu ainda mais na noite de terça-feira, dia 4, quando o contraventor Rogério Andrade entrou na sala da presidência. O sobrinho do lendário bicheiro Castor de Andrade apareceu na reunião de diretoria para dar um ultimato. Depois de criticar a gestão de Paulo Vianna, à frente da escola há dez anos, anunciou, olho no olho: “Você agora vai sair e nunca mais concorrer ao posto.” Os presentes à reunião, alguns armados, viram Vianna concordar. Estava selada a volta ao poder na Mocidade de um membro da família Andrade, 16 anos após a morte de Castor.

No dia seguinte, Vianna divulgou uma carta de renúncia que surpreendeu o mundo do samba. Mesmo depois de ser denunciado pelo Ministério Público por falsificar centenas de assinaturas de uma assembleia, ele nunca fizera menção de deixar o cargo. Só os poucos que souberam da conversa travada com Rogério Andrade na noite anterior entenderam seu gesto.

Logo após aquela reunião, as fotos, a bandeira do Vasco e outros pertences de Paulo Vianna foram retirados da sala da presidência e jogados no lixo. Oficialmente, Wandyr Trindade, vice-presidente, assumiu o posto. Mas todos na escola sabem: quem manda agora é Rogério, pela primeira vez assumindo a condição de patrono.

Ensaio na quadra da Mocidade Independente de Padre Miguel%3A reduto durante anos do bicheiro Castor de Andrade%2C a escola volta a ter um integrante da família no comandoOsvaldo Praddo / Agência O Dia

Trata-se de uma reviravolta em seu estilo normalmente discreto e distante do Carnaval. Nos últimos anos, Rogério só apareceu no noticiário por fatos ligados à disputa pela contravenção: a acusação de assassinato do primo, Paulinho Andrade (da qual foi inocentado); as apreensões de máquinas caça-níqueis e a sanguinária disputa com o genro de Castor e também contraventor Fernando Iggnacio, que rendeu de parte a parte vários atentados a tiros e até mesmo a bomba — em 2010, o filho adolescente de Rogério morreu quando seu carro explodiu à luz do dia, na Barra. Nos assuntos relativos ao samba, sempre acompanhou de longe. Mas isso agora está mudando.

No ensaio da Mocidade realizado no sábado, dia 8 — o primeiro após a renúncia de Vianna —, Rogério surgiu no palco. Na nova quadra, o novo patrono, sorridente, conversava, animado, com integrantes da bateria. Para simbolizar os novos tempos, as faixas que faziam alusão ao antigo presidente foram retiradas e um enorme castor, símbolo da família, desenhado em neon verde, está prestes a ser instalado.

Contraventor dá as cartas e já planeja o Carnaval 2015

Quando Rogério assumiu o poder, o trabalho no barracão da Mocidade Independente estava atrasado por falta de pagamento aos trabalhadores. Ele não só colocou os salários em dia, como aumentou a remuneração. Outra mudança de emergência foi a troca da rainha de bateria. Ana Paula Evangelista foi destronada. Depois de considerar vários nomes globais, optou por convidar para o posto a atriz Mariana Rios, atualmente em cartaz na novela das 19h da TV Globo.

Se as mudanças atuais já são grandes, os planos do contraventor para o desfile do ano que vem são ainda mais ambiciosos: pretende fazer uma proposta polpuda para trazer de volta o carnavalesco Renato Lage (atualmente no Salgueiro e três vezes campeão na Mocidade) e o puxador Wander Pires.

No ensaio do último dia 8, Rogério não carregava o semblante fechado pelo qual é conhecido. Do camarote da presidência, acenou para todos os presentes, jogou beijo para passistas e casais de mestre-sala e porta-bandeira. Na passagem pelo palco, arriscou até mesmo uma ‘sambadinha’ à frente dos ritmistas.

Rogério Andrade (de camisa clara) agora é quem toma as decisõesOsvaldo Praddo / Agência O Dia

Nada comparável à desenvoltura do tio, Castor de Andrade, normalmente simpático e sorridente quando não estava tratando de assuntos relativos ao jogo do bicho. Castor não se cansava de desfilar à frente da Mocidade e fez até discursos. Deu entrevistas em programas de TV e contava abertamente histórias curiosas da contravenção.

Ao se aproximar do estilo de Castor, o patrono Rogério deixa no ar uma dúvida: ele fará como o tio, que, mesmo metido no jogo do bicho, fazia questão de exibir seu poder para o público, evoluindo no Sambódromo? Não se sabe se o perfil de Rogério mudou a tal ponto. A resposta será conhecida apenas quando a Mocidade entrar na Sapucaí.

Liesa recebe R$ 6 milhões do estado

Na sexta-feira passada o governo estadual publicou no Diário Oficial repasse de R$ 6 milhões para a Liesa.Segundo a Secretaria Estadual de Turismo, o repasse é feito todo ano. O deputado Dionísio Lins (PP) encaminhou ontem ao órgão requerimento de informações.

“O Carnaval já está em cima e só agora esse valor está sendo destinado. Queremos saber como a verba será distribuída, se esse montante vem de patrocinadores ou do próprio governo, e o porquê de somente as escolas do Grupo Especial serem beneficiadas”.

UM ENREDO QUE AINDA NÃO ACABOU NA SAPUCAÍ

Com seu novo padrão de comportamento, Rogério Andrade ingressa na extensa galeria de contraventores que dão as cartas nas escolas de samba cariocas. Vários deles estão em plena atividade no Carnaval da Sapucaí.

Na campeã Vila Isabel, Wilson Vieira Alves, conhecido como Moisés, é o atual presidente de honra. Condenado a 23 anos de detenção por contrabando, corrupção ativa e formação de quadrilha, ele se beneficia de um habeas corpus do STF para tentar livrar a agremiação de uma crise que atrasou o início da produção do desfile.

Outros contraventores que fazem o papel de patrono poderão sambar este ano na Sapucaí. O bicheiro Aniz Abraão David, o Anísio, continua pontificando na Beija-Flor, cujo enredo é a vida de Boni, o medalhão da TV Globo. Já Luizinho Drummond poderá passar na tradicional Imperatriz Leopoldinense, este ano tendo como homenageado o ex-jogador Zico.

“Ninguém quer ficar no papel de vilão, todos querem ter uma imagem positiva”, antropóloga Alba Zaluar, da UERJ. “É pena que algumas agremiações, depois de conseguir algum nível de autonomia, voltem a ficar dependentes.”

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