Luis Pimentel: Uma história de outros Carnavais

A cidade cheira a alegria, apesar do xixi abundante e dos aloprados que prendem meninos em poste e explodem morteiros em praça pública, matando inocentes

Por O Dia

Rio - O Carnaval naquele ano caiu em março, mas logo se levantou. Este ano também cai, mas, a julgar pela temperatura, que deve subir ainda mais a partir do fim de semana, não convém fazer prognósticos.

As escolas de samba não deixarão de desfilar, os blocos de rua já estão, mais uma vez, fazendo o carioca se lembrar da folia mais autêntica, e foliões de todas as idades enfeitam o Rio de Janeiro , da Perereca Imperial em São Cristóvão, aos grupos de clóvis da Zona Oeste.

A cidade cheira a alegria, apesar do xixi abundante e dos aloprados que prendem meninos em poste e explodem morteiros em praça pública, matando inocentes. O calor ferve moleiras e Alá­lá­ ô nem quer mais rezas. O que tem nos faltado é tolerância e delicadeza, como na história do casal amigo que, em outros Carnavais, encarou um trem da Central para se esbaldar no subúrbio.
Foi assim:

Ele, um belga gente finíssima, abrasileirado e bem chegado ao samba. Ela, mulata de Botafogo, daquelas de fechar quarteirão em seu doce gingado a caminho da enseada ou dos ensaios da São Clemente.

Viajavam em pé no vagão lotado quando o passageiro oportunista colou na mulata com disposição, unha no calcanhar, joelho penetrante, barriga nas costas e bafo de batida de limão no cangote. Incomodada, ela cochichou no ouvido do marido, denunciando o abuso e pedindo providências.

Alegou que sentia certa pressão na retaguarda mais para baqueta de surdo do que para vareta de tamborim Cidadão de primeiro mundo, o belga educadíssimo dirigiu­se ao aproveitador:

— O cavalheiro faria gentileza de afastar sua membro do bunda de meu mólher?

Surpreso com tamanha delicadeza, acostumado a outros apitos no embalo do trem, o tarado pediu desculpas, guardou os instrumentos e foi tocar em outra freguesia. Mas a mulher achou pouco e cobrou do maridão uma atitude mais firme:

— Não acredito, meu amor! O cretino encosta em mim, se esfrega em mim, se aproveita de mim, e vai ficar por isso mesmo?

Olha a lição de convivência que o estrangeiro nos deu:

— Parra quê confuson, meu querrida? Non era a membro dele que a incomodava? O cavalheiro se afastou do seu bunda, não precisamos brigar.

Bons tempos. Depois dos dias de cuíca voltemos às britadeiras; pra não perder o ritmo.
A cidade cheira a alegria, apesar do xixi abundante e dos aloprados que prendem meninos em poste.

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