Por daniela.lima
Luís Pimentel%3A Gênesis%2C o poder da criaçãoDivulgação

Rio - No princípio era o Verbo. No livro da Bíblia, o Verbo estava com Deus, e “o Verbo era Deus.” Pelos deuses do Carnaval, que daqui a dois dias tomam conta de vez da cidade, no princípio era também a alegria,porque todo poder durante esses dias emana do povo; especialmente o poder da criação. Se no Gênesis “a luz resplandece nas trevas”, aqui resplandece no Sambódromo e nas principais ruas e avenidas por onde os blocos vão passar, iluminando a nossa esperança de que, pelo menos durante esses dias, homens, mulheres e meninos possam ser felizes. Muito embora se trate apenas da felicidade efêmera. Mas onde há fé há também esperança — no repique, no tamborim, na cuíca, no tambor e no rebolado daquela passista a nos provar que a criação divina também pode ser feita de carne e osso; mais carne do que osso.

No princípio era o Verbo e o Verbo era de Silas de Oliveira, Mano Décio da Viola, Cartola, Carlos Cachaça, Babaú da Mangueira, Sabiá e Anescarzinho do Salgueiro, Guará, Beto Sem Braço, Zé Katimba, Dona Ivone Lara, Ismael Silva, Noca da Portela, Monarco, Nelson Sargento, Martinho e Luiz Carlos da Vila... E quem puxava o verbo era Jamelão, Quinho, Gera, Dominguinhos do Estácio, Neguinho da Beija­Flor... Todos de olho no altar onde pontificavam Xangô da Mangueira, Mestres André e Louro... cito esses porque hoje não sei muito bem como é que a banda toca.

Mas sei que muita gente boa, seja pura ou impura, derramou vales de lágrimas na Avenida, acompanhando a escola do coração em passos e compassos que diziam “Minha romântica senhora tentação/Não deixe que eu venha sucumbir nesse vendaval de paixão”, ou “Neste cenário de real valor/Eis o mundo encantado que Monteiro Lobato criou”, ou ainda “Nossa sede é a nossa sede de que o Apartheid se destrua”...

Se nas palavras do criador, “a lei foi dada por Moisés; a graça e a verdade vieram por Jesus Cristo”, podemos reafirmar que nesse santo terreiro que vai dessa sexta-feira até no mínimo a outra, a lei foi dada por Fernando Pamplona, Joãozinho Trinta, Arlindo Rodrigues, Maria Augusta, Max Lopes, Milton Cunha, Rosa Magalhães, Paulo Barros...

Porque no princípio era o Verbo e toda verba é pecadora (especialmente aquelas que definem o Carnaval de encomenda), peço à Igreja que não veja blasfêmia nessas palavras, não me crucifique que nem ao Cristo­Mendigo­Joãozinho­Beija­Flor, pois essa verborragia não passa de brincadeira.

E evoé, querido Momo!

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