Por thiago.antunes

Rio - A águia da Portela voltou a voar alto. Depois de quatro carnavais fora do Desfile das Campeãs, a Azul e Branco retoma entre as melhores com o terceiro lugar. E para fazer jus à colocação, mais de 600 portelenses lavaram a alma e lotaram a quadra da escola ontem. No gelo, um estoque de mais de 28 mil latas de cerveja. Durante a leitura das notas na Sapucaí, a diretoria ficou abraçada e ainda acreditava na possibilidade do título, que não vai para Madureira há 30 anos. Em 1984, a Portela foi a campeã de domingo e, em nova disputa no segundo dia, a supercampeã foi a Mangueira.

“Nós sabemos que podemos fazer muito mais. Isso é só o início de felicidade para os portelenses. Há tempos não disputávamos ponto a ponto a possibilidade de um título”, afirmou o presidente Sérgio Procópio, o Serginho. Segundo ele, os R$ 8 milhões gastos para o Carnaval deste ano já foram quitados. “Nós ainda temos R$ 12 milhões em dívidas que foram parcelados. São pagamentos que devem ser feitos à Cedae e à Light e em ações trabalhistas, por exemplo. Mas é melhor receber em um milhão de vezes do que ficar sem o pagamento”, disse.

Águia%2C símbolo da escolaSeverino Silva / Agência O Dia

Para o vice-presidente Marcos Falcon, a Azul e Branco pode ir muito mais longe. “Terceiro lugar não é vitória. Não podemos perder o foco. O dever foi cumprido, mas queremos ganhar o campeonato”, afirmou Falcon, enfatizando o resgate da importância da história da agremiação no Carnaval carioca.

O samba-enredo nota 10 — a escola foi a única a conquistar as quatro notas máximas no quesito — ecoou em Madureira antes, durante e após a apuração. A confiança no potencial do samba era tanta que, antes de sair a nota, os torcedores já gritavam comemorando. "Nós levantamos a Avenida e não tinha uma pessoa na arquibancada que não soubesse cantar o samba", declarou Vivian Nunes, que desfila há 13 anos na agremiação.

Carro abre-alas da PortelaFoto%3A Carlos Moraes / Agência O Dia

Mas algumas notas baixas, como o 9,5 da comissão de frente e o 9,7 da bateria, deixaram uma ponta de decepção. “Tivemos algumas injustiças. Como pode dar 9,7 para nossa bateria? É difícil entender cabeça de jurado”, questionou o primeiro mestre-sala, Diogo Jesus. O casal levou duas notas 9,9. “Ano que vem vamos triplicar nosso trabalho”, garantiu a primeira porta-bandeira, Danielle Nascimento, que defendeu o pavilhão Azul e Branco pela segunda vez.

Promessa de voo mais alto ano que vem

A Portela recebeu 22 notas 10, o que não acontecia há anos. “A nova administração está no caminho certo”, apontou o presidente da ala das passista, Valci Pelé. No rosto de cada portelense na quadra era possível ver a emoção. Muitos choraram, como a componente Elizete Lima, que desfila há 20 anos. “É muito gratificante ver a águia voltar. Calamos a boca de muita gente e mostramos a potência que somos. Aguardem ano que vem”.

Portela vibra com boa colocação no Grupo EspecialJoão Laet / Agência O Dia

A Azul e Branco, que levou para a Sapucaí a história da Avenida Rio Branco, ficou atrás da segunda colocada, o Salgueiro, por apenas três décimos. No ano passado, a Portela amargou o sétimo lugar com enredo que falava sobre Madureira. “Foi só o começo da nova Portela. Fomos para brigar pelo título, mas estamos satisfeitos com o terceiro lugar. O portelense voltou a ficar de cabeça erguida e é isso que mais importa”, declarou Jane Carla, presidente da ala das baianas.

O verbo acreditar é tratado como obrigatório na Portela. “São trabalho e amor que vão levar a escola a andar a mil por hora. A nossa maior expectativa é com a ideia de mudança e vamos ainda mais longe”, disse o presidente Serginho Procópio.

Beija-Flor fica em sétimo

Os mais de 40 litros de cachaça usados pelo diretor de Carnaval Laíla para ‘limpar a energia negativa’ da Sapucaí não foram suficientes para a Azul e Branca de Nilópolis conseguir um bom resultado este ano. Pelo contrário. Nunca antes na história do Carnaval a Beija-Flor pisou na Avenida vaiada pelo público. Pior do que a sétima colocação, foi amargar, pela segunda vez na era Sambódromo, a derrota de estar fora do desfile das campeãs, fato que não ocorria há 22 anos.

Sentindo o peso do resultado ruim, Laíla deixou ontem a Apoteose faltando ainda três quesitos para o final da apuração. E afirmou que seu futuro depende de decisão da direção da Beija-Flor. “Não sei o que vai acontecer. Tudo depende da diretoria. A responsabilidade do Carnaval é minha. Agora é colocar a cabeça no travesseiro e pensar.”

Comissão de frente e casal de mestre-sala e porta-bandeira se apresentaram 'juntos'Carlos Moraes / Agência O Dia

Antes, porém, falou entre risos sobre o ritual polêmico que fez na concentração antes do desfile. “As outras torcidas me chamaram de palhaço, dizem que eu sou o ‘macumbeiro’ da escola. Sou espiritualista, sim. Reuni a diretoria, que pensa religiosamente como eu. A escola comprou muitas garrafas (de cachaça) e os diretores levaram algumas. Mas isso não me abalou e a resposta foi o desfile que fizemos”, declarou.

Mas a apresentação da Beija-Flor não empolgou o público e parece não ter agradado também os jurados. Foram poucos os julgadores que deram nota máxima à agremiação, que perdeu pontos até em quesitos que são seu forte, como alegorias e adereços, harmonia e mestre-sala e porta-bandeira.

blaCarlos Moraes / Agência O Dia

Aliás, a evolução do casal dentro de uma estrutura de ferro, cercada de bailarinos voadores, pode ter atrapalhado o bailado já consagrado de Selminha Sorriso e Claudinho. A dupla não acompanhou ontem a apuração da Sapucaí.

O enredo sobre o comunicador Boni também não levou nenhuma nota 10. Já o samba chegou a receber um 9.5, que foi descartado, mas foi a mais baixa nota no quesito entre as demais escolas. Outra nota semelhante, também descartada, foi dada por uma das julgadores da comissão de frente. “Não sei o que houve. Carnaval é assim mesmo. Mas a luta continua, e saber perder também é uma virtude”, disse o intérprete Neguinho da Beija-Flor, desanimado, no fim da apuração.

Frustração com sequência de notas baixas

O presidente da Beija-Flor, Farid Abrão David, deixou a Sapucaí ontem antes mesmo do resultado final da apuração. Ele saiu rapidamente para evitar comentários sobre a colocação da escola. Mas deixou escapar que os problemas da agremiação não passaram de injustiça dos jurados.

Beija-Flor faz despacho antes de entrar na AvenidaNara Boechat / Agência O Dia

“Foi uma injustiça. A comunicação não é tão valorizada quanto o esporte (em referência ao título da Unidos da Tijuca, sobre o piloto Ayrton Senna). Mas não vamos fazer nenhuma mudança de cabeça quente”, disse ele sobre o Carnaval do ano que vem. Na quadra da escola, em Nilópolis, a euforia das primeiras notas deu lugar à frustração. A decepção estava estampada no rosto dos moradores e membros da escola, que não acreditavam na sequência de notas baixas. Alguns chegaram a chorar.

Os nilopolitanos, então, passaram a gritar a cada nota baixa das agremiações que lideravam a disputa. Musa da Beija-Flor, Elaine Lima, 38 anos, não escondeu a tristeza: “O desfile foi maravilhoso. Foi muita dedicação o ano inteiro. Estávamos com muita fé de que daria tudo certo”, contou.

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