Viradouro promete luxo em enredo sobre a negritude

Escola, que fez ensaio técnico neste domingo na Sapucaí, traz samba inspirado por Luiz Carlos da Vila

Por O Dia

Rio - ‘Lá vem a Viradouro aí, meu amor!’. Em 1997, a escola de Niterói conquistava o título de campeã do Grupo Especial com um enredo sobre o universo, de Joãosinho Trinta. Dezoito anos depois, e com idas e vindas à elite do Carnaval, a Vermelha e Branca pisa na Sapucaí para falar dos negros, com o enredo ‘Nas Veias do Brasil, É a Viradouro em um Dia de Graça!’. Os temas são diferentes, mas o luxo característico da agremiação promete continuar sendo o ponto alto do desfile — um gostinho dele pôde ser sentido ontem, no ensaio técnico da agremiação na Sapucaí.

O carnavalesco da Viradouro, João Vitor Araújo, mostra carro alegórico no barracão da escola, na Cidade do Samba: “Queremos exaltar o negro e falar da importância dele para o país”Fernando Souza / Agência O Dia


Para deixar os jurados e a plateia boquiabertos, a Viradouro levará um abre-alas com 60 mil litros d’água, num carro com 50 metros de extensão. E, para fazer jus ao enredo sobre a negritude, dos 3.500 componentes que irão para Avenida, mais de dois mil serão negros. A quinta alegoria também promete saltar aos olhos. No alto do carro, todo articulado, haverá uma escultura de 7 metros, onde uma ama de leite negra amamentará um bebê branco. “Queremos exaltar o negro e falar da importância dele para o país. Esse carro é para causar reflexão e mostrar que o Brasil é rico em mistura, e que não existe ninguém puro de raça”, detalha o carnavalesco da Viradouro, João Vítor Araújo, detentor do título de campeão da Série A no ano passado.

No abre-alas, sobre a África e seu reinado, os bichos do continente ganharão toques dourados. O carro trará 60 componentes negros, que contarão com um trunfo: o canto. “Não sou muito a favor de coreografia, porque a escola tem um chão forte. Gosto de ver o povo cantando. Essas 60 pessoas estão ensaiando o samba e vão causar um impacto enorme na hora do desfile”, garante João.

O segundo setor vai representar o transporte dos escravos pelo navio negreiro. Mas, em vez de levar a dor daquele povo, a escola optou por mostrar a alegria. “Vai ser um navio transcendental. Não vai ter tristeza nem chibata. Terá o negro vitorioso, que tem respeito por sua cultura”, explica o carnavalesco da escola.

A origem do samba será retratada numa alegoria em formato de morro, chamado Viradouro. Lá, as primeiras escolas de samba, como Mangueira, Estácio de Sá e Portela, serão homenageadas. Tia Ciata, cozinheira e mãe de santo que abrigava sambistas em sua casa, também será lembrada. No último carro, o agradecimento à raça negra e ao compositor Luiz Carlos da Vila — a inspiração para o enredo veio de dois sambas de autoria dele. Quinze parentes do sambista já confirmaram presença no desfile. Todas as alas desse setor serão em verde e amarelo. 

Volta à Série A após quatro anos

Na pesquisa para o enredo, a Viradouro ganhou um nome de peso. O diplomata brasileiro Silvio José Albuquerque Silva, que já foi assessor do ex-ministro do Supremo Tribunal Federal Joaquim Barbosa, foi o responsável por reunir toda história sobre os negros. “Recebi 30 páginas de pesquisa e tive que transformar em uma. Foi uma honra tê-lo no trabalho”, revela João Vitor. Silvio já confirmou sua presença no desfile e irá na ala da diretoria.

A sinopse foi desenvolvida por Milton Cunha, carnavalesco da agremiação em 2009, a partir de duas músicas de Luiz Carlos da Vila: ‘Nas Veias do Brasil’ e ‘Por Um Dia de Graça’. O enredo sobre negros estava guardado na escola há quatro anos. Sem patrocínio, a Vermelha e Branca de Niterói trabalha com dinheiro próprio e a subvenção dos órgãos públicos para colocar o Carnaval na rua. “É muito caro fazer um desfile assim. Só com um bloco de isopor, gastamos uma média de R$ 400, e precisamos de umas 400 unidades para fazer esculturas”, contabiliza o carnavalesco.

A Viradouro volta ao Grupo Especial depois de quatro anos na Série A. No ano passado, a agremiação levou para a Avenida a história de Niterói. Para os integrantes, o título foi suado. “Ficamos nove meses sem barracão. Ganhamos na raça”, argumenta João. 

Um domingo de muito samba pela rua

Agremiações levam foliões a treinar em seus bairros e na Marquês de Sapucaí

De Rua Nova para Rua Estação Primeira de Mangueira. Foi assim que os moradores do bairro e os componentes da Verde e Rosa rebatizaram a via por onde passam os ensaios da agremiação. Ontem, a escola de samba fez seu terceiro treino a céu aberto. “A medida da rua é parecida com a extensão da Sapucaí e, por isso, conseguimos ter a noção de como será o desfile”, explicou o diretor de carnaval da Mangueira, Junior Schall.

A agremiação entrará na Avenida com mil integrantes a menos. “Serão cinco mil componentes. Reduzimos para evitar atrasos e erros no dia”, completou o diretor da ala dos compositores, Julio Cesar Ferreira, o Nino. Até o Carnaval, a Verde e Rosa marcará presença todo domingo na Rua Nova, a partir das 19h.

Neste domingo, a Portela também tomou as ruas de Campinho, com seu ensaio na Estrada Intendente Magalhães.

No Sambódromo, quem abriu a temporada de ensaios técnicos do Grupo Especial foi a Viradouro. A escola de Niterói levou centenas de componentes para Avenida na noite de ontem. Raissa Machado estava à frente da bateria. A Vila Isabel, com o enredo ‘O Maestro Brasileiro na Terra de Noel. Tem Partitura Azul e Branca da Nossa Vila Isabel’, que fará uma homenagem ao maestro Isaac Karabtchevsky, fechou os ensaios com chave de ouro, com direito à presença da rainha de bateria Sabrina Sato.

No sábado que vem, a Império da Tijuca e Acadêmicos do Cubango, da Série A, fazem seus ensaios no Sambódromo, a partir das 20h. E, no domingo, Mocidade e Mangueira pisam na Avenida. No dia 24, será a vez da Porto da Pedra e Unidos de Padre Miguel. Já no dia seguinte, Beija-Flor e Grande Rio entram em cena. São Clemente e Imperatriz se revezam no dia 31. Portela e Salgueiro, ensaiam no dia 1º de fevereiro. A campeã de 2014, Unidos da Tijuca, encerra a temporada, com a lavagem da Marquês de Sapucaí.

Reportagem: Henrique Morais

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