As histórias dos cinquenta anos da Banda de Ipanema

O diretor Claudio Pinheiro vai reunir em livro passagens como a perseguição pela Ditadura, a criação do termo ‘Yolhesman Crisbelle’ e a homenagem a Pixinguinha

Por O Dia

Rio - O caso de amor entre a Banda de Ipanema e o Rio vem de outros Carnavais. Mais precisamente 50, número de velinhas que serão apagadas no aniversário do grupo, dia 13 de fevereiro. Durante as cinco décadas, há tantas histórias para contar, que nem a boa memória do diretor Claudio Pinheiro tem dado conta do recado. Tanto que ele decidiu que está na hora de reuni-las em um livro, ainda em processo de pesquisa.

Os integrantes da Banda%3A Eduardo Mendes%2C Edimar Lima%2C Claudio Pinheiro%2C Nascimento e José Ruy DutraBruno de Lima / Agência O Dia

Sentado em um banco da Praça General Osório, em Ipanema, Claudio olha ao redor e começa a destacar as peculiaridades da Banda. Foi depois que uns amigos foram para Minas Gerais e assistiram ao desfile da Philarmônica em Boca Dura de Ubá, em 1959, que decidiram: tinham que fazer algo assim no Rio de Janeiro. “Em 65, reproduzimos esse modelo com a Banda. Cada um portava um instrumento. Tenho uma foto dessa época com um trombone. Mas não toco nada, fazia só figuração. Era caótico, quem mais se divertia éramos nós mesmos”, recorda-se ele, que recebia suporte de uma meia dúzia de músicos profissionais, na época.

“Assim foram os primeiros anos. Mas a resposta popular aqui no Rio é fogo. O povo fareja as coisas no ar, se junta e é ele quem comanda a festa”, diz Claudio. Conforme o público foi crescendo, a Banda começou a colecionar histórias e tradições. Criada em uma época onde quase não havia manifestações do tipo pelas ruas da Zona Sul do Rio, ela acabou estimulando a folia na região.

“Tanto que no ano seguinte (1966) já desfilaram vários blocos em Copacabana e no Leblon”, recorda o fundador, com orgulho. “O Rio não existe sem a Banda e a Banda não existe sem o Rio. Somos o primeiro Bem Imaterial tombado na cidade. Foi no dia 23 de janeiro de 2004. Decreto 23.926 dessa mesma data”, cita Claudio, que tem de cor todas as datas importantes dos 50 anos do grupo.

Ele conta que já em 65 começaram a ser perseguidos pela ditadura militar. A acusação era que estavam espalhando mensagens subliminares no meio da folia. A resposta veio em tom irreverente. “Por isso temos uma expressão que nos acompanha desde então: “Yolhesman Crisbelles”. Isso não quer dizer absolutamente nada. Nasceu da percepção de um amigo nosso que só conseguia entender “Yolhesman Crisbelles” ao final de cada frase que ouviu certa vez em um discurso, na Central do Brasil”, diverte-se Claudio. “Para mim, a definição dessa expressão é: tudo que você queira, nada que você não queira. Significa liberdade”, completa.

Claudio Pinheiro é diretor e um dos fundadores da Banda de IpanemaBruno de Lima / Agência O Dia

Outros acontecimentos também marcaram para sempre a Banda de Ipanema. Um deles foi a morte de Pixinguinha, em 1973. Já com os músicos na rua, se espalhou a notícia de que o compositor tinha morrido dentro da Igreja da Nossa Senhora da Paz, enquanto apadrinhava um menino. “Quisemos cancelar o cortejo, mas já não dava mais. Quando chegamos na altura entre a Teixeira e a Farme, começou a cair um temporal e todos já sabiam. À frente da igreja, a Banda parou e disse: vamos homenageá-lo. A partir desse momento, começou essa tradição. Todo desfile nosso, paramos naquela esquina e tocamos ‘Carinhoso’.”

Apesar das tradições preservadas com seriedade, muita coisa mudou nessas cinco décadas. Claudio lembra que a música carnavalesca popular era mais valorizada. “Tinha uma revista chamada ‘Modinha Popular’, que a moçada comprava nas bancas para decorar as músicas. Quando chegava o Carnaval, todo mundo saia cantando tudo direitinho”, diz, sem tom saudosista. “É normal que as coisas mudem mesmo. Há pontos positivos nisso também. Antigamente você tinha uma coisa mais formal. Era preciso ter fantasia para sair no Carnaval. Hoje é tudo mais livre. Se quiser se fantasiar, OK. Se não quiser, não tem problema. Respeitamos os costumes e opções individuais de cada um. A única coisa que rejeitamos é qualquer rótulo. Essa festa é democrática, não combina com isso”, avalia Claudio, que define: “O Carnaval tem dessas coisas, transforma tudo sob a máxima liberdade.”

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