Laíla rebate Renato Lage: 'Acho que ele precisa se reciclar'

Carnavalesco lamenta crítica do amigo, que disse estar com nojo do desfile da Beija-Flor

Por O Dia

"Nossa relação com o governo da Guiné é nenhuma. Não conhecemos presidente%2C nem ministro%2C nem ditador"%2C disse LaílaAndré Luiz Mello / Arquivo Agência O Dia

Rio - Campeões do Carnaval carioca após um ano de muito estudo, trabalho e viagens à Guiné Equatorial, os carnavalescos da Beija-Flor abriram o barracão para o jornal O DIA de uma maneira diferente no dia seguinte à conquista. Em vez de festa, explicações e justificativas para a maior polêmica do Carnaval: a enredo sobre o país que vive sob a mão pesada de ditadura de Teodoro Obiang.

"Nossa relação com o governo da Guiné é nenhuma. Não conhecemos o presidente, nem ministro, nem ditador. Nossa relação foi estritamente cultural. Muita gente fala muita coisa e ninguém veio perguntar para a gente. Falaram que recebemos dez milhões e foi bem menos que cinco, e tudo o que chegou foi de empresas brasileiras que atuam lá. Não veio um centavo de ditadura nenhuma", garantiu o diretor de Carnaval, Laíla.

Responsável pelo desfile da escola, Laíla se surpreendeu com as críticas que recebeu, sobretudo de Renato Lage, carnavalesco do Salgueiro e seu amigo pessoal há décadas, que considerou "uma nojeira" o Carnaval da Beija-Flor. Atordoado, Laíla pensou em dar o troco, mas foi diplomático, algo incomum para seu perfil.

"Me surpreendi ouvindo aquilo de uma pessoa tão inteligente, com uma cultura tão elevada e com uma relação tão próxima a mim e à Beija-Flor. Sempre elogiei o trabalho do Renato, mas acho que ele está precisando se reciclar", respondeu, com um tom levemente provocativo.

Laíla ironizou também quem criticou o desfile da escola, mostrando que não houve em nenhuma ala ou alegoria, muito menos no samba-enredo, qualquer tipo de menção à ditadura de Obiang. Pelo contrário, afinal, o refrão do samba dizia: "o negro canta, o negro clama liberdade".

"Dos nossos sete carros alegóricos, os cinco primeiros foram sobre a África, e apenas os dois últimos sobre a Guiné. A Portela, por exemplo, cantou um Rio surreal sem falar que todo dia morre um PM e um morador nas nossas comunidades. Vivemos num Rio sangrento. E não estava no desfile deles. E nem tinha que estar. Foi um grande desfile", elogiou.

Ladeado por toda sua comissão de Carnaval, Laíla fez questão de dar voz a cada um, para que contassem, individualmente, como foi a relação da escola com o país africano.

Laíla com cara de poucos amigos na concentraçãoNelson Vasconcelos / Arquivo Agência O Dia

"As pessoas falam sobre o que não sabem. Publicaram notícias sem ouvir a escola e agora estamos sendo execrados. Na coletiva de imprensa que demos para explicar o enredo, tudo foi contado. Mas só vieram dois jornalistas. Alguém perguntou quem assinou o contrato? Não. Quem bancou? Não", respondeu a historiadora Bianca Behrends, da comissão de Carnaval.

Há 13 anos na Beija-Flor, emocionada, ela defendeu a comunidade do que considerou críticas covardes.

"Antes de apedrejarem uma dezena de artistas que trabalham aqui o ano todo, de uma comunidade que ensaia o ano todo, seria legal as pessoas se informarem. E será que o povo da Guiné Equatorial também não tem o direito de ser homenageado no Carnaval do Rio? Por quê? E por que temos de homenagear um povo falando das mazelas? Isso não é homenagear, é ofender", disse Bianca.

O carnavalesco Fran Sérgio recomendou aos críticos que tirem visitem a Guiné Equatorial para formarem um juízo sobre o país.

"Não vi mais pobreza por lá do que no interior do nosso nordeste ou das favelas cariocas. Há pobreza, mas há beleza, cultura, alegria. Como aqui. E foi isso o que retratamos. E não conhecemos o país com guias oficiais, mas com os engenheiros das construtoras que bancaram o enredo. Vimos tudo de bom e de ruim que há por lá", disse Fran.

Especializado em cultura africana, Claudio Russo, responsável pela ideia de contar a África e a Guiné pela memória de um griô, ou seja, por um ancião, também defendeu o enredo.

"Contamos a África pela visão de um africano, não pela do europeu, que estamos acostumados a ler. Este foi o diferencial. Nós ouvimos o outro lado", explicou.

Mais exaltada entre todos, Bianca Behrends lembrou, no fim, que ainda que o dinheiro da escola tivesse vindo do governo, a Beija-Flor não estaria "tirando o leite das criancinhas africanas", como muito se comentou nas redes sociais.

"Se fosse do governo, o que não foi, seria do Ministério da Cultura, que tem verba para a cultura, como o da Educação tem para a educação, e o da Saúde para a saúde. Falta conhecimento e sobra má vontade para quem está apedrejando a gente. A desigualdade social não é um problema da Guiné Equatorial. É da África, do Brasil" disse.

Claudio Russo lembrou que, muito antes de qualquer relação cultural entre a Beija-Flor e a Guiné Equatorial, o governo brasileiro já havia estabelecido relações que vão muito além do Carnaval.

"O Brasil recebe dinheiro da Guiné todos os dias. O governo construiu uma embaixada para eles em Brasília. São dois povos que se reconhecem como nações de cooperação mútuas", acrescentou.

No fim, os integrantes da comissão de Carnaval ainda lamentaram que as críticas sejam dirigidas sempre à Beija-Flor.

"A Tijuca falou sobre a Alemanha sem citar o Holocauto, a Vila falou de Angola sem guerra civil, a Tijuca voltou este ano a falar da Suíça sem dizer que é um paraíso fiscal dos ladrões do nosso governo. A culpa é sempre da Beija-Flor. Que pena", disseram, quase que juntos.

Ditador não veio ao Rio

No Carnaval dos mistérios, um deles parece ter sido esclarecido. Ao contrário de informações dadas por agentes federais, e divulgadas pela imprensa mundial, inclusive O DIA, o presidente da Guiné Equatorial, o ditador Teodoro Obiang Nguema Mbasogo, não prestigiou o desfile da Beija-Flor.

No dia 16, quando a escola desfilou na Sapucaí, membro de uma comitiva da Guiné, que ocupou o camarote da agremiação, foi apontado como sendo Obiang. Em nota, porém, o ministro das Comunicações Teobaldo Matomba negou ontem que o ditador tenha vindo ao Brasil.

“Obiang esteve esses dias cumprindo sua agenda com assuntos africanos. Esteve em Yaoundé, em Camarões, participando da Reunião Extraordinária de Segurança da Conferência de Chefes de Estado do Conselho de Paz e Segurança da África Central (CEEAC), para buscar soluções para enfrentar o perigo do grupo terrorista Boko Haram”, diz um trecho da nota, endossada pelo Partido Democrático da Guiné Equatorial, ao qual o ditador é filiado.

No site oficial da conferência, que aconteceu justamente no dia 16, Obiang aparece numa foto com outros líderes políticos da África. Na ata do encontro, disponibilizada na página, o nome dele é o terceiro na lista de chefes de estado. O governo da Guiné declarou ainda que a iniciativa do enredo em sua homenagem foi da própria Beija-Flor e que o patrocínio (de R$ 10 milhões) teria sido dado por empresas brasileiras que operam naquele País.

O Itamaray informou, também em nota, que “o Ministério das Relações Exteriores não foi informado sobre visita de Obiang” no Carnaval e que apenas “providenciou segurança condizente com o nível da delegação”. Até 21h a PF não tinha dado resposta sobre o assunto, nem por e-mail e nem por telefone.

Pequenos notáveis

Lorenzo Otávio e Rian Carlos Souza Rosa, ambos de 7 anos, podiam estar aproveitando a folga do colégio para brincar, mas foram para a quadra sambar.

Integrantes do programa ‘O sonho de um beija-flor’, eles desfilaram na Sapucaí pela primeira vez e já foram campeões. Rian é neto de Vanda Mercedes, diretora de comunidade, há 52 anos na Beija-Flor. “Gosto de ser passista, mas um dia quero sair na bateria tocando surdo”, contou.

Rian e Lourenço%2C os dois com 7 anos%2C estrearam escola e já foram campeõesBruno de Lima / Agência O Dia

Neguinho faz exaltação à contravenção

Mais polêmica. Neguinho da Beija-Flor, em entrevista ontem à Rádio Gaúcha, sobre patrocínios “duvidosos”, exaltou a contravenção no Carnaval e insinuou que o governador Luiz Fernando Pezão e o prefeito Eduardo Paes tenham ajudado financeiramente a Portela.

“Se não fosse a contravenção, hoje não teríamos o maior espetáculo audiovisual do planeta”, disse. “O governador queria que a Portela ganhasse. Vai dizer que não fez investimento? O prefeito é portelense doente. Vai dizer que não colocou dinheiro na Portela?”, indagou. Paes não comentou e Pezão disse ser apenas torcedor.

Nas ruas de Nilópolis, o orgulho do 15º campeonato

Nesta quinta-feira de manhã, integrantes da bateria ainda faziam ecoar pela quadra da Beija-Flor os sons da cuíca e do agogô. Quem dançava não parecia estar com os pés cansados. Pelas ruas da cidade, moradores estampavam no peito a alegria com o 15º título da Azul e Branca de Nilópolis.

Integrantes da Beija-Flor celebrando a vitóriaBruno de Lima / Agência O Dia

Fernanda de Souza, 29, passeava pelo centro da cidade como se estivesse desfilando, com a camisa da escola. “Estou muito feliz. Foi um alívio depois do nosso resultado do ano passado. Aquele 7º lugar ficou entalado na garganta. Hoje grito de novo que sou campeã”, contou Fernanda.
No sábado, dia 28, a Beija-Flor desfilará para sua comunidade, na Avenida Mirandela, principal via de Nilópolis.

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