Por marlos.mendes

Rio - "ALÔ, NAÇÃO VERDE E ROSA". Este é o novo grito de guerra da Mangueira, na voz de Paulo Roberto da Silva, o Ciganerey. Aos 58 anos, ele estreia em fevereiro na Sapucaí como puxador de uma das escolas de sambas mais populares do país.

Substituto de Luizito, morto em setembro após um infarto sofrido na saída do ensaio na quadra, Ciganerey não quer saber de comparações com o amigo, tampouco com Jamelão, o imortal intérprete da Verde e Rosa e do Carnaval.

A voz potente, a humildade e a simpatia são suas marcas registradas. Que ele quer deixar para sempre na história, de preferência com o título que não vai parar em Mangueira desde que a escola “invadiu o Nordeste” em 2002.

Ciganerey em frente a quadra da escolaJoão Laet / Agência O Dia

ODIA: Como surgiu esse apelido? De onde vem?

CIGANEREY: Do terreiro onde vou. Meu nome artístico era Paulinho Poesia. Mas a cigana disse que eu era um rei, o Rei dos Ciganos e tinha que mudar de nome. Perguntaram se deveria ser Cigano, ela disse que não. Cigano-rei também não. E nem Rei Cigano. Quando alguém falou Ciganerey, ela disse: “é isso”. E aí virei Ciganerey.

E como começou sua história no Carnaval?

Antes de nascer. Desfilei na barriga da minha mãe, Neuzinha. Ela era porta-bandeira da Caprichosos.

E quando começou a cantar em escola de samba?

Em 1985, na Engenho da Rainha, onde fiquei 13 anos. Depois fiquei mais dez na Tuiuti, passei por Inocentes de Belford Roxo, Alegria da Zona Sul...

Qual a sua ligação afetiva com a Mangueira?

Minha escola de criação é a Engenho da Rainha. A de coração, a Mangueira, para onde vim há sete anos, trazido pelo ex-presidente Ivo Meirelles, para auxiliar o Luizito no carro de som.

Você esperava ser efetivado como principal após a morte do Luizito?

Não. Confesso. Estava triste pela perda do amigo. E uma coisa é saber que as pessoas gostam de você e do seu trabalho. Isso eu sabia. Mas por outro lado eu sabia que o posto era de puxador da Mangueira. Tem muita vaidade, muita política. É um posto muito disputado.

O que você acha que fez diferença na escolha?

Talvez o fato de eu saber muito bem o que é a Mangueira, o que representa ser a voz da Mangueira. Tem gente que quer o cargo pelo status, para aparecer, de repente arrumar um dinheiro. Quer o posto por vaidade, não por amor. Eu quero por amor. Acho que por isso estou aqui.

Já caiu a ficha? Você se imagina fechando o Carnaval na Avenida, já que a Mangueira será a última escola a desfilar?

Ainda não. Só sei que vai ser um dos dias mais esperados da minha vida, a realização de um sonho. Mas não consigo visualizar a cena. Vai levar tempo. O CD oficial está saindo agora. Só depois que a comunidade estiver com ele na ponta da língua e se acostumar com a minha voz é que vou começar a ter a dimensão do que vai ser. Por enquanto, tenho apenas a expectativa.

Você não liga em ser chamado de puxador, não é?

Nenhum. Isso era coisa do Jamelão. Mas ele era um intérprete. Eu sou puxador de samba de enredo. Não tenho problema. Até gosto. Sou o cara que puxo a escola através do samba.

Mas a responsabilidade é grande.

Muito. Mas eu não sou substituto do Jamelão, nem do Luizito. Não sou sucessor. Estou dando sequência ao trabalho.


Qual o seu ídolo?

Neguinho da Beija-Flor.

Por quê?

Pela simplicidade. Pude cantar com o Neguinho em 2005 e constatei isso. Em 2011, a Beija-Flor fez o enredo “A Simplicidade de Um Rei”, sobre o Roberto Carlos, mas poderia ter sido sobre o Neguinho. É a cara dele. Uma vez fui à Beija-Flor e não era ninguém. Ele me viu e poderia ter ficado quieto, mas me anunciou no ensaio: “olha o Ciganerey aí, gente”. São coisas que a gente não esquece.

Por falar em 2005, a escola de Nilópolis, atual campeã, também venceu naquele ano. A Mangueira não vence desde 2002. Está na hora de acabar com este jejum.

Mais do que na hora. Tenho certeza de que vamos fazer um grande Carnaval e voltar no Sábado das Campeãs fechando o desfile. A Mangueira sempre fez grandes sambas com os baianos. Assim foi com Dorival Caymmi, com os Doces Bárbaros, assim será com a Bethânia.

E para você, cantar Bethânia na Mangueira, imagino que seja especial.

O sonho de todo cantor de samba é cantar numa grande escola. Depois de tantos anos correndo atrás deste sonho, esta é a oportunidade da minha vida. E cantar na escola que a gente gosta é diferente. Com um enredo deste, será mais legal ainda.

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