'Não julgue a Imperatriz antes dela pisar no Sambódromo', diz Cahe Rodrigues

Em entrevista, carnavalesco elogia relação com a comunidade e a presidência da escola de samba

Por O Dia

Rio - Você chegou na Imperatriz em 2013 e já parece estar há anos. Por que você acredita que houve tanta afinidade?

Cahe Rodrigues: "Na verdade aconteceu uma parceria muito bacana. Eu precisava de uma oportunidade dentro da Imperatriz como profissional. Já admirava a escola, tinha grande respeito pela história dela e sempre fui um grande admirador de Rosa Magalhães. Acho que o fato de chegar à Imperatriz e de repente me ver num situação de ser o responsável pelo projeto artístico da escola, fez com que eu abraçasse a comunidade de uma forma muito carinhosa e respeitosa, sempre respeitando as tradições, mas trazendo um pouco da minha modernidade e visão de carnaval, sem perder aquilo que a Imperatriz sempre preservou ao longo desses anos, que é uma escola bem vestida, enredos bem defendidos e bons sambas. Além disso, tenho um formato particular de conduzir meu trabalho, que é a minha presença. Sou muito presente na quadra e no barracão e isso facilita muito meu diálogo com a comunidade. A Imperatriz é uma escola muito familiar, de apaixonados, que eu tenho contato direto e acredito que esse abraço da comunidade, e da escola comigo foi praticamente imediato, desde o primeiro ano, em 2013, quando fizemos o Pará. A cada ano que passa isso vai ganhando mais força porque vamos criando intimidade, conhecendo um pouco mais das necessidades da escola. Na realidade, procuro respeitar essas necessidades, sempre colocando a minha posição como artista, meu foco como projetista de carnaval, mas, acima de tudo, respeitando as tradições da escola e aqueles que ajudaram a construir a história da Imperatriz. Por isso acho que esse casamento vem dando muito certo, me sinto em casa".

Cahê Rodrigues é carnavalesco da ImperatrizDivulgação

Você tem mudado um pouco o estilo de carnavais que marcaram a escola. Encontrou ou encontra resistência?

Cahe Rodrigues: "O senhor Luiz Drummond é um presidente muito tradicional, veja pelo histórico da Imperatriz que não tem o costume de trocar muito os carnavalescos. Arlindo Rodrigues ficou durante um bom tempo, depois anos de Rosa Magalhães, Max Lopes ficou um período, saiu e depois retornou, e agora eu estou aqui. É claro que, quando entrei quis fazer muita coisa e houve uma resistência em um primeiro momento, talvez a escola não estivesse preparada para grandes mudanças. Mas, aos poucos fui introduzindo minha visão de carnaval. Acredito que a questão de eu ser um jovem carnavalesco assustou um pouco, houve um choque, porque cheguei com todo gás, querendo mexer em um monte de coisa, mudar em um monte de coisa. E aí foram me dando o caminho, fomos trabalhando, foi todo um processo. Só pegar o ano do Pará, que foi meu primeiro ano, a escola tinha saído de um 10º lugar no ano anterior e nós conseguimos trazer a escola de volta ao desfile das campeãs. Depois temos o Zico, que foi um carnaval incrível, sendo a escola uma das mais luxuosas a atravessar o Sambódromo, com uma proposta nova de carnaval, diferente do que a Imperatriz vinha mostrando. Em 2015 falamos de Mandela, exaltando o negro com um conteúdo de luta pela igualdade racial muito grande, de bandeira muito forte. E agora o sertanejo, tema que levantou muitas críticas em um primeiro momento, mas que agora todo mundo já se apaixonou, pelo enredo, pelo samba. É sempre um desafio, a cada ano eu vou aprendendo um pouco mais com a escola, a escola vai se acostumando mais comigo. É isso, é como um casamento, o convívio diário faz com que a gente vá se adaptando uns aos outros. E como tenho essa facilidade de mais ouvir do que falar, facilita muito esse meu convívio com eles".

Como é seu relacionamento com Wagner Araújo e Luizinho Drummond, dois homens que vieram de uma outra época?

Cahe Rodrigues: "Meu relacionamento com os dois é muito bom, até surpreendente. Muitas pessoas falam pra mim: 'não sei como você consegue um convívio tão harmonioso com eles'. Elas falam isso porque eles são pessoas totalmente diferentes. Confesso que aprendo muito com senhor Luiz, ele tem um ponto de vista administrativo muito inteligente, conhecedor de carnaval. Então quando você senta para conversar com ele sobre carnaval, ele te dá aula. O Wagner já possui uma visão mais técnica, já é uma visão mais de desfile, preocupação com a escola na Avenida. Como cresci nesse meio admirando esses grandes homens do carnaval, cheguei aqui com essa visão de muito respeito tanto pelo Wagner quanto pelo senhor Luiz, por tudo que eles já fizeram dentro da Imperatriz. É um relacionamento muito saudável". 

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