Mangueira aposta na MPB para vencer o Carnaval

Com jejum de 13 anos, a Verde e Rosa escolheu Maria Bethânia como enredo para tentar voltar a ser campeã

Por O Dia

Rio - Para sair do maior jejum de títulos da sua história, que já dura 13 anos, a Mangueira apostará mais uma vez na fórmula responsável por lhe garantir o maior números títulos e momentos históricos no Carnaval: ao levar a vida de Maria Bethânia para Sapucaí, a Verde e Rosa voltará a contar a história de grandes nomes da música popular. E da inspiração de títulos como o de 1984, com o enredo sobre Braguinha, e o de Chico Buarque, em 1998, o penúltimo dos 17 conquistados, a escola tenta se reconectar com o passado para superar as dificuldades financeiras e sair da fila.

O carnavalesco Leandro Vieira observa a alegoria de São João Menino que preparou para o desfile sobre Bethânia. A religiosidade da cantora será muito explorada no enredo Estefan Radovicz e Onofre Veras /Agência O DIA

Em visita ao barracão mangueirense, O DIA constatou que já está quase tudo pronto para homenagear a baiana filha de Iansã, que no ano passado completou 50 anos de carreira. Maria Bethânia virá no último carro alegórico, um circo verde e rosa, pois graças às exibições no picadeiro que passou por Santo Amaro da Purificação, na Bahia, que a cantora percebeu que sua vida seria a arte. Artistas e amigos de Bethânia virão no quarto carro, enquanto a mangueirense Beth Carvalho será o destaque da alegoria que representará a religiosidade da baiana.

A mistura entre catolicismo e candomblé, marca da devoção e da carreira de Bethânia, será muito explorada no desfile. Orixás e santos passearão pela avenida ao lado de representações de momentos históricos como o musical Opinião, no qual a cantora estreou em meio à ditadura militar. “Mais do que a história da Bethânia, queremos mostrá-la como cidadã brasileira”, resume o carnavalesco Leandro Vieira que, aos 30 anos, estreia no Grupo Especial no seu segundo Carnaval — foi destaque e premiado pelo trabalho na Caprichosos de Pilares, em 2015.

Ciente da tradição Verde e Rosa, que também já homenageou Chiquinha Gonzaga, Tom Jobim e, mais recentemente Nelson Cavaquinho, ele acredita que parte da escola ainda o vê com desconfiança, mas garante uma “Mangueira completamente diferente de tudo o que a escola já fez”. “Meu trabalho aqui não é de modernização, é de potencializar a tradição da escola mais tradicional do Carnaval”, disse.

Em 1998%2C Maria Bethânia saiu em carro alegórico da MPB no desfile verde e rosa sobre Chico BuarqueAgência O Dia

O 10º lugar do ano passado diminuiu as expectativas para esse ano. A onipresente crise econômica também é fator que preocupa, mas a força da menina de Oyá, como diz o samba de enredo, é o combustível mangueirense para tentar voltar pelo menos para o Desfile das Campeãs — o que não acontece desde 2011. “Precisava propor alguma coisa que fosse grandiosa e tivesse pertinência, no qual as pessoas poderiam confiar”, afirmou Leandro.

Escola foi criada por músicos

Em 1994, a Mangueira levou os Doces Bárbaros para avenida, grupo formado por Caetano Veloso, Gal Gosta, Gilberto Gil e Maria Bethânia. O 11º lugar naquele ano foi amenizado pelo samba de refrão marcante (“Me leva que eu vou/ Sonho meu/ Atrás da Verde e Rosa só não vai quem já morreu”), e marca o fato de que, mesmo quando vai mal, a Verde e Rosa faz história quando fala de música.

Chico Buarque foi o enredo de 1998%2C quando a Mangueira venceu seu penúltimo título no SambódromoAgência O Dia

Autor de diversos livros sobre Carnaval, Fábio Fabato argumenta que a predileção da Mangueira por enredos como o de 1994, deste ano e outros, como Dorival Caymmi, que também deu título à escola em 1986 , se deve ao fato de a escola ter sido fundada por músicos. “A Mangueira foi criada por compositores, como Cartola, Carlos Cachaça. Há uma mística diferente nos desfiles com esses enredos, como há quando o Salgueiro e a Beija-Flor falam de temas afro, por exemplo”, explica.

Segundo Fabato, os enredos de 2016 são melhores do que os de 2015, e isso se deve ao que chama de “lado bom da crise.“As empresas aventureiras tiveram menos dinheiro para vender enredos patrocinados, que fazem as escolas castrarem suas identidades. Neste ano, a exaltação à cultura é maior nas escolas”.

Últimas de Carnaval