O DIA passa uma tarde com a rainha da Mangueira Evelyn Bastos

Para chegar no trono é necessário uma rotina intensa de malhação, abrir mão de alguns prazeres e se dedicar às cores do pavilhão defendido

Por O Dia

Rio - Os flashes, os olhares e as atenções de quem acompanhar o Carnaval da Sapucaí invariavelmente caem sobre as baterias das escolas. À frente delas, com a responsabilidade de defender com graça — e samba no pé — os ritmistas de cada agremiação, vêm as rainhas. Mas para chegar no trono é necessário uma rotina intensa de malhação, abrir mão de alguns prazeres e se dedicar às cores do pavilhão defendido. Uma das que cumpriu este script e está pronta para fazer da Sapucaí um caminho real, Evelyn Bastos vai para seu terceiro ano à frente da Mangueira. O DIA esteve com ela na quinta-feira da semana passada, e pode comprovar que não é fácil ficar pronta para ganhar a Avenida. 

Vinte e quatro horas parecem mil para Evelyn Bastos%2C que sua para fazer bonito à frente da bateria da MangueiraJoão Laet / Agência O Dia

Aos 22 anos, todos vividos no Buraco Quente, localidade da favela da Mangueira, Evelyn tem cuidados especiais com o corpo que envolvem muita ginástica e disciplina na hora de comer. Malha todos os dias, vai a uma clínica estética duas vezes por semana, e dá aulas particulares de samba, uma rotina intensa cumprida desde setembro. “Como muita proteína e diminui todos os carboidratos. Assim que acabar o desfile, vou encarar um fast-food”, brinca, entre muitos risos, a mulata de 1,65m de altura.

Claro, a vontade dela é ver a Mangueira sair da fila e, cantando a vida de Maria Bethânia, levar a escola ao título. Mas o objetivo principal do ano é outro. “Quero me formar em Educação Física pela Uerj. Estou acabando o curso”, revela, cheia de vontade. Ela sonha ser professora da rede pública. “O brasileiro tem uma visão de que tudo o que é de todos é ruim. Mas não é assim. Quero ser professora e mudar o sistema”, resume a estudante universitária.

Entre outros desejos para o futuro, ela quer começar o projeto de aulas para passistas e ritmistas mirins na comunidade, onde começou a aprender samba, aos 4 anos de idade. “Rainha tem que conhecer a escola, a história do Carnaval. A festa muda, mas tem que ser tradicional. Quando é uma celebridade que vem de fora, a comunidade não vai junto”, dispara.

A realeza Verde e Rosa é saudada pelos súditos por onde passa, seja na quadra, na academia, ou enquanto caminha por São Cristóvão, onde costuma realizar seus afazeres. Distribui sorrisos, em mais um dia de ansiedade pré-Sapucaí.

Filha de peixe é um peixão

O samba é legado, é herança, e no caso de Evelyn o amor a Verde e Rosa vem de casa. Sua mãe, Valéria, reinou na Mangueira entre 1987 e 1989, e é a voz que coloca seus pés no chão. “Em todo lugar que eu fui, antes de ser rainha, sempre fui a menina da Mangueira. É importante manter essa tradição”, indica.

A vida no morro e a vivência fora dele, na universidade, fizeram de Evelyn uma rainha crítica, ciente dos desafios e das mudanças enfrentadas pelo samba e por sua comunidade. Acompanhou as mudanças na Mangueira e diz que, hoje, terreiros de Candomblé e Umbanda disputam espaço com as igrejas evangélicas, em franca expansão na comunidade. “O ensaio de rua passa e as igrejas diminuem o volume do culto. Crianças evangélicas ficam olhando querendo participar”, conta ela, em relato sobre o clima harmônico da favela — valorizado sobretudo em tempos de intolerância religiosa.

Kardecista, ela frequenta um centro espírita toda quinta-feira para renovar as energias e estudar a religião. “Minha vó paterna, dona Celina, foi uma das mais conhecidas mães de santo da Mangueira. No meu quarto, tem um santuário com São Cosme e São Damião, Iansã, Santo Expedito, Iemanjá... Fé não tem que ter nenhum tipo de regra”, argumenta. 

Malhação%2C drenagem%2C aulas de samba ocupam a mulata%2C que planeja comer um fast-food depois do CarnavalJoão Laet / Agência O Dia

Nutricionista para entrar na Avenida

Se a vida de uma rainha de bateria exige uma série de preparativos faltando meses para o desfile, que dirá no dia de cruzar a Sapucaí. Evelyn conta que, como a Mangueira será a última escola a se apresentar, irá tentar acordar o mais tarde possível. Antes do almoço, um mergulho no mar de Copacabana, e, depois, esperar o tempo passar em casa.

“Não escuto música, não vejo TV, não presto atenção em nada. Meus amigos vão lá e me distraem um pouco”, conta ela, que terá com a ajuda de uma nutricionista para fazer refeições leves antes de encarnar a realeza.

“Nada de comer macarrão com feijão e farofa. A dieta só me permite comer proteínas desde setembro”, revelou a bela.

“Quando estiver faltando duas escolas para a vez da Mangueira, me dedico apenas a arrumar o cabelo”, afirmou ela, dona de uma vasta cabeleira cacheada. “Meu cabelo está na moda no morro agora”, comemora, sinalizando que as meninas da comunidade já não procuram mais pranchas de alisamento.