Por clarissa.sardenberg
Rio - Enquanto os jurados avaliam a atuação das escolas de samba na Marques de Sapucaí, da sala de seu apartamento no Irajá, a aposentada Zenilca Gonçalves, 73 anos, faz o mesmo. Bateria, samba-enredo, alegoria, fantasia, comissão de frente, são alguns quesitos que ela dá notas. Atenta, Zenilca avalia cada um dos dez itens e dá notas que variam de 7 a 10, assim como seus ‘colegas jurados’, que ficam no Sambódromo.

A tarefa é árdua e exige concentração, por isso não recebe visitas em dias de desfiles. Ela anota e avaalia as agremiações na sua famosa caderneta desde 1975. “E geralmente eu acerto, mas às vezes não entendo o que passa na cabeça dos outros jurados”, alfineta ela, salgueirense de coração e alma. “É muito amor”, jura Zenilca.

Zenilca%2C apaixonada por Carnaval%2C guarda discos de samba-enredo%2C fitas k7 e recortes de jornais e revistasJoão Laet / Agência O Dia

Toda essa paixão começou no início da década de 1960, quando ela trabalhava no Centro do Rio. “Tive que trabalhar na segunda-feira de Carnaval e não resisti: fui ver os desfiles.” Naquela época ainda não havia Sambódromo e os desfiles eram realizados na Presidente Vargas. “Era muito desorganizado, as escolas atrasavam demais”, relembra ela que esqueceu de vez os atrasos quando viu um desfile daquela que se tornou sua escola do coração. “Eles cantavam ‘Nem melhor, nem pior, apenas diferente’, me arrepiei toda”, lembra ela.

No início Zenilca assistia as apresentações na avenida, mas depois de problemas no joelho, passou a assistir em casa, enquanto o televisor fica ligado sem volume, ela acompanha no antigo rádio os comentaristas e vai avaliando os critérios.

Na Quarta-feira de Cinzas ela só aguarda a confirmação: sua previsão é batata. “Minhas amigas nem esperam até quarta, me ligam para saber quem vai ganhar”, gaba-se.

Desta vez ela já arrisca dizer que o Salgueiro será coroado e vai enfim tomar a champanhe que guarda. “Já está gelando”, garante Zenilca. Pé quente do jeito que ela é, quem duvida?