Por bianca.lobianco

Rio - Calça e blusão de linho, sapato bicolor e uma beleza de chapéu Panamá arrematando o visual. O estilo de roupa nos remete às décadas de 1920 e 1930, quando os sambistas desfilavam sua irreverente elegância pelas ruas da Lapa e ladeiras da Gamboa. Era uma época em que o samba buscava a afirmação e a aceitação de uma sociedade que torcia o nariz para todo tipo de batuque.

“Vestir-se bem era o luxo deles. Pagavam aos alfaiates para confeccionar o terno”, esclarece o professor Felipe Eiras, do curso de Design de Moda, da Estácio.

Renato Araújo arremata o visual com chapéu Panamá%2C que também forma coleção em casa%2C ao lado dos sapatos feitos por encomendaArte O Dia

Parece que foi ontem? Não, que nada. A indumentária que marcou uma geração de bambas sobrevive no corpo — e alma — de um morador de Olaria, que se apaixonou pelo samba muito antes de ver despertado o interesse pelas garotas. E em nome da paixão, mantém viva a tradição de se vestir como os precursores do ritmo que ajudou a construir a identidade da nação brasileira.

Aos 44 anos, o diagramador Renato de Almeida Araújo diz não às grifes, à moda e à alta costura. No seu guarda-roupa (duplex) não há espaço para jeans, tênis Nike, bonés ou camisetas de malha. Afinal, já está abarrotado de calças e camisas de linho, sapatos bicolor feitos de encomenda e uma variedade de chapéus e boinas, que a gente só costuma ver nas fotografias do século passado.

“Teve a influência do meu pai, que só usava linho e seda pura. Mas, com o tempo, fui me habituando ao conforto dos tecidos e não consegui mais me vestir com outro tipo de roupa”, conta Araújo, que usou tênis pela última vez quando tinha 14 anos.

“Fiquei barrado na seresta porque só podia entrar de sapato. A partir de então, não quis mais saber de tênis. Sapato mando fazer até hoje, no Souza, no Centro do Rio. Também uso babuche (calçado de couro, que cobre o peito do pé, mas é aberto na altura do calcanhar, como um chinelo)”.

Sempre vestido a caráter, Araújo se arruma até para ir à padaria na esquina. Mas gosta mesmo é de samba. Pisou na quadra da escola de coração, a Mangueira, aos 17 anos. “Aos 20, comecei a desfilar. Também toquei banjo no Cacique de Ramos”. Até hoje bate ponto nas rodas de samba.

O jeito como se veste chama a atenção. “Quem não me conhece pergunta logo se sou sambista”, diz o diagramador. No entanto, nem sempre é compreendido. “Certa vez, estava de calça preta, sapato vermelho e preto, camisa de linho vermelha e preta, chapéu vermelho e preto. Sentei junto à janela do ônibus. Não estava lotado, mas tinha gente viajando de pé e ninguém sentava ao meu lado. Os lugares iam vagando e as pessoas sentando. E o lugar ao meu lado seguia vazio. Só podia ser por causa da roupa”, se diverte Araújo, admitindo que foi confundido com um Exu.

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