Por bianca.lobianco

Rio - Destaque absoluto do Carnaval passado ao estrear no Grupo Especial levando a Mangueira a pôr fim a 13 anos de jejum, o carnavalesco Leandro Vieira dá de ombros para a crise econômica. Chega a debochar. Não por marra, ou empáfia, mas por respeito à própria história.

"A minha oportunidade, aos 32 anos, sem nunca ter feito carnaval, é fruto da crise. Se a Mangueira não atravessasse uma crise financeira, que nem era a do país, provavelmente não teria olhado a possibilidade de dar a chance a um jovem de 32 anos com um carnaval no currículo. Sou produto da crise. Que deu certo, pois fui campeão. A Mangueira poderia ter trazido um medalhão para fazer o carnaval, mas apostou no diferente. A aposta fui eu (risos). A crise me abriu oportunidade", lembra Leandro Vieira.

Leandro Viera foi campeão em seu primeiro ano no Grupo EspecialMaíra Coelho / Agência O Dia

Trabalhar na adversidade, de fato, não é problema para o carnavalesco. Seu primeiro ­- e único ­­- Carnaval antes de assumir na Verde-e-Rosa havia sido numa Caprichosos de Pilares à beira da falência. E Leandro diz que seu maior mérito não saber gastar pouco, mas preferir gastar pouco.

"Para o quem está habituado a fazer Carnaval com muito dinheito talvez esteja mais difícil, principalmente para o carnavalesco que tem a tendencia de enxergar o desfile como espetáculo, pois isto exigem grandes efeitos de iluminação, tecnologias, um investimento que não é barato. No meu caso é diferente. Se eu tiver muito dinheiro, talvez até sobre. Porque enxergo o desfile sob a ótica da cultura popular. Não uso material barato apenas por não ter condição de usar o caro, mas por ideologia. Acho que o barato traduz o carnaval", diz Leandro.

O mangueirense jura de pés juntos que o discurso nada tem de provocação a estrelas como Paulo Barros, o grande nome do Carnaval na atualidade. É algo que mora na filosofia, como diria Candeia.

A Mangueira surpreendeu a Marquês de Sapucaí no desfile do ano passado entrando na avenida menos verde e rosa do que o costumeHumberto Ohana / Parceiro / Agência O Dia

"Detesto a frase "o Carnaval virou espetáculo". Tenho restrição a enxergar o Carnaval como entretenimento. O carnaval que eu faço é o que tenta dialogar com o carnaval que ensina, de cultura popular, de festa brasileira. Não é espetáculo ou algo televisivo. Não estou falando de ninguém, mas de mim. Me orgulho de ter feito um carnaval um milhão e meio mais barato do que o anterior (feito por Cid Carvalho), que ficou na décima-primeira colocação. Fiquei em primeiro gastando menos e isso me orgulha. Acho que isso é carnaval", diz.

MANGUEIRA MODERNINHA COM LEANDRO VIEIRA

A chegada de Leandro Vieira à Mangueira mudou a cara da agremiação. Mas não foi fácil. A começar pela missão de levar uma escola menos verde e rosa para a Avenida, uma ideia que demorou a ser aceita pela cúpula e pelos mangueirenses históricos. E não foi só isso.

"O verde e rosa não pode ser uma prisão. A Mangueira pode ir além. Trouxe, também, a nudez, que não era comum na Mangueira. Fiz uma comissão com mulheres de peitos nus. A sociedade ficou muito careta e o Carnaval que é o escape acabou se contaminando. E eu luto para fazer diferente. A porta-bandeira careca, que foge ao tradicional das porta-bandeiras e foi uma imagem muito forte. Incluí carros teatralizados e mais alas coreogradas. Minha ideia é fazer uma Mangueira tradicional mas que dialogue com o que há de moderno no Carnaval. Eu brinco dizendo que é uma Mangueira moderninha", explicou.

No desfile deste ano, a estratégia é a mesma. Vale o ditado popular "em time que está ganhando não se mexe". Tanto que o enredo ("Só com a ajuda do Santo") é um desdobramento do que venceu o Carnaval passado, da Menina dos olhos de Oyá Maria Bethânia. Carnavalesco à moda antiga, daqueles que pesquisa, escreve, desenha e concebe, quase que sozinho, todo o desfile, Leandro aproveitou parte de tudo o que aprendeu em 2015/2016 para fazer o Carnaval de 2017

"O enredo passado tinha a cara da Mangueira, que tem uma vocação histórica e bem-sucedida quando trata do universo musical e homenagens. Quando escolhi Bethania, nao quis o viés tradicional, do "nasceu aqui", "viveu assim", "cantou isso". Quis fazer uma abordagem com viés de sua vida religiosa, que é ligada ao candomblé. Fiz uma pesquisa muito profunda e não poderia vir para 2017 descartando todo este conhecimento. O este enredo "Só com a ajuda do santo" é um aprofundamento de um momento do carnaval de 2016, muito mais amplo e interessante", garante.

Os amantes do Carnaval tradicional não têm com o que se preocupar. A modernidade que chegou à Verde e Rosa não fechou as portas para a tradição da escola.

A ideia é que a Mangueira reassuma seu papel de porta-voz das coisas do povo porque a Mangueira é a escola do povo, que traduz os anseios e as necessidades do povo. Quanto mais a Mangueira tem a cara do povo e fala coisas do povo e para o povo, mais a Mangueira é forte. Esta é a Mangueira do ano que vem, e visualmente muito diferente do que estava acostumada a ser.

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