Carnavalesco fala de polêmica do enredo e detalha produção da Imperatriz

Cahê Rodrigues critica reação de senador da bancada ruralista ao enredo

Por O Dia

Rio - Quando o carnavalesco Cahê Rodrigues, da Imperatriz Leopoldinense, apresentou ao presidente da escola a ideia de homenagear os índios do Xingu, a ideia era clara: exaltar a vida, a luta e as dificuldades daqueles brasileiros historicamente dizimados pelo homem branco. Na semana passada, contudo, o enredo da escola de Ramos pulsou em âmbito nacional e virou o inimigo número 1 dos ruralistas, que se sentiram ofendidos com críticas pontuais ao uso de agrotóxicos e à controversa hidrelétrica de Belo Monte, no Pará, chamada pelo samba de ‘Belo Monstro’.

“Como defendemos o índio e damos voz a ele no enredo, tudo que agride a floresta, o meio ambiente e, diretamente, o índio, nós precisamos citar. Porque o enredo não é um conto de fadas. É uma história real”, aponta Cahê Rodrigues, de 40 anos.

Os homens do agronegócio ficaram especialmente incomodados com a ala ‘Fazendeiros e seus Agrotóxicos’, que vai mostrar os perigos — comprovados — desses produtos para o meio ambiente. Entenderam-na como uma crítica generalizada ao setor ruralista.

Enredo da escola de Ramos, desenvolvido por Cahê Rodrigues, vai homenagear os índios do Xingu e falará também das ameaças do agronegócio, agrotóxicos e do projeto da hidrelétrica de Belo Monte à florestaMárcio Mercante / Agência O Dia

O senador Ronaldo Caiado (DEM), que há décadas atua na política em defesa do agronegócio, chegou a sugerir uma sessão temática para discutir o enredo no parlamento.

“Foi uma grande confusão por parte deles, que não se deram o trabalho nem de procurar a escola para tirar uma dúvida, não tiveram nem o trabalho de ler a sinopse do carnaval, e começaram essa onda de ataques agressivos e racistas à escola e ao índio brasileiro”, lamenta.

Apesar da polêmica, os fãs de Carnaval não precisam se preocupar. Cahê garante que a Imperatriz não mudará nem um mísero detalhe da festa que planeja para o dia 26 de fevereiro, domingo. Ele destaca, de modo eufórico, a comissão de frente do desfile. “Pretende impactar a avenida. Mostramos a força mística dos índios do Xingu por meio da figura dos pajés, que são muito respeitados naquela região.”

A última alegoria, por sua vez, é uma espécie de ilustração real do que o espectador vai acompanhar ao longo do desfile. Será composta somente de xinguanos, com “cinco ou seis” representantes das 16 etnias que têm o Xingu como lar. “Vamos mostrar o nosso enredo ao vivo e a cores na avenida”, explica o carnavalesco.

Também haverá uma ala dedicada aos “caciques brancos” — antropólogos que se dedicaram a estudar e defender a história dos primeiros povos da nossa terra. Um desses indigenistas, vale dizer, idealizou e dá nome ao Sambódromo: Darcy Ribeiro.

Em dezembro%2C o carnavalesco visitou os índios do Xingu%3A Voltei de lá com uma responsabilidade ainda maiorReprodução Facebook

Além dele, os irmãos Villas-Bôas, que conceberam o projeto do Xingu, e Marechal Rondon ganharão homenagens.

O interesse de Cahê pelo tema não é de hoje. Nem de ontem. Frequentador, há dez anos, do Festival Folclórico de Parintins, no Amazonas, ele se acostumou a ouvir as histórias e as demandas dos índios daquela região. De três anos para cá, vinha moldando a ideia de apresentar enredo com essa temática — que nasceu, enfim, para o próximo Carnaval. “Eu disse que seria um momento muito propício para falar do índio, porque acho que vivemos um momento muito delicado no país: essa desordem na política, a falta de respeito ao próximo.”

Em dezembro, Cahê foi ao Xingu. “Acabei voltando de lá com uma responsabilidade ainda maior, porque pude ouvir dos índios suas angústias, seus medos. Pude ver como o índio faz parte da natureza. Vi crianças acordando e brincando com borboletas. Crianças curumins de 2 aninhos subindo em árvores, pegando fruta. Uma realidade muito distante da nossa.”

‘Não podemos esconder verdades dramáticas’

Do fascínio, vêm a empatia e o reconhecimento do medo demandado por aquela gente de pele vermelha. “Você vai, agride o solo sagrado daquele povo, contamina a água que aquele povo bebe… É um crime contra o ser humano. Se o enredo da Imperatriz pretende dar voz aos índios, não podemos esconder essas verdades dramáticas que fazem parte da história deles”, esclarece Cahê. “É da água que eles tiram o alimento, é aquela água que eles bebem, é com aquela água que eles tomam banho. A partir do momento em que a água é contaminada, não tem mais vida. Essas angústias, esses medos, eu pude ouvir olhando nos olhos deles.”

Quando anunciou a ideia de transformar a Imperatriz em sessão temática no Senado, Ronaldo Caiado alegou que havia outros temas mais importantes para se falar em um samba. O carnavalesco inverte a lógica. “São homens atacando a escola de uma forma desnecessária dentro de um país que vive uma corrupção gigantesca, uma bagunça política gigantesca, uma bagunça generalizada. E os caras se preocupando com enredo de escola de samba. É um absurdo”, diz.

Reportagem do estagiário Caio Sartori