Marchinhas tradicionais ameaçadas

Movimento que tenta banir letras ditas preconceituosas abre polêmica e enfrenta resistência de blocos

Por O Dia

Rio - "Vestiu uma camisa listrada e saiu por aí”. O primeiro verso do samba de Assis Valente, composto em 1937 e eternizado por Carmen Miranda, conta a história de um doutor que no Carnaval se transformava. Com um canivete no cinto e um pandeiro na mão, o sujeito saía eufórico pelas ruas e sorria, quando o povo dizia “sossega leão”.

Noventa anos depois, em vez de uma camisa listrada, tem folião que deveria usar camisa de força. Um movimento que emergiu das redes sociais sugere banir da folia carioca as mais tradicionais marchinhas de Carnaval, sob a alegação de que suas letras trazem mensagens pejorativas e preconceituosas. Ou politicamente incorretas.

‘Mulata Bossa Nova’, ‘Índio quer Apito’ e ‘Maria Sapatão’ estão entre os principais alvos dos que defendem a exclusão das marchinhas. Mas querem cortar até a inocente ‘Cabeleira do Zezé’! A ideia ganhou a simpatia de alguns blocos, como o Mulheres Rodadas. “Entretanto, só para esclarecer, nosso repertório nunca foi composto por marchinhas. Mas nosso repertório, por ser um bloco feminista, acaba buscando músicas que falem desse universo”, explicou Débora Thomé.

‘Índio quer Apito’%2C que inspira fantasias e blocos de rua%2C é uma das letras rechaçadas por defensores da ideia Divulgação

No entanto, blocos mais tradicionais, como o Cordão da Bola Preta, que desfila seu 99º carnaval, consideram que a proposta beira o ridículo. “O Bola não vai nessa onda. A gente só não toca músicas que façam apologia à violência, à criminalidade ou que use palavras de baixo calão”, afirmou o presidente Pedro Ernesto, garantindo que o bloco vai tocar as marchinhas. “Carnaval é alegria, é brincadeira. Esse povo é que tem preconceito e quer discriminar essas músicas tradicionais”, disse Ernesto.

Henrique Brandão, um dos fundadores do Simpatia é Quase Amor, que vai para o seu 33º desfile pelas ruas de Ipanema, sentencia: “O carnaval é tudo. Menos politicamente correto”. “Desde que existe Carnaval existe fantasia de índio e não tem nada de pejorativo nisso”, explica Brandão, garantindo que, como todos os anos, vai sair de cocar.

‘Não é racismo, não é homofobia’, diz líder da Sebastiana

"Não consideramos as marchinhas preconceituosas e nem desrespeitosas. Vamos continuar tocando”. A afirmação é de Rita Fernandes, presidente da Sebastiana, a Associação Independente dos Blocos de Carnaval de Rua da Zona Sul, Santa Teresa e Centro da Cidade. Ela quer colocar um ponto final à polêmica sobre a exclusão das marchinhas do Carnaval carioca.

A Sebastiana, que representa 11 blocos tradicionais da cidade, nunca cogitou proibir as músicas tradicionais. “Hoje, ninguém faria uma marchinha dessas. Mas sabemos que foram composições baseadas na paródia e brincadeira. Não é racismo, não é homofobia, não é nada”, desabafa Rita, garantindo que vai cantar, como todos os anos, ‘Mulata Bossa Nova’, que ela adora.

“Se não houver transgressão e inversão da realidade não é Carnaval”, defende a presidente da Sebastiana. Rita garantiu que conversou com integrantes dos blocos associados e nenhum deles levou muito a sério as manifestações contra as marchinhas.

“O Gigantes da Lira vai tocar marchinha”, diz Rita, referindo-se ao tradicional bloco de Laranjeiras, que nasceu com foco no público infantil, mas que hoje atrai foliões de todas as idades.

“No dia 10, vamos escolher o nosso samba no Clube Santa Luzia, ao lado do MAM. Depois, vai ter baile com marchinha”, garante Henrique Brandão, um dos fundadores do Simpatia é Quase Amor. “A gente só quer saber de brincar. Vestir a fantasia e nos permitir viver essa licença poética da vida, que dura quatro dias”, finaliza Rita.

Segundo a Riotur, este ano 451 blocos vão desfilar em todas as regiões do Rio. Serão 578 apresentações até cinco de março. A previsão é que os blocos arrastem cinco milhões de pessoas, sendo 1 milhão de turistas. A estimativa é que o Carnaval — incluindo os desfiles das Escola de Samba — gerem receita de R$ 3 bilhões para a cidade. Independentemente da letra, ritmo, fantasia (ou polêmica), o carnaval tem que ter diversão e muita alegria.