Por gabriela.mattos
Publicado 04/02/2017 00:04 | Atualizado 06/02/2017 19:13

Rio - Acostumada a ver a vida se equilibrando em pernas de pau de 1,20 metro de altura, a atriz e acrobata Raquel Potí até entrou em trabalho de parto do alto do brinquedo. Para receber o filho Tiê no mundo, ela vestiu as pernas postiças para aumentar o ritmo de suas contrações. “Ele anda comigo nas pernas de pau desde sempre”, conta ela. Além do filho de 2 meses, a ‘pernalta’ vai levar vários foliões às alturas neste Carnaval. Potí é professora de três oficinas de pernas de pau que preparam os foliões a fazer com segurança uma prática cada vez mais recorrente nos blocos do Rio.

A própria Raquel vai brincar, de pernas de pau, em pelo menos 17 desfiles. Terreirada Cearense, Amigos da Onça, Orquestra Voadora e Carmelitas são alguns dos blocos que organizam oficinas para quem quer virar ‘alegoria’. E ainda há muitas opções para quem quer tentar ser pernalta: às quartas, há oficinas na Praça Paris a partir das 20h; às quintas, na São Salvador às 19h; e aos sábados, nos jardins do MAM às 14h. “Dependendo do seu desenvolvimento motor, já dá para brincar no Carnaval. Na minha primeira vez, vesti e saí andando”, conta ela.

Na oficina de perna de pau nos jardins do MAM%2C a professora Raquel Potí estimula a brincadeira entre os alunos para fazê-los esquecer da insegurança e do medo de cairDivulgação

Para a (oficialmente) professora (e oficiosamente, artista) Fátima Cajueiro, de 47 anos, a prática a ajudou a superar medos e a se colocar em primeiro lugar. “Fiquei insegura após cair pela primeira vez. Mas a Raquel me disse para eu ‘não me abandonar’, para ‘me segurar em mim’. Foi muito simbólico e voltei para casa diferente. Tive uma epifania. Você realmente sobe na vida. Nunca estive tão feliz”, diz.

Há também oficinas que ensinam a fazer o brinquedo com segurança

O preço de cada brinquedo está entre R$ 250 e R$ 320, mas o folião consegue fazer o próprio com ajuda das oficinas, que custam em média R$ 60 a aula. Para Geraldo Júnior, idealizador do bloco Terreirada Cearense, o investimento vale a pena. “Eu sou baixinho, então é uma outra visibilidade. Fica lindo: você vê a multidão e, no alto, as figuras inspiradas nos folguedos e na cultura popular do Cariri, do Ceará”, disse.

Além de estar ligado à tradição circense e aos jogos infantis do Norte do país, o uso da perna de pau tem significado maior que a brincadeira, segundo Raquel Potí: “Tem uma intenção de aproximar as pessoas, através de um afeto profundo e verdadeiro, de ocupar a rua com arte e de plantar a semente de um mundo melhor. A perna de pau é uma lupa que traz para a nossa consciência vários aspectos emocionais que ficam escondidos”, comenta ela.

?Reportagem da estagiária Alessandra Monnerat

Você pode gostar