Fundamentais na Beija-Flor, Sorriso e Maurinho ficam de fora do desfile

Na terceira reportagem da série 'Personagens do Samba', o DIA conta a história de duas figuras imprescindíveis da escola de Nilópolis

Por O Dia

Rio - Peças importantes no barracão da Beija-Flor na preparação do Carnaval há mais de três décadas, Sorriso e Maurinho não estarão na Sapucaí quando a Azul e Branca passar pela Avenida, na madrugada do dia 27 de fevereiro. Mauro Francisco da Silva, 56 anos, é chefe do almoxarifado, “centro nervoso” do barracão, por onde passa todo material usado na preparação de carros alegóricos, fantasias e alegorias, e assistirá ao desfile de uma pequena TV no posto de trabalho. Já o escultor João Reis de Souza Silva, 53 anos, hipertenso, acompanhará a escola sentado no sofá de sua casa em Nilópolis, na Baixada Fluminense, cidade-reduto da agremiação, tendo ao seu lado água e um “remedinho para acalmar o coração”.

“Eu já desfilei, mas depois que fiquei hipertenso, passei a ter o maior cuidado com a minha saúde. Mas enquanto não passa o último carro na Avenida o coração não para de acelerar. Quando passa o último, aí eu fico despreocupado", diz Sorriso.

Sorriso entrou na escola com a ajuda de Joãosinho Trinta. ‘Admirava o trabalho dele’%2C elogia o escultorMaíra Coelho / Agência O Dia

Sorriso começou a trabalhar na escola como aderecista, aos 17 anos, na época do carnavalesco Joãosinho Trinta. Seu sonho era trabalhar no barracão com o artista que já possuía quatro campeonatos pela Beija-Flor. Começou com o pé direito: no primeiro Carnaval, a Azul e Branco conquistou o pentacampeonato com o enredo “A Grande Constelação das Estrelas Negras”. Ele lembra com carinho do mestre, responsável pelo apelido que carrega até hoje.

“Expliquei para ele que queria trabalhar com Carnaval. Ele me colocou numa mesa para fazer um "teste" com adereço. Eu dei conta do serviço e ele reconheceu. Mandou eu já voltar no dia seguinte. Nunca mais saí, dormia até no barracão, morava lá. Sou Beija-Flor desde de moleque, por ser a escola da minha comunidade, e também admirava muito o trabalho do João", recorda.

A paixão pelas esculturas dos carros alegóricos teve início pouco tempo depois, trabalho que exerce até hoje. Dar forma aos projetos dos carnavalescos com isopores, argamassa, tintas e outras substâncias enche de orgulho Sorriso, que morre de ciúmes de suas esculturas. A árdua missão, iniciada neste Carnaval há mais de seis meses e que chega a 10 horas de trabalho por dia, não o desanima. Ele acredita na volta ao topo da Beija-Flor, que vai para a Sapucaí este ano com o enredo “A virgem dos lábios de mel – Iracema”.

"Estou muito confiante com o trabalho que está sendo feito, vamos fazer um belo desfile. Ainda mais com o diretor de carnaval que nós temos, que é o Laíla, ai a confiança é dobrada", garante.

Maurinho e o “centro nervoso” do barracão

Maurinho organiza o almoxarifado da Azul e Branca há 32 anosMaíra Coelho / Agência O Dia

Em meio a fios de paetê, plumas e uma infinidade de materiais para fantasias e adereços está o franzino Mauro, chamado por muitos de Maurinho. A pouca estatura e a voz mansa engana: ele é o responsável por tudo que entra e sai do almoxarifado, o “centro nervoso” do barracão da Beija-Flor. Com 32 anos de casa, também começou na “era Joãosinho” como ajudante.

“Na época, o Joãosinho começou a gostar de mim, porque eu era ágil. Ele pedia as coisas e eu passava rápido. Quase me colocaram em outro setor um tempo depois e ele falou: ‘Não, deixa o garoto aqui, ele é bom, rápido, dedicado à escola’. E estou até hoje aqui”, conta Maurinho, que também lembra com carinho do carnavalesco. “Era uma pessoa muito boa, humilde e alegre. A gente tinha uma boa relação, ele gostava muito da gente.”

A rotina dentro do almoxarifado é frenética. “Chego às 9h e começo a distribuir o material, mando material para a casa das pessoas, para os carros alegórios, para alas, tudo passa por aqui. Aqui é o centro de todo o material usado para o Carnaval”, explica Maurinho, que conta com quatro auxiliares no setor.

A impossibilidade de não estar na Sapucaí durante o desfile da Beija-Flor não o desanima. "Eu tenho que ficar aqui, eles ficam pedindo material. Até 1992 eu desfilei, mas depois deixei de ir, sou necessário aqui, o importante é a escola estar bem na Avenida e eu ajudar daqui", defende, garantindo que a escola vai disputar o título este ano.

"Carnaval vem com um samba bom, um enredo bom, vamos disputar o título. Agora para ganhar depende dos jurados, a gente não está na cabeça dos jurados", diz.

O último título da Beija-Flor foi em 2015, com o polêmico enredo “Um griô conta a história: Um olhar sobre a África e o despontar da Guiné Equatorial. Caminhos sobre a trilha de nossa felicidade”.

Esta reportagem faz parte da série ‘Personagens do Samba’ do DIA Online, que sai todas as segundas, quartas e sextas-feiras. Até o sábado de Carnaval, O DIA contará histórias de pessoas que têm uma forte ligação com as escolas de samba, mas que normalmente não são conhecidas fora dos barracões e quadras.

Reportagem de Adriano Araújo, Gabriela Mattos e da estagiária Luana Benedito