O samba contra o tempo

Barracões farão jornadas mais longas e terão mais profissionais para compensar período parado

Por O Dia

Rio - Recuperar o tempo perdido. Faltando pouco mais de dois meses para o desfile de 2018, esse é o enredo comum a todas as escolas de samba do Grupo Especial. Desde a semana passada, quando o Ministério do Trabalho liberou os barracões da Cidade do Samba, as agremiações reforçaram o quadro de ferreiros, marceneiros, soldadores, pintores, escultores e costureiras para construir o maior espetáculo da Terra. O local havia sido interditado em outubro, por auditores fiscais, que encontraram problemas nas instalações elétricas e desrespeito às condições de trabalho dos operários.

"Normalmente, no mês de dezembro, já estamos com 50% a 60% do Carnaval pronto. Este ano não tem nem como estimar em que estágio estamos. Mas o problema não foi só a interdição dos barracões. O corte de verba e esse 'promete não cumpre', obrigou a gente a reprogramar todo o desfile", lamentou o diretor de Carnaval da Imperatriz Leopoldinense, Wagner Araújo.

Silveira%2C da São Clemente%2C está confiante%3A 'Quando houve a interdição%2C já tínhamos 80% do Carnaval de pé'Daniel Castelo Branco / Agência O Dia

Apesar do atraso, o ritmo de trabalho nos barracões, ontem à tarde, estava bem cadenciado. "A gente está buscando adequar as necessidades às horas de trabalho. Em alguns casos, teremos jornada mais longa. Mas, se nessa época a gente usava 10 ferreiros, talvez tenhamos que precisar de 15 para suprir o tempo parado", explicou Júnior Schall, da Comissão de Carnaval da Portela.

No barracão da São Clemente, o carnavalesco Jorge Silveira, estava mais tranquilo. "Começamos a fazer o Carnaval em março. Em junho, já estávamos com os carros erguidos. Quando houve a interdição, já tínhamos 80% do Carnaval de pé. Estamos dentro do cronograma", garantiu Silveira, que vai levar o enredo 'Academicamente Popular' para Avenida, homenageando os 200 anos da Escola de Belas Artes do Rio. Apesar de ser mais um transtorno, no ano marcado por mudanças no Carnaval, os integrantes das escolas reconheceram a necessidade das exigências dos auditores fiscais. "Era preciso fazer essa adequação. Os barracões foram construídos há 12 anos. É bom promover essa cultura de segurança no trabalho", afirmou Schall.

Além dos soldadores%2C reforço também é de costureiras%2C ferreiros%2C pintores%2C marceneiros e escultoresDaniel Castelo Branco / Agência O Dia

Um ano de altos e baixos para as agremiações em 2017

O ano de 2017 não foi nada bom para as escolas de samba. O brilho do desfile foi ofuscado pela tragédia na Avenida, quando um carro alegórico da Paraíso da Tuiuti, desgovernado, atropelou 20 pessoas. Uma delas, a radialista Elizabeth Ferreira Joffe, que morreu dias depois, no hospital. No mesmo desfile, a cobertura de um carro da Unidos da Tijuca desabou, ferindo mais pessoas.

Na sequência, a Prefeitura do Rio, alegando a necessidade de aumentar o valor das refeições servida nas creches, cortou em 50% (de R$ 2 milhões para R$ 1 milhão) a subvenção das escolas. Por fim, veio a fiscalização do Ministério do Trabalho na Cidade do Samba, que encontrou diversas irregularidades e interditou os barracões.

Porém, os problemas estão sendo resolvidos. Além da liberação da Cidade do Samba, as agremiações vão ganhar mais dinheiro do que no Carnaval passado. No fim de novembro, o Governo Federal anunciou um aporte de R$ 8 milhões para o Grupo Especial. A prefeitura fechou parceria com a Uber, o que injeta mais R$ 6,5 milhões, totalizando R$ 27,5 milhões. A última das três parcelas da subvenção será paga após a prestação de contas das escolas, em 2018.

Adequação às normas

Extintores, tomadas e equipamentos de proteção individual. Para se adequar às normas de segurança do trabalho, os sambistas promoveram mudanças e revisaram, principalmente, todas as instalações elétricas dos barracões na Cidade do Samba. Foram instalados exaustores e aterramentos, modificados os quadros de força e refeita toda a sinalização.

Nome de profissionais estão nos barracões para cumprir exigênciasDaniel Castelo Branco / Agência O Dia

No barracão da Portela, por exemplo, o trabalho dos soldadores agora é acompanhado de perto por um brigadista. Os operários, que antes andavam pelo local de trabalho sem camisa e de chinelos, hoje usam capacete, avental, bota e protetor auricular. "Vamos aprendendo e evoluindo como escola", aprovou Junior Schall, da Portela.