Por karilayn.areias

Rio - De um lado, a recatada, puritana, religiosa... De outro, a leviana, descarada e sedutora. Coube a Nanda Costa exercitar os dois extremos no drama criminal da Globo, ‘O Caçador’. Marinalva, personagem dela, converteu-se e hoje é uma serva de Deus que luta para esquecer o passado de prostituição. Um intensivo e tanto para uma atriz que gosta de ser desafiada. Qual das duas a instiga mais? “Não separo a personagem por situações e emoções. Gosto dessas diferenças”, pontua Nanda.

Em um bate-papo franco no charmoso Hotel Santa Teresa, no Rio, ela diz que não se resume a apenas uma. Nanda tem várias facetas. Tímida, transforma-se em um mulherão diante da câmera. O mistério e a sedução também estão ali. “Eu tenho e sei como acessar a minha sensualidade, mas não sou uma coisa só. Tem pessoas que acham meu olhar triste, outras que acham meu sorriso de criança, às vezes me veem como um moleque ou uma mulher doce. Enfim... Tenho de tudo e, quanto mais possibilidades, melhor para a atriz que eu me permito ser. Todo mundo quer ser seduzido, claro, mas pode ser através de um olhar, um magnetismo que atrai a atenção, não necessariamente para a sexualidade, sabe? Eu me permito sorrir e ser leve”, explica.

Nanda vai ser uma vilã dondoca na próxima novela das 21h%2C ‘Império’%2C de Aguinaldo SilvaDivulgação / Verônica Peixoto

Romântica assumida “do tipo que chora”, ela não se abala por qualquer contratempo: “Toda vez que me sinto frágil, eu fico mais forte. Quando me vejo fraca, não deixo aquilo me frear.” Dona de uma beleza brejeira e bem-sucedida, Nanda é considerada um partidão, mas está solteira e até admite ter seus momentos de carência, só não sente solidão. “Minha casa sempre vive cheia de amigos, da minha família, eu gosto do ser humano”, define. Na hora da conquista, dependendo da situação, ela toma a iniciativa. “Se quero muito uma pessoa, dou aquela indireta”, avisa. Mas o sucesso tem intimidado pretendentes. “Há um certo receio. Não é mais tão natural.”

Ter estourado na mídia como a protagonista Morena da novela ‘Salve Jorge’ levou a atriz às páginas da ‘Playboy’. Trabalho que rendeu a ela uma independência. “É difícil a gente viver de arte no país. Hoje, eu tenho uma segurança, uma estabilidade que me permite escolher o que quero fazer”, conta. Até a polêmica da fartura de pelos a atriz tirou de letra: “Adorei a repercussão. Quando você topa fazer uma ‘Playboy’, tem que fazer a ‘Playboy’. Se ninguém falasse nada é que seria estranho. Cada um deu a sua opinião, o movimento feminista veio todo me apoiando, até as senhoras. Eu fiz exatamente do jeito que quis e pedi para ter uma ação, não queria ficar só encarando a câmera e fazendo pose. Na minha cabeça, tinha uma cena acontecendo, com outros personagens. Não pensava em mim daquele jeito, até porque a Nanda não estaria pelada em Cuba. Não me arrependo em absoluto”, garante.

Para sair bem nas fotos, a atriz decidiu colocar silicone. “Botei o menor que tinha porque o meu peito já era grande. Eu quis dar uma levantadinha, não quis aumentar. O peito era uma coisa que me incomodava muito, não combinava com uma menina tão jovem. E tem um tempo para a gente se adaptar, porque é um corpo estranho. Você vai mudando e, quando vai entendendo que ele é seu, parece que vai se encaixando melhor.” Mas, para ela, vaidade tem limite: “Senão vira escravidão. Acho que a gente tem que buscar consertar o que incomoda. Meu peito me incomodava, mesmo assim não me impossibilitava de tirar a camisa. No filme ‘Febre do Rato’ (de Cláudio Assis, 2011), eu tiro, era meu peito e estava tudo certo. Eu tinha que fazer a cena, então dane-se o que a Nanda achava do peito dela. Era eu contando aquela história e foi com toda a minha verdade. A aceitação está dentro de cada um. Entendi que não ia mudar minha vida mudando meu peito, não ia me fazer sentir mais segura, mas, quando achei que ia ficar equilibrado, ok.”

Uma das atrizes top da Globo, a artista não teve nada de graça. Nanda nasceu em Paraty, litoral sul do Rio, e saiu de casa aos 14 anos para morar com uma tia em São Paulo.Depois de sua morte num acidente de carro, a atriz enfrentou vários perrengues e chegou a passar um ano e meio em um pensionato de freiras. No sufoco, quase largou tudo e desistiu da profissão. “Sofri muito, porque era superagarrada à minha tia, mas pensei: ‘Não vou adiar meu sonho. Já que estou aqui, vou continuar.’ Mas, quando eu fazia um teste, era quase aprovada e não rolava, aquilo me dava uma tristeza... Uma vez me aprovaram e, depois, desaprovaram. Aí eu quis dar um basta: ‘Agora chega.’ Mas me chamaram para um novo teste, entrei na novela ‘Cobras & Lagartos’ (2006) e não parei mais. Fui emendando um trabalho no outro. Eu sou o que sou hoje por causa da minha história, não me arrependo de nada e faria tudo de novo”, frisa.

Ela garante que, por um bom papel, é capaz de qualquer sacrifício. “Gosto de voltar diferente, podia ser de cabelo raspado. Quando soube que ia fazer a Marinalva, não mexi mais no cabelo, não hidratei, não fiz as unhas, e não é porque ela é religiosa que não é vaidosa. Eu é que a imaginei negando um passado de luxúria. Eu a construí assim, cabelão comprido, sem maquiagem, roupas fechadas... Não olho a Marinalva e falo: ‘Nossa, que bonita!’ Mas também não estou procurando beleza, estou procurando a alma dela e toda essa desconstrução ajuda a contar a história. Até na hora de gravar eu peço para detonar ainda mais. Não me preocupo em aparecer feia.”

Nanda Costa%3A 'Toda vez que me sinto frágil%2C eu fico mais forte. Quando me vejo fraca%2C não deixo aquilo me frear”Divulgação / Verônica Peixoto

Para ajudar na composição, Nanda também frequentou cultos evangélicos no Rio e em Paraty: “Fui a várias igrejas e tenho uma prima que é evangélica. Conversei muito com ela e fui imaginando como a Marinalva lidava com a religiosidade.” Com zero glamour, ela nem foi reconhecida pelos curiosos durante uma gravação externa com Cauã Reymond (André). “Estava uma gritaria de ‘Cauã, Cauã’... e eu passei batida com aquela trança, toda séria. Isso foi muito legal. Andei no meio da multidão com os seguranças, mas ninguém reparou, só algum tempo depois”, lembra. Na trama, ela faz uma ex-garota de programa, casada com um pastor, ex-travesti, vivido por Bukassa Kabengele. A atriz acredita na mudança através da fé. “A gente não é uma coisa só. Nossas experiências vão nos moldando. Acho que tudo é possível.”

Nas cenas mais ousadas, Nanda não se intimida. “É delicado, mas eu peço para ficar no set só quem precisa, porque, se tem muita gente, acaba dispersando. Confiando na equipe, na direção, no ator que está contracenando comigo, no fotógrafo, sabendo que ele não vai me expor e me deixar vulgar, tudo bem. Não é: ‘Uhu, que legal’. Mas também não é esse bicho de sete cabeças”, esclarece.

A série nem saiu do ar e ela já se prepara para um novo desafio. Dessa vez, Nanda volta ao horário nobre da emissora como a poderosa Tuane, e a dedicação tem sido tão ou mais intensa. Para interpretar uma vilã dondoca na próxima novela das 21h, ‘Império’, de Aguinaldo Silva, ela está malhando há dois meses, e as medidas já mudaram consideravelmente. Nanda secou, passou do manequim 38 para o 36, definiu braços, coxas e abdômen. “Cortei glúten, gordura e como de três em três horas. Faço um treinamento funcional três vezes por semana. Tem circuitos, corda, peso, elástico, abdominal, pilates”, enumera.

Antes de virar uma perua, Tuane era pobre, engravidou aos 16 anos, abandonou o filho com o ex Elivaldo (Rafael Losso), se casou com um homem mais velho e rico, Reginaldo (Flávio Galvão), e, depois de dez anos, decide voltar para recuperar a guarda da criança. “A gente só não sabe se ela se arrependeu e está voltando por amor ou por outro motivo”, deixa no ar.

O novo visual tem agradado. “Gosto da endorfina, de me transformar, sou focada, mas não sou apegada. Ela podia ficar careca, magra pra caramba que eu também ia gostar do desafio. Mas esse corpo me dá resistência, força”, assume. Da mocinha à mau-caráter, Nanda quer mais é arriscar: “É bom para dar o troco. Fazer a vítima é gostoso, mas agora eu quero experimentar o outro lado.”

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