Por daniela.lima
Publicado 27/01/2015 00:31 | Atualizado 27/01/2015 00:32

Tiradentes, MG - Ainda adolescente, Dira Paes queria ser engenheira. Não porque morresse de amores pela profissão, mas por pretender se infiltrar em um mundo que considerava masculino. Após atuar pela primeira vez, na pele de uma índia, no americano ‘A Floresta das Esmeraldas’, aos 16 anos, não teve jeito: levaria seu plano adiante — só que como atriz. Cansada de ver a mulher como coadjuvante e em papéis sentimentais durante os seus 30 anos de carreira, ela avisa que sua busca hoje é inverter esse jogo. 

Dira começou a carreira há 30 anos%2C no filme americano ‘A Floresta das Esmeraldas’%2C de John BoormanDivulgação


“Tem mais personagens masculinos no cinema, que parece ter sido feito para os homens. Geralmente, a dramaturgia nos retrata através de um amor ou um desamor. Quero fazer uma personagem que não aborde essas questões afeminadas, e sim uma mulher como um ser pensante da sociedade”, diz a atriz paraense, em entrevista durante a 18ª Mostra de Cinema de Tiradentes, onde é homenageada. Na abertura do festival, no último fim de semana, foi exibido pela primeira vez ‘Órfãos do Eldorado’, de Guilherme Coelho. O papel de Dira poderia se enquadrar naquilo de que ela diz estar cansada, não fossem alguns detalhes que a fisgaram.

Sua personagem era a chance de voltar às suas origens nortistas em uma história baseada em lendas amazônicas. No longa inspirado na obra homônima de Milton Hatoum, ela é Florita, uma mulher misteriosa, que lembra a figura mitológica da Iara. Na trama, Dira se envolve com Arminto (Daniel de Oliveira), filho de seu patrão e amante. Além de fantasias do folclore nacional, também são abordados tabus como o incesto.

“Isso (incesto) é, absolutamente e infelizmente, instaurado nas regiões do interior do Brasil. Se a gente for ver, acontece em outras civilizações também. Como se o patriarca tivesse o direito a ser o primeiro homem de suas próprias filhas. Não é algo raro”, diz Dira, que se mantém sempre atenta a questões sociais e políticas. Para ela, não importa o tipo de personagem que interpreta, mas o que ele tem a acrescentar a ela e ao mundo.

“Meu problema nunca foi com estereótipos, mas com papéis ruins”, dispara ela, ao ser questionada sobre seus critérios de escolha e se seu biotipo indígena já lhe deixou presa a um rótulo estético. “Uma atriz que nunca fez uma empregada ou uma prostituta ainda não teve um bom papel”, dispara Dirá, que completa: “Viajo muito o Brasil, o interior, e isso me permite ter um gama maior de inspirações artísticas e de comportamento. Sobre essa coisa de tipagem, é o ator que precisa se reinventar. Geralmente, o preconceito contra o nortista é daquela pessoa que não os conhece, nunca foi na nossa terra.”

Centrada em seus objetivos, ela conta que nunca quis ser uma celebridade, mas apenas uma atriz. “Quando fui chamada para fazer trabalhos que não me interessavam, eu os recusei. Já fazia filmes há 20 anos quando comecei a atuar mais na TV. O cinema me deu uma independência financeira. Não que eu tivesse muita grana, mas conseguia garantir o pagamento das minhas contas”, recorda. “Fora dessa área, fui me afirmando como atriz mesmo com Solineuza de ‘A Diarista’. Era uma empregada e um bom papel.

Não podia olhar para ela com o mesmo olhar preconceituoso de outras pessoas”, analisa a atriz, que já aguarda mais três longas entrarem no circuito comercial: o infantojuvenil ‘Encantados’, de Tizuka Yamasaki; ‘Redemoinho’, de José Villamarim (inspirado no livro ‘O Mundo Inimigo’, de Luiz Ruffato), e a sátira política ‘Saias’, de Gustavo Acioli. “Nesse filme (‘Saias’), tem essa coisa do personagem feminino sair desse universo romântico. Faço uma senadora corrupta em um dia de licitação.”

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