Por daniela.lima
Publicado 23/07/2015 00:50 | Atualizado 23/07/2015 00:51
Jane Di Castro%3A 'Aos 14 anos%2C eu já saía nas ruas de batom'Maira Coelho / Divulgação

Rio - As unhas grandes de Jane Di Castro, ainda na adolescência, foram suas aliadas na luta contra o preconceito. Eram suas garras afiadas que espantavam os meninos, sempre que eles usavam a violência contra a artista transexual. “Eu apanhava dos garotos na rua em Oswaldo Cruz, onde nasci. Eu apanhei, mas bati muito também. Não cheguei a ser uma Madame Satã, mas pulava neles com as minhas unhas e com pedaços de pau”, diverte-se Jane, aos 67 anos.

Histórias como essa serão contadas por Jane na peça ‘Passando Batom’, que estreia amanhã na Sala Baden Powell, em Copacabana. Sob direção de Ney Latorraca, a atriz subirá ao palco dando nova roupagem à montagem de 1984, que fala de sua trajetória.

“A peça é um sucesso absoluto, e o Ney é maravilhoso, um grande amigo. Ano que vem, faço 50 anos de carreira e comecei a comemorar trazendo de volta esse espetáculo. O repertório é novo, com canções de Edith Piaf, Beatles, Roberto Carlos, Marisa Monte. Eu e Ney sentamos e escolhemos tudo, até porque só canto o que eu gosto. Não sei cantar música que não me inspira”, diz ela, taxativa.

O nome do stand up comedy musical fica por conta da fissura que Jane tem por batons. Em cena, ela usa apenas quatro, mas garante que foram mais de centenas ao longo da vida. “Tinha esse fetiche desde criança. Achava que eu só parecia mulher quando estava de batom. Eu era abusada. Aos 14 anos, eu já saía nas ruas de batom, muito antes do Ney Matogrosso”, relembra.

A postura de se assumir transexual ganhou força por conta de seu marido, Otávio, com quem está há 48 anos: “Ele foi meu primeiro e único amor. Mas só no ano passado conseguimos nos casar oficialmente. Otávio me incentivou muito a me assumir. Eu tinha 18 anos, nem era transformista. Entrava no teatro como Luiz de Castro (seu nome de batismo), e ele me falava que seria mais fácil se eu começasse a me vestir como mulher.” O fato de ter um amor alegra Jane, que acha que os dias atuais são mais complicados para as mulheres.

“Antigamente, era mais fácil namorar. Hoje, os homens não são mais cavalheiros, não abrem a porta do carro. Acho horrível essa coisa de dividir as despesas, vejo até menina dividindo pizza com o namorado. Isso tirou o romantismo do homem”, avalia.

O momento é de festejar, Jane garante. Feliz com o corpo e com a mente, a artista usa o trabalho para representar bem sua classe. “Nunca fui gay. Sou transex de cabeça, não fiz operação. Minha transexualidade está no comportamento e na minha cabeça. Sempre meti as caras, sou ariana, de família evangélica, pai militar, mas nunca fiz os que os papais queriam. Minha mãe só me arrumava profissões masculinas, mas não aceitei nenhuma, só a de cabeleireiro”, comenta, acrescentando que tem um salão no prédio onde mora (Edifício Kansas, em frente ao hotel Copacabana Palace) e é síndica há oito anos.

“Sou respeitada. As pessoas gostam da minha administração”, admite. Moradora do 12º andar, ela afirma que nunca foi incomodada por vizinhos insatisfeitos. “Tem um livro de reclamação na portaria e só respondo o que está escrito lá, geralmente é gente reclamando do barulho do vizinho”, diverte-se. “Todos me tratam muito bem, mas, se me tratarem mal, desce o Luiz de Castro em mim. Tenho a sorte de ter esses dois lados, e eles são muito bem resolvidos.”

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