Por tabata.uchoa
'Hoje passamos por preconceitos de maneiras diferentes%2C mas eles existem sim%2C só que devidamente policiados'%2C diz Eliane GiardiniDivulgação

Rio - Marcada por personagens femininas fortes, a novela ‘Êta Mundo Bom!’ traz à tona os preconceitos enfrentados pelas mulheres nos anos 40. Não é à toa que toda a trama gira em torno do maior trauma da vida de Anastácia (Eliane Giardini), mãe do protagonista Candinho (Sérgio Guizé). Por ser fruto de uma paixão proibida, ele é arrancado dos braços dela logo após o seu nascimento.

“Hoje passamos por preconceitos de maneiras diferentes, mas eles existem sim, só que devidamente policiados”, dispara Eliane Giardini, que compara as duas épocas. “O sentimento contra tudo que é apontado como diferente — negros, homossexuais, a mulher, as minorias — é uma briga atual. O que mudou é que agora isso é crime”, enfatiza ela, que, na trama, será a única a dar abrigo e trabalho para Maria, após a jovem ser expulsa de casa. Interpretada por Bianca Bin, Maria se vê sozinha no mundo após o noivo morrer, a deixando com um bebê na barriga.

“Ela faz isso porque sofreu a mesma coisa na própria carne. Então, não pode permitir que isso aconteça na sua frente”, explica a intérprete de Anastácia sobre o gesto, mal-visto pela sociedade da época.
“Preconceitos ainda existem e o machismo também. Inclusive, há muitas mulheres machistas’, lamenta Eliane, acreditando que ainda falta muita estrada até que as pessoas do sexo feminino sejam vistas e se vejam de maneira diferente. “São séculos de treino e de educação para que seja dessa forma. Não é por maldade delas. As conquistas feministas são muito recentes”, acrescenta.

O autor Walcyr Carrasco conta que fez questão de abordar esses temas, que, na sua opinião, também não estão tão distantes da realidade em que vivemos. “Acho que por mais que a gente fale que hoje somos muito liberais, na verdade, a gente olha para o presente e não percebe que a relação de homem e mulher mudou”, diz ele, que explica: “Ela ganhou trabalho, mas ainda é rara a casa onde há divisões de tarefas em que os homens fazem o serviço doméstico. Então, reconstruindo esses valores do passado, estamos de certa forma falando com o presente, sobre a mulher que ainda é oprimida.”

Se hoje ainda há opressão, imagina há mais de 70 anos. Após ser separada do filho, Anastácia será obrigada a casar com um homem rico e seguir a vida escolhida para ela por sua família. Só depois da morte dele é que a personagem terá coragem de revelar seu segredo. “Mesmo com o luto, onde há tristeza, ela sente que está vivendo um momento de libertação”, define Eliane. Já Maria precisará enfrentar os olhares tortos da sociedade e, sozinha, sustentar a si e ao filho.

“Em vez de abortar, ela decide ficar com o filho e é expulsa de casa pelo pai. Por isso, vai passar por muita vergonha e humilhação. Só quem lhe dá uma chance é Anastácia, que a contrata como copeira”, adianta Bianca. Ao falar sobre Maria, o autor é categórico: “Todo mundo diz: ‘Não, agora é diferente!’ Diferente? Hoje, vejo muito caso em que a moça fica grávida e o filho fica só para ela. Quando a criança faz uns 10, 15 anos, que o pai chega e fala: ‘Olha, esse é meu filho!’”, critica Walcyr.

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