Por tabata.uchoa
José Mayer se diz o oposto de seu personagem em 'Saramandaia'João Laet / Agência O Dia

Rio - Sorte de José Mayer, que não tem restrição alguma a bichos. Nem a formigas, em particular. Durante 57 capítulos, o ator vai ter que conviver com os pequenos insetos para encarnar o fazendeiro e político corrupto Zico Rosado na nova versão de ‘Saramandaia’, que
estreia amanhã, na Globo. O personagem expele formigas pelo nariz quando fica com raiva.

“O que deixa Zico nervoso é o risco de perder o poder, quando as coisas ameaçam escapar ao seu controle. Aí, as formigas saem pelo nariz”, conta o ator, que revela ainda o que o tira do sério na vida real: “O trânsito no Rio e nas grandes cidades, a impontualidade e a falta de seriedade no trabalho são coisas que me irritam. Mas lido bem com isso, porque eu mesmo, às vezes, me decepciono comigo. Não somos super em aspecto algum da vida. É preciso haver compreensão e
tolerância em relação a tudo. Não sou um homem intolerante, não boto formiga pelas ventas, sou até bastante cordial!”.

Aos 63 anos, José Mayer lembra que sempre foi ‘amigo dos animais’ na  ficção. Fez várias novelas com cavalos e até contracenou com um burro na minissérie ‘O Pagador de Promessas’ (1988). Um bicho tão pequeno como formiga é novidade. Os insetos são colocados nos seus lábios e abaixo do nariz, mas alguns são criados por computação gráfica.

“Formiga é um pouco complicado. Às vezes, tenho que segurá-las, mas lido bem com elas. Nunca tive asco de bicho, não”, garante o ator, que se valeu muito de suas experiências de infância no interior de Minas Gerais. “Fui um moleque ligado à natureza. Brinquei na terra, tive contato com animais, como sapos, rãs, cobras. Tive esse privilégio. As crianças de hoje foram privadas da terra, da poeira, da água, do barro”, diz.

Mais uma vez, ele vai formar par romântico com Lilia Cabral, a empresária Vitória, que se derrete de amor quando está ao lado de Zico. Apesar de terem feito marido e mulher em novelas como ‘História de Amor’, ‘Viver a Vida’ e ‘Fina Estampa’, os dois nunca protagonizaram cenas tão tórridas quanto as prometidas na trama de Ricardo Linhares, inspirada na obra de Dias Gomes.

Na história, Zico e Vitória defendem lados opostos — ele luta pela permanência do nome da cidade de Bole-Bole, enquanto ela apoia a mudança para Saramandaia —, mas se rendem a uma paixão do passado.

José Mayer e Lilia CabralDivulgação


“A gente se beija muito! É delicado fazer cenas sensuais ou de sexo. Elas precisam ser críveis e, ao mesmo tempo, ter bom gosto, para que o público não rejeite. É uma questão de se conversar e confiar na direção. Mas estamos com a brasa toda acesa”, brinca o ator, que é só elogios à parceira. “Lilia é uma atriz especial, uma pessoa que conheço profundamente e confio muito. Temos uma grande capacidade de reinvenção. Por isso, o público acredita e nos prestigia”.

A faceta de sedutor, que acompanhou José Mayer em vários papéis na teledramaturgia, também está presente em Zico Rosado. O ator não leva muito a sério o efeito que provoca no público feminino, mas agradece por receber tanto carinho. “Por algum motivo, elas têm esse afeto por
mim, e fico honradíssimo! Acho que tem a ver com os meus personagens, além do que conhecem da minha vida privada. Um somatório das duas coisas. É uma construção de longo prazo”, tenta explicar.

Para o galã, o corrupto Zico representa muitos políticos que estão por aí no Brasil. Mayer se irrita com a relativização da ética nos últimos anos. “Quando a gente perceber a importância de valorizar profissionais da política que sejam ligados à ética, aí sim o Brasil vai mudar! Mas precisa se livrar de muito lixo que está por aí. Isso leva tempo”, indigna-se.

Apesar de considerar Zico um vilão quase light — “Ele descamba para a farsa” —, o ator critica a atual fascinação do público por personagens malvados. “É sintomático de uma sociedade perversa. Hoje, o que está entronizado no reino da teledramaturgia é a vilania, o charme do mal. A cinematografia mundial também faz isso, glamouriza o mal. Talvez porque o mundo hoje seja tão hostil que as pessoas precisam aprender técnicas da maldade para sobreviver nessa selva.
Mas acho um equívoco”, desabafa.

Casado com Vera Fajardo e pai de Júlia Fajardo, o ator vive um momento em que tomou nas mãos as rédeas da carreira: além de estar na TV, produz a peça ‘O Tempo e os Conways’, na qual a filha atua, com direção de sua mulher. O trabalho em família, diz ele, é uma conquista que veio com o tempo: “No início, engoli muitos sapos. Uma das vantagens da experiência é dizer não ao que não interessa e poder escolher o que dá prazer”.

O papa vai para o formigueiro

Quem você mandaria para o formigueiro?
MAYER: O Papa Francisco, que falou mal dos pais de filhos únicos. Disse isso possivelmente para confirmar a opção da igreja pela proibição da camisinha. O que é uma estupidez, um desserviço! O planejamento familiar é uma das liberdades mais importantes que adquirimos nos últimos anos.

E quem você salvaria do formigueiro?
Joaquim Barbosa, presidente do STF, porque é corajoso, uma ilha! Não sei o que ele vai conseguir, porque a Justiça brasileira é um antro de burocracia e leis que só burlam o que é direito e justo.

Metáforas para blindar a censura

Quando a primeira versão de ‘Saramandaia’ estreou, em 1976, o país vivia sob ditadura. Para driblar a censura da época, o autor Dias Gomes usou uma linguagem nova, o realismo fantástico, e criou uma história cheia de metáforas, com personagens que chamaram a atenção por suas características exóticas.

João Gibão (Juca de Oliveira) tinha asas; Zico Rosado (Castro Gonzaga) expelia formiga pelo nariz; 

Professor Aristóbulo (Ary Fontoura) virava lobisomem; Marcina (Sonia Braga) pegava fogo e queimava tudo o que tocava; Encolheu (Wellington Botelho) previa o tempo com dores ósseas e Dona Redonda (Wilza Carla, foto acima) não parava de comer.

A trama girava em torno de um plebiscito para mudar o nome da cidade de Bole-Bole para Saramandaia. Uma das cenas mais marcantes foi a explosão de Redonda, no capítulo 26. Um balão inflável com as roupas da personagem foi usado para fazer o efeito do estouro. No fim, Gibão abriu as asas e voou.

História do realismo fantástico repaginada

O remake de ‘Saramandaia’, escrito por Ricardo Linhares, é livremente inspirado na obra de Dias Gomes. O autor manteve os personagens com características de realismo fantástico da trama original, mas criou outros, como Vitória (Lilia Cabral), Tibério (Tarcísio Meira) e Candinha (Fernanda Montenegro). A história começa com uma disputa política entre os ‘mudancistas’, que querem trocar o nome da cidade de Bole-Bole para Saramandaia, e os ‘tradicionalistas’, que são
contra a mudança.

JOÃO GIBÃO (Sérgio Guizé) — Sofre por ter nascido com asas. É apaixonado por Marcina, mas não se relaciona intimamente com ela por medo que um possível filho herde sua sina. Tem visões e consegue tocar o sino na igreja com a força do seu pensamento.

MARCINA (Chandelly Braz) — Moça simples e romântica que ama João Gibão. Seu corpo arde de paixão pelo namorado e queima tudo o que toca.

TIBÉRIO (Tarcísio Meira) — Patriarca da família Vilar, que mantém uma rixa centenária com a família de Zico Rosado (José Mayer). De tanto ficar sentado, criou raízes. É pai de Vitória (Lilia Cabral) e avô de Zélia (Leandra Leal), Pedro (André Bankoff) e Tiago (PedroTergolina).


CANDINHA (Fernanda Montenegro) — Matriarca da família Rosado. Conversa com galinhas imaginárias, que só ela e o público veem. Mãe de Zico Rosado, ela teve um romance com Tibério no passado.

DONA REDONDA (Vera Holtz) — Ganhou o apelido por causa de seu tamanho. Não para de comer e, por isso, vai explodir. Mãe de Bia (Thais Melchior), é apaixonada pelo marido, Encolheu (Matheus Nachtergaele), que prevê o tempo com suas dores nos ossos.

CAZUZA (Marcos Palmeira) — Dono da farmácia, bota literalmente o coração pela boca quando se exalta. É casado com Aparadeira (Ana Beatriz Nogueira) e pai de Marcina.

ARISTÓBULO (Gabriel Braga Nunes) — Orador oficial dos eventos de Bole-Bole, não dorme há 10 anos e vira lobisomem à meia-noite de sexta-feira. É filho de Dona Pupu (Aracy Balabanian) e Belisário (Luiz Henrique Nogueira).

ZÉLIA (Leandra Leal) — Veterinária, é briguenta como a mãe, Vitória. Entra em conflito com o noivo, o prefeito Lua (Fernando Belo), apartidário. Ela é líder dos ‘saramandistas’, que querem a troca do nome da cidade.

HELENA (Ângela Figueiredo) — Mulher de Zico Rosado, que sofre com as traições do marido.

RISOLETA (Débora Bloch) — Dona da pensão apaixonada por Aristóbulo.

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