Por tamyres.matos

Rio - Pode ser Tarcísio Meira ou Antonio Fagundes , antes de entrar para o elenco de uma das novelas de Ricardo Waddington , qualquer ator terá de se submeter a uma série de testes. Diretor de núcleo da TV Globo, ele diz acreditar que nenhum nome é forte suficiente para ganhar um papel sem antes mostrar que merece. E passou a realizar o que chama de "adequação de personagem".

Para escalar o elenco de "Joia Rara", que estreou no horário das 18h e também está sob sua aba, ele submeteu todos a testes. E continuou assim em "Além do Horizonte", que substitui "Sangue Bom", no horário das 19h, em 4 de novembro. "É uma cultura que é comum fora do país. Não estamos julgando se o ator é bom ou ruim, mas se a escolha daquele ator para determinado personagem está correta ou não. A gente não tem esse exercício, mas eu estou introduzindo cada vez mais."

Ricardo Waddington durante apresentação de "Além do Horizonte" à imprensaDivulgação / TV Globo

E para se ter uma ideia da importância dessa prática, Waddington cita a reprovação de Fiuk na pele do protagonista de "Além do Horizonte" . O nome do cantor surgiu como uma ideia quase certa de que ele caberia muito bem no papel, mas os testes mostraram o contrário. Segundo o diretor, Fiuk teve um ótimo desempenho, mas não convenceu como aquele personagem.

"Você colocar um bom ator em um papel que não tem nada a ver com ele é o primeiro passo para você derrubar a pessoa, mesmo que ela seja ótima. Temos diversos exemplos de atores que fizeram personagens não adequados e quebraram a cara. Não quero isso. Quero que o ator brilhe. O brilho do ator é o meu sucesso."

A nova maneira de trabalho poderia causar certo desconforto com nomes consagrados da teledramaturgia. Como dizer para aqueles com décadas de carreira, figurões gabaritados de novelas, que ele terá de se submeter a não um, mas vários testes antes de ser aceito? Dizendo, oras.

Fiuk era cogitado para ser o protagonista de 'Além do Horizonte', mas não foi aprovado no testeAg. News

Waddington diz confiar na experiência e maturidade dos veteranos, e que eles serão os primeiros a entender a importância do processo. "Um produto audiovisual é muito caro. Então é preciso minimizar riscos. O risco maior tem que ser a história que você vai contar, e não a escolha de elenco. Duvido que o Fagundes se recuse a fazer teste, ele vai entender a minha dúvida. Já tive exemplo de ator que fez o teste, virou para mim e disse: 'Você está louco, não posso fazer esse personagem'".

O diretor contou que já aconteceu de trocar papéis de atrizes já escaladas quando começou a leitura dos roteiros. "Em 'Laços de Família' (2000) eu tinha a Giovanna Antonelli e a Vanessa Mesquita para fazer Capitu e Simone, amiga da Capitu. Giovanna fez o teste, ficou nua e tudo. A Vanessa também fez o teste e, pelo físico, ficaria com a Capitu e a Giovanna seria a amiga. Começamos a fase da leitura e falei: 'Errei, quebrei a cara. Não é isso'. Viu como é importante? A Giovanna ganhou proporção nacional e hoje é o que ela é a partir dessa adequação de personagem".

Essa tarefa não é fácil e Waddington tem de rebolar para dar conta de todos os "filhos" que têm na Globo. "Sou centralizador, delego algumas decisões, outras, não. Meu telefone fica ligado 24 horas por dia, porque além do trabalho, tenho meus filhos reais. É meio que uma vida de pediatra, estar disponível sempre."

E você dorme, diretor? "Pouco. Bem pouco."

Reportagem: Nina Ramos

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