Rio - Há um ano, ela virou a noite em um pagode e acabou no hospital tomando glicose, de tão chapada. Agora, vai do axé ao heavy metal, passando por um flash mob (coreografia coletiva). Essa é Dona Picucha, a velhinha ‘prafrentex’, de 85 anos, que deu a Fernanda Montenegro, 84, o Emmy Internacional de Melhor Atriz, em Nova York, em novembro, e que a retirou definitivamente do perfil de ricaça da novela das nove. “De repente, pegar uma senhorinha dessas pela frente é uma alegria”, constata Fernanda, que volta à cena no seriado ‘Doce de Mãe’, de Jorge Furtado e Ana Luiza Azevedo, a partir do dia 30.
Matheus Nachtergaele, um dos filhos dela na historia, acrescenta: “E eu? Sempre encarregado de fazer o molambo da roça, o rústico. Esse é o que mais se parece comigo. Também me formei em uma família de quatro filhos. Me senti em casa.” O personagem de Matheus trabalha em um bar e divide a vida com o namorado, Roberto (Evandro Soldatelli). É o filho protegido de Picucha.
Voltando ao Emmy, a equipe exibiu, orgulhosa, a estatueta na coletiva de imprensa que aconteceu terça-feira no Projac. Mas Fernanda não se deslumbra. É só mais um prêmio. “A essa altura da minha vida, ser indicada para essas coisas é tão inesperado quanto foi a indicação para o Oscar. É bom? É, mas, se eu não ganhasse, minha vida não tomaria outro rumo. Esses prêmios são importantes lá fora. Alguém te ama, alguém te quer e te chama de ‘meu bem’. No Brasil, não acrescenta em nada. Lá, o salário aumenta, aparecem convites, a pessoa é mais solicitada. Aí vem um agente, começa a cuidar do seu nome, a dizer o que você tem que fazer, ganha milhões… Graças a Deus, não tenho isso. É um alívio. Fico feliz em voltar para casa e ficar a mesma coisa. Não ganhei nada, não mudou nada. Eu ganhei o prêmio com a Picucha. Voltei e estou de novo com a Picucha”, diz.
Fernanda nem precisou ir longe para buscar referências para a matriarca cheia de vida, amante de samba, comida e futebol. “Trouxe todas as velhas da minha família. Até uns homens”, entrega. “Picucha não é dessas velhinhas simpatiquinhas. Ela é real e bem atual”, completa o diretor Jorge Furtado.
A maior preocupação dessa jovem senhora é não dar trabalho aos filhos. Independente, não quer saber de ninguém pegando no seu pé. Fernanda também é livre, leve e solta, mas admite ter medo da solidão. “Medo a gente tem. Quem quer ficar sozinho na vida? Mas, de vez em quando, eu adoro. Querendo ou não, na minha idade, pode acontecer. Mas sozinha, por Deus, eu não quero ficar. Uma das coisas que eu acho muito interessante nas pessoas da minha idade é que elas continuam trabalhando. São tantos personagens que isso vai nos alimentando, nos jogando para frente, nos defendendo da solidão da vida”, acredita.
Uma das novidades dessa temporada é Drica Moraes, que entra para reforçar o time formado por Nachtergaele, Marco Ricca, Louise Cardoso, Mariana Lima, Francisco Cuoco, Elisa Volpatto e Daniel de Oliveira — que, por sinal, tem orgulho de ter suas Picuchas em casa. “É tudo gata. Minha avó fez 80 anos dia 3. A gente toma cervejinha, falo de tudo com ela, o nosso papo é reto. Minha mãe faz 60 agora, dia 25. Até vou para Belo Horizonte (Minas Gerais) assoprar umas velinhas para ela. São lindas as mulheres da minha vida. Sempre alto-astral, firmes, fortes, otimistas. Mulher é um negócio impressionante. Vocês são demais”, vibra Daniel.