Por daniela.lima

Rio - Há quem diga que o caminho é o diálogo. Outros pregam mais vigilância e punição. O direito da criança e do adolescente, a redução da maioridade penal e a assistência do Estado aos jovens sempre foram temas polêmicos e reais. Mas a cineasta Caru Alves de Souza não se intimida em tratá-lo na ficção. “Cinema é para continuarmos refletindo sobre o nosso entorno”, diz ela sobre seu primeiro filme, ‘De Menor’, que chega aos cinemas hoje. 

Rita Batata é uma advogada que defende menores infratores e vê seu irmão mais novo se tornar réuIgor Lavrador


No elenco do primeiro longa de Caru, Caco Ciocler defende com firmeza sua posição sobre o assunto. “Quando você entende que vivemos num país onde nascer com uma determinada cor de pele e numa determinada classe social já te garante uma série de privilégios, pelos quais você não fez nenhum tipo de esforço, a questão ganha outra dimensão”, argumenta ele, que conta como as filmagens dispararam uma série de conversas que teve com o filho adolescente, Bruno, na época. “Foi muito profundo para mim conhecer aquela realidade naquele momento exato”, acrescenta o ator.

Foi também uma sequência de bate-papos em família que inspirou a cineasta a transformar as histórias em um longa-metragem. Caru sempre se interessou muito pelas histórias que a prima Michaela contava sobre a rotina dela como advogada da defensoria da Vara da Infância e Juventude de Santos (SP). “Ela sempre falava dos meninos que defendia, e o que mais me interessava é como aquela realidade transformou a minha prima”, lembra a diretora, que assume também ter tomado uma consciência social maior após sua pesquisa para ‘De Menor’.

Na trama, também roteirizada por Caru, Michaela se transformou na advogada Helena (Rita Batata). Após lutar no tribunal, em Santos (SP), pela defesa de menores infratores, ela vê o seu próprio irmão Caio (Giovanni Gallo) como réu. Diante do juiz (Caco Ciocler), precisa discernir os limites entre seus sentimentos pessoais e profissionais.

“Alguns cometem crimes porque estão gritando por socorro, alguns estão desesperados, alguns nunca receberam amor e alguns, claro, apresentam, sim, transtornos psicóticos e sociais. Todos podem oferecer perigo, mas é preciso que sejam cuidados de acordo com suas necessidades, que são diferentes”, avalia Ciocler, que fez laboratório para compor seu personagem.

“Acompanhei um juiz, em Santos. Ele conseguia desenvolver com os adolescentes uma relação muito curiosa de afeto, descontração e, ao mesmo tempo profundo respeito!”, conta ele, que emenda: “Ele conseguia ser pai daqueles garotos. Um pai atento, que mostrava preocupação real e afetiva. Conhecia os adolescentes pelos nomes. Sabia das suas histórias. Foi uma aula.” 

Justiça com as próprias mãos

A primeira exibição nacional de ‘De Menor’ foi durante o Festival do Rio 2013, de onde saiu com o prêmio de Melhor Filme, junto a ‘O Lobo Atrás da Porta’. Pouco tempo depois, um adolescente foi acorrentado nu a um poste no Flamengo, por cometer furtos na região. O ocorrido ganhou repercussão nacional e iniciou uma onda de atos parecidos, dividindo a opinião pública sobre os limites de fazer justiça.

“Esse tipo de coisa acontece pelo medo, pela desinformação, pela incapacidade de termos uma visão mais ampla dos problemas sociais e também por uma instituição pública ainda falida e incompetente para cuidar de um adolescente que comete delitos repetidos. Seja como for, não me agrada nada pensar num lugar para viver onde as pessoas façam justiça com as próprias mãos”, opina Caco Ciocler.

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