Petrônio Gontijo se transforma para viver Arão em ‘Os Dez Mandamentos’

Ator diz que é escravo da arte e fiel aos seus princípios

Por O Dia

Para compor Arão%2C Petrônio ficou mais forte%2C usa spray bronzeador e perucaDivulgação

Rio - Nada de música gospel ou algo do gênero. Petrônio Gontijo — que costuma selecionar uma trilha sonora para cada personagem — elegeu o último disco de Criolo, ‘Convoque Seu Buda’, como inspiração para Arão, seu papel em ‘Os Dez Mandamentos’, da Record, que anda tirando o sono da Globo com seus altos índices no Ibope. Na última segunda-feira, a novela bíblica de Vivian de Oliveira, com direção de Alexandre Avancini, bateu recorde de audiência, com 17 pontos de média: “Vou muitas vezes para a gravação ouvindo esse disco porque fala sobre escravidão, injustiça, humilhação... O Arão está muito ligado à questão operária atual, à dificuldade de inserção social. Tem alguma coisa de Chico Buarque também”, acrescenta o ator. 

Na terceira fase da megaprodução, Gontijo aparece envelhecido e tem que usar próteses embaixo dos olhos. Fora o spray bronzeador. “A barba é colada fio a fio, uso peruca de cabelo natural e escureço a pele, porque sou bem branquelo, e ele é um escravo que trabalha debaixo de sol. Faço academia regularmente para manter a forma, mas tive que definir mais os músculos. Foi uma novidade para mim, um desafio. Achei que tinha que mudar para ficar crível.”

Em tempos de intolerância religiosa, o ator frisa que é preciso aceitar as escolhas do outro. “Isso é coisa do homem, não de religião. As pessoas têm dificuldade de respeitar um pensamento diferente e isso leva a atitudes violentas. ‘Ame o próximo como a ti mesmo’, pregou Jesus. Ele era um revolucionário, tanto que causou estranhamento na época com esse tipo de pensamento”, reflete o ator, que não rotula sua fé. “Minha busca é espiritual, não é ligada a uma religião específica. Teve um momento da minha vida em que achei tudo meio sem graça, acordar, trabalhar, sair e voltar para casa... Pensei: ‘Deve ter algo que oriente melhor nossas ações diárias.’ Depois dos 30 anos, percebi que o que importa é nossa caminhada, o estudo.”

Sobre a patrulha do politicamente correto, que tem tomado conta principalmente das redes sociais, o ator acredita que a liberdade é crucial para o desenvolvimento de um produto artístico interessante: “Creio que o artista não deva estar aliado a nenhum tipo de censura. Acho qualquer tipo de preconceito um atraso. Quando o conteúdo é bacana, vale tudo.”

Petrônio iniciou sua trajetória nas artes cênicas com apenas 2 anos (ele tem 47), na pele do Menino Jesus, numa peça da escola onde sua irmã estudava. Entre teatro, TV e cinema lá se vão quase 30 anos de carreira consolidada. Mas, no início, ele confessa, teve dificuldade para lidar com a fama: “Sou mais reservado e não adianta forçar uma barra para ser celebridade. Eu queria ser respeitado pelo meu trabalho e isso aconteceu. Ser vip é legal, ganhar camarote, mas também tem que saber assistir da galera, a comprar ingresso. Não perder o contato com o público, para mim, é fundamental. Por isso, continuo indo à venda da esquina, padaria... A gente precisa da exposição, ser reconhecido é importante, mas tudo tem limite e isso depende da postura de cada artista. Aprendi a me retirar quando me sinto invadido. Também aprendi a ser atencioso. O público nos prestigia com a audiência, paga ingresso. Merece toda nossa atenção.”

Curado da síndrome do pânico, que o acometeu há 15 anos, o ator ainda se cobra, mas de forma produtiva: “A síndrome foi controlada, mas foi preciso acompanhamento médico. No meu caso, veio de uma cobrança excessiva. Eu travava, suava frio, o coração batia acelerado e eu achava que ia morrer. Era um problema emocional que refletia no físico. Precisava de ajuda. Agora, lido melhor tanto com o sucesso quanto com o fracasso. Não sou mais manipulado por essa engrenagem do perfeccionismo. Não sou mais um fantoche do resultado.”

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