Para manter venda, comércio ressuscita fiado e pré-datado

Com orçamento apertado, consumidor segura gastos na maior recessão em 20 anos

Por O Dia

Pequenos estabelecimentos estão aceitando o pagamento no dia seguinteDivulgação

Rio - Para sobreviver à maior recessão em 20 anos, comerciantes vêm resgatando velhas práticas para manter suas vendas e atrair o consumidor, como o fiado e o pré-datado. As facilidades no pagamento se tornaram a ‘arma’ do setor para garantir um bom desempenho em meio à crise. A queda de 3,8% do Produto Interno Bruto (PIB) de 2015 anunciada ontem pelo IBGE, foi influenciada pela redução do setor de serviços, que pela primeira vez registrou resultado negativo: -2,7%.

“Quando o consumo das famílias diminui por conta da crise, o setor de serviços sofre efeito imediato”, explica o economista e professor do Ibmec, Gilberto Braga. Segundo ele, a venda fiado ou com cheque pré-datado, além de promoções, são alternativas para manter as vendas.

Na briga pela clientela, prestadores de serviço, como os salões de beleza, voltaram a aceitar o pagamento pré-datado, nas zonas Norte, Sul, Centro e também em Niterói. É o caso da cabeleireira e empresária Vilma Alves, 44 anos. Há menos de um ano à frente de seu salão, na Tijuca, ela já aderiu à prática.

“A procura por esse tipo de pagamento tem aumentado e, neste momento, temos que oferecer facilidades para manter o lucro”, diz Vilma, mas acrescentando que só aceita de quem conhece.  Vilma também adotou outras medidas. “Parcelo os valores mais altos e faço parceria com clínica de pilates e de estética. Meus clientes e os deles têm 10% de desconto aqui e vice-versa”, conta.

Para clientes, a medida funciona. “Às vezes, não tenho crédito suficiente e o cheque é um facilitador. E quando o serviço sai mais caro, divido o valor”, diz a advogada Mariana Santos, 36. E o fiado não fica atrás. Quem achava que o famoso ‘pendura’ ficou no passado deveria tirar à prova. Pequenos estabelecimentos estão aceitando o pagamento no dia seguinte — ou, “quando o cliente puder”. “As vendas estão fracas em toda parte. Temos que arrumar um jeito. Se você confia no cliente, assume esse risco”, diz Amanda Mendonça, 20, que trabalha com o marido, Paulo Carnevale, 31, na Rua do Lavradio, no Centro.

Como inovar e lucrar no comércio

Aceitar cheque pré-datado é uma medida que pode atrair muito mais cliente, segundo o economista Gilberto Braga. “Assim, o lojista foge das taxas do cartão e também facilita a vida do consumidor, que neste momento foge dos juros do rotativo e de mais gastos”, explica o especialista.

O fiado também é outro facilitador, mas deve ser feito com cautela. O lojista precisa avaliar a possibilidade de conceder esse benefício ao cliente.

Braga lembra ainda outras formas de fidelizar o cliente, como sistema de pontuação. “Tem que criar esse incentivo, fazendo com que a pessoa volte ao estabelecimento. Tem que criar descontos progressivos. Isso vale para todos os segmentos”, conclui.

PIB cai e tem pior resultado desde 1996

A economia fechou 2015 em queda, com o pior resultado do Produto Interno Bruto (PIB) — soma de todos os bens e serviços produzidos no país — em 20 anos. O PIB teve recuo de 3,8% frente à 2014, a maior retração desde o início da série histórica do IBGE, iniciada em 1996, e totalizou R$ 5,9 trilhões.

Pela primeira vez, o setor de Serviços, que engloba áreas como comércio, transporte e saúde, encolheu, e teve um recuo de 2,7%. Os dados apontam ainda recuo de 4% no consumo das famílias, a maior queda da série, desde 1996. A Indústria teve queda de 6,2%, o pior resultado desde 2009. E o único setor avaliado que teve crescimento foi a Agropecuária, com alta de 1,8%.

A instabilidade política e a queda de confiança dos consumidores foram alguns dos fatores que levaram a esse resultado, segundo especialistas, que apontam um cenário ainda pior para este ano. “A expectativa é de queda do PIB este ano entre 3,5% e 4%. Até agora, nenhuma medida do ajuste fiscal foi colocada em prática. Esse conjunto de fatores mantém o ambiente inóspito para investimentos e retomada da economia. A consequência disso é a redução da arrecadação tributária e da geração de empregos”, explica Braga.


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