Alex Campos: Dos investimentos ao mercado

O Brasil necessita de ações estratégicas na área de Educação Financeira porque apenas dizer às pessoas o que elas precisam fazer não está funcionando

Por O Dia

Rio - O Brasil necessita de ações estratégicas na área de Educação Financeira porque apenas dizer às pessoas o que elas precisam fazer não está funcionando. Por isso, bancos, empresas, fundações e instituições passaram a oferecer sites, cursos, cartilhas, manuais e seminários como provedores de orientações sobre o bolso, a conta, a poupança... dos investimentos aos supermercados. Outras iniciativas chegaram a escolas públicas e privadas, onde crianças e adolescentes recebem lições básicas importantes.

Uma nação sem noção

Os esforços são ótimos porque atendem a uma das nossas deficiências nacionais, que é a preparação da sociedade para lidar com cifras, valores, quantias — desafios que os estudantes não aprendiam nas salas de aula, apesar de se tratar de um dos fundamentos do sistema social e econômico em que vivemos.

Esses projetos levam dos colégios para os lares mensagens valiosas, como a de que dinheiro não pode mais ser tabu — a exemplo de sexo ou religião — e que pecado mesmo é deixar se multiplicar uma nação sem noção... de pobres ignorantes ou de ignorantes ricos.

O fato é que, mais do que nunca, o Brasil precisa tirar grande parte das famílias do analfabetismo econômico. Todo o empenho para erradicar esse analfabetismo deve impactar as pessoas, gerando nelas forte grau de conscientização, para aflorar nelas uma vocação financeira natural.

Trata-se de inocular nas veias, nas mentes, nos corações do país inteiro pensamentos e sentimentos capazes de suprimir deficiências gritantes e suprir conhecimentos. Muitos brasileiros ainda são orgulhosamente desinformados sobre crédito, empréstimo, financiamento... dinheiro em geral.

Esse é um problema, ao mesmo tempo, social, cultural e individual — com agravante de influências antigas ou antiquadas, do tipo que tornam o assunto mal falado, mal discutido e mal conversado. É isso que a gente precisa mudar.

De curto ou longo prazo, dívida exige cautela

Por causa dessa combinação de equívocos pessoais, históricos e conjunturais, ainda predominam por aí crenças, superstições e ignorâncias que acabam saindo caro na conta, no bolso e nos orçamentos domésticos.

No caso dos juros, por exemplo, um dos princípios que regem o impulso dos brasileiros, mesmo lidando com compras a prazo e taxas a rodo, é “se dá para pagar as parcelas”. Partindo dessa afeição mal calculada ao descuido, eles fecham negócio, efetivam consumo e assumem dívidas sem pensar nos pesados custos embutidos que terão pela frente, ao longo de meses ou anos.

Isso acontece em todo o Brasil, ainda de forma muito reincidente, por falta de três coisas: educação financeira básica, informação econômica elementar e de preguiça matemática hereditária.

Em busca de cliente e crédito sustentáveis 

No caso dos bancos, os esforços de conscientização não são feitos por altruísmo, mas para consolidar no mercado cultura de “crédito sustentável” de médio e longo prazos. Ou seja, o que interessa agora é o “cliente sustentável”.

O sistema financeiro aprendeu que o calote dos clientes em geral é o “tarifaço” que os banqueiros “pagam” por não terem investido antes em alfabetização econômica. Não interessa mais a ninguém que a riqueza em circulação, na forma de empréstimos, se perca nos labirintos da ingenuidade assalariada ou caia no abismo das despesas domésticas.

A crítica que cabe aqui ao sistema financeiro é a falta, ainda, de uma ação coletiva, conjunta e unificada, de uma força-tarefa com um só objetivo, que vá na mesma direção.

Capitalização, raspadinhas e figurinhas

Não adianta alguns bancos investirem em campanhas milionárias de conscientização, enquanto outros facilitam o acesso barato ao crédito caro, até para quem não pode se endividar na padaria ou no açougue.

Não adianta essa ou aquela instituição formar ou motivar poupadores, enquanto concorrentes empurram sobre idosos já endividados e universitários ainda sem juízo promessas e volumes imensos de “dinheiro fácil” — como se essa “fortuna acessível” tivesse a simplicidade de raspadinhas das Olimpíadas ou figurinhas da Copa. A ideia de “dinheiro fácil” não pode mais colar.

Alex Campos é comentarista do Painel Econômico da Rádio JBFM (99,9)

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