Alex Campos: Pecados capitais e pecado do capital

A imprevidência está na ideia de que é possível fatiar um pagamento em 18 ou 72 vezes e, no fim das contas, pagar um valor total igual ao cobrado à vista

Por O Dia

Rio - Os pecados capitais são: ira, gula, soberba, vaidade, luxúria, preguiça e avareza. Os pecados do capital são o avesso da avareza: gastar tudo o que se ganha e gastar mais do que se ganha (além, claro, de dívida, consumismo, desperdício e imprevidência).

Uma das maiores manifestações de imprevidência está no fato de o Brasil ser o único país do mundo onde existe parcelamento de compras "sem taxas de juros" — isso com as piores taxas de juros ou com as piores taxas "sem juros". A imprevidência está na ideia de que é possível fatiar um pagamento em 18 ou 72 vezes e, no fim das contas, pagar um valor total igual ao cobrado à vista — o que é mais falso do que uma cédula de R$ 3 ilustrada com a efígie de uma anta.

Endividamentos familiares

Segundo relatórios do Banco Central, quase metade dos gastos no cartão é feita dessa maneira, com parcelamento "sem juros", hábito que contribuiu para que, em 2015, quase metade dos salários ficasse retida ou comprometida por "endividamentos familiares". Isso porque, mesmo quando a dívida é dividida, o custo é "custoso".

Mas não é verdade que brasileiros agem assim sem saber. Eles agem assim ou por comodismo ou por emergência. No caso, o hábito e a imprevidência precisam mudar. Pagar mais do que o necessário não pode virar um costume. Pagar sob choque, pressão ou urgência não pode ser uma constante, não pode ser uma imprudência repetitiva.

Para lidar melhor com o crédito, controlar o consumo ou descartar o consumismo, todos precisamos de prevenção orçamentária, organização financeira e planejamento econômico — como já expliquei aqui em várias edições, em especial nas quatro colunas dominicais de julho. Outra das minhas regras de ouro é "equilibrar vida material menor que o salário e vida espiritual maior que o dinheiro". Nunca é demais lembrar: há muita coisa boa que a gente pode ser, ter e fazer de graça... com a graça de Deus.

Desconto à vista? Tem, mas acabou

Poupe dinheiro, compre à vista, peça desconto e... poupe dinheiro. É o que recomendam, cheios de razão, especialistas, orientadores ou educadores financeiros. Às vezes, funciona; às vezes, não.

Isso porque, em geral, lojas vendem juros bancários, e não somente eletroeletrônicos. Por isso nem sempre adianta pedir desconto em compras com pagamento à vista — até porque, como mostra o texto principal, aí ao lado, na prática isso não existe.

Comerciantes que não dão desconto e recusam pagamento à vista preferem empurrar um crediário ali, aqui e acolá porque, na verdade, o que eles vendem não são apenas fogões, geladeiras, televisores ou liquidificadores.

Eles também vendem carnês sobre carnês, carregados de juros sobre juros, turbinados por custos financeiros sobre custos.

Mercadorias já pertecem a um banco

Na prática, todas as mercadorias nas grandes lojas já pertencem a um grande banco — mas alguém deve achar que “Casas Bradesco” ou “Ponto Itaú” não soam bem.
Esse banco fica sócio ou parceiro de uma rede exatamente para faturar junto aos clientes do varejo. Em algum momento, o banco já pagou ou pagará à varejista por todos os produtos — nesse caso, sim, à vista, com desconto.

A partir daí, cabe às lojas revenderem os produtos a prazo, no carnê, a favor dos bancos. Nas revendas, são agregados altos juros, custos, encargos e, consequentemente, altas rentabilidades. Esse ciclo malicioso, é claro, não existiria se os vendedores aceitassem sempre o pagamento à vista com desconto.

E se não funcionar, você já sabe porquê

Essa é a "praxe do mercado", a reengenharia operacional e financeira predominante. Não tem nada de errado nisso, senão a desinformação de um lado do balcão. A quem me pergunta se é possível fugir dessa armadilha, minha resposta é "talvez". Mas, como eu também já disse, será necessário bater muita perna e gastar muita saliva. Não custa tentar, chorar, regatear, pechinchar, barganhar... Agora, se não funcionar, pelo menos você já sabe o porquê.

Alex Campos é comentarista do Painel Econômico da Rádio JBFM (99,9)