Alex Campos: Crédito é uma coisa, o resto é dívida

Cartão é uma arma que estimula o cliente a atirar primeiro e só pensar nas consequências depois

Por O Dia

Rio - Crédito é o empréstimo que você consegue pagar. Dívida é o empréstimo que você não consegue pagar. Ou seja: crédito é uma coisa... o resto e dívida! Essa é uma pequena diferença semântica que pode fazer uma grande diferença financeira. Por isso, em alguns casos, não pergunte o que você quer da vida, pergunte se você pode pagar.

Excessos, encargos, abusos

Pesquisas estão sempre mostrando que as famílias brasileiras usam e abusam do crédito que vira dívida. Periodicamente, números de federações ou confederações do comércio e de entidades privadas de gestão financeira apontam que pelo menos metade dessas pessoas está endividada — e esse endividamento é correspondente à metade da renda familiar.

Há situações de inadimplência prolongada e persistente e há casos de calote mesmo, quando o devedor não tem mais como quitar. A maioria absoluta (entre 60% e 70%) está pendurada no cartão de crédito, justamente o pior dos recursos para quem precisa de socorro ou coisa parecida. Isso porque, no cartão, os juros são eternos campeões de excessos, encargos e abusos. O cartão é uma arma que estimula o cliente a atirar primeiro e só pensar nas consequências depois.

Por isso vale lembrar, repetir e insistir que existe, sim, dinheiro mais barato e menos perigoso. É possível encontrá-lo no penhor, no consignado ou no microcrédito. Pelo menos nesses três casos, as dívidas são pagáveis porque as taxas de juros são razoáveis. Transações comerciais ou financeiras, quando necessárias, podem ser bem-vindas e, quando bem-vindas, devem ser pagáveis, razoáveis, renováveis e renegociáveis. Essas não são boas dicas porque são novidades; essas são boas dicas porque são a coisa certa a fazer... sempre.

E aqui cabe uma boa e velha oração ou um bom e velho mantra a ser repetido toda manhã, ou toda a noite, ou toda a manhã e toda a noite: "Dívida não é dádiva da vida. Dádiva é vida sem dívida. Não duvide disso. Divida isso".

Adoram novelas, odeiam matemática

Se gostassem de fazer contas como gostam de ver novelas, brasileiros perderiam menos tempo e ganhariam mais dinheiro. O problema é que eles adoram novela e crediário, mas odeiam matemática. Milhões não se incomodam de levar meses para saber se vai ter beijo gay ou como vai acabar a mais cruel das vilãs dos folhetins, e também não se incomodam de levar um ano ou mais presas a contratos de crédito ou confissões de dívida.

Se a mesma rotina, paciência ou disciplina para torcer toda noite pelo casalzinho das 9 fosse aplicada para "juntar" dinheiro, haveria mais lares com finais e finanças felizes para sempre.

O drama ou a trama de R$ 300 bilhões

Parece não assombrar ninguém o drama ou a trama em que brasileiros pagam por ano R$ 300 bilhões somente em juros, de acordo com relatórios do Banco Central. O problema é entrar no financiamento primeiro para ver como pagar depois. Quem sonha com um carro de R$ 40 mil, por exemplo, pode esperar três anos e pagar à vista, sem financiamento. Ou pode assinar logo um contrato e passar três anos pagando quase o valor de dois carros (essa é a opção mais comum).

A favor do cliente, contra o cliente

No primeiro caso, o cliente vai precisar investir em um fundo de renda fixa R$ 1 mil por mês, com rendimento de 0,8% ao mês. Após três anos, lá estarão mais de R$ 40 mil — ou seja: 36 depósitos de R$ 1 mil, totalizando R$ 36 mil, mais uns R$ 6 mil de juros (a favor do cliente).

No segundo caso, o cliente decide financiar o carro, dando R$ 20 mil de entrada e ainda pagando mais de R$ 1 mil por mês, com juros compostos de 2% ao mês. No fim das contas e dos mesmos três anos, ele verá que gastou mais de R$ 70 mil — ou seja: R$ 20 mil de entrada, mais R$ 52 mil referentes a parcelas crescentes de juros sobre juros (agora contra o cliente).

O que a novela e o crediário não ensinam é que, primeiro, é preciso poupar e, somente depois, partir para o consumo. Assim como, primeiro, é preciso cuidar da saúde para, somente depois, queimar energia.

Bom domingo e boa sorte!

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