Por gabriela.mattos
Rio - Eram 3h da madrugada de domingo quando Marcelo Ramos foi acordado pelo toque da campainha de casa, na favela Nova Brasília, no Complexo do Alemão. Era um taxista, que queria comprar uma garrafa de cerveja artesanal para oferecer a um gringo. O episódio ilustra o sucesso alcançado pela primeira bebida do tipo produzida numa comunidade no Brasil. Entre 22 e 25 de outubro, Marcelo representou o país num encontro sul-americano de empreendedorismo, em Bogotá, Colômbia, levando a história da iniciativa para toda a América Latina.

Lá, Marcelo relembrou seus primeiros passos. A ideia surgiu quando ele experimentou uma cerveja especial pela primeira vez, quando ainda trabalhava como técnico de telecomunicações, no Centro do Rio. Há cinco anos, a chegada do teleférico ao Complexo do Alemão em meio ao inédito processo de pacificação traçava um cenário favorável a novos empreendimentos voltados ao turismo, estimulados pela presença de turistas na comunidade.

Segredo do sucesso%3A Marcelo%2C à direita%2C construiu bistrô na garagem do sogro. Bolinhos são receita da sogra e da mãe. Mulher é o braço direito nos negóciosDivulgação

Foi quando Marcelo decidiu usar uma garagem de 40 metros quadrados, no primeiro piso do sobrado onde o sogro mora, para abrir um bistrô especializado em cervejas artesanais. Para isso, criou uma identidade visual no entorno, com jardim e boa iluminação na rua, que costumava ficar escura quando anoitecia. Assim surgiu o bistrô Estação R&R. “Meus amigos diziam que eu era louco e que pobre só bebia litrão”, lembra.

Com financiamentos de R$ 23 mil firmados pela Agência estadual de Fomento (AgeRio), do governo estadual, passou a vender mais de 200 rótulos de cerveja numa rua paralela à Avenida Itaoca, na Nova Brasília. Como o negócio era pequeno, colocou a própria família para trabalhar, acrescentando um tempero caseiro às receitas. A mãe e a sogra de Marcelo bolaram um cardápio que incluía bolinhos de feijoada, berinjela com queijo, costela e camarão com queijo e abóbora. O bistrô também vende camisas com o desenho da favela, copos e lembranças. Mas a principal atração da casa, que tem até música ao vivo, é a cerveja artesanal do Alemão. “Pra crescer, é preciso fazer parcerias com outros empreendedores. Mas se não fosse a família, nada disso seria possível. ”, aregumenta Marcelo.
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A marca é do tipo cigana, já que não possui fábrica própria. Uma microcervejaria de Curicica, em Jacarepaguá, produz até 2 mil litros por mês com o rótulo do Complexo do Alemão da Lager, tipo de cerveja fermentada e armazenada em baixas temperaturas. Neste ano, passou a fabricar a ‘Complexo do Alemão-Nova Brasília Weiss’, uma cerveja de trigo mais gourmetizada, com aroma de canela e banana. Até 2018, a ideia é criar cervejas do tipo IPA, APA, Black e Pilsen, com nomes de outras comunidades do Complexo do Alemão. Em meio ao aumento da criminalidade no Rio, o processo de pacificação nas favelas não teve o efeito esperado. Mas isso não foi o suficiente para impedir o sucesso da cerveja artesanal do Alemão. Mesmo com a crise econômica no país e sem os gringos. Hoje, quem consome a cerveja é o próprio morador do Alemão.
Mas o empreendimento não ficou apenas na comunidade. Há um ano, foi aberta uma filial no Shopping Carioca. E, no próximo sábado, vai ser inaugurada a primeira franquia, no Bangu Shopping. A cerveja também é presença constante em feiras de gastronomia artesanal. No último domingo, por exemplo, chopes foram vendidos numa kombi, num evento em frente ao Museu do Amanhã, na Praça Mauá. O próximo passo é fazer com que a cerveja chegue às colônias brasileiras espalhadas pelo mundo. A ideia é levar a bebida para Orlando, nos Estados Unidos, onde moram mais de 30 mil brasileiros.
A cerveja, criada para atrair turistas, já chegou ao asfalto e agora quer conquistar o mundo.