Por thiago.antunes

Rio - Um pesadelo. √Č assim que servidores do estado classificam a forma como est√£o vivendo em meio a atrasos e parcelamentos de sal√°rios desde o ano passado. Ontem, 207 mil ativos, inativos e pensionistas receberam apenas R$ 700 referentes a abril. E n√£o h√° ainda previs√£o de quando os vencimentos ser√£o quitados e nem sobre o pagamento de maio.

A solu√ß√£o, segundo o governo, √© o Plano de Recupera√ß√£o Fiscal, que suspender√° o pagamento de d√≠vidas do Rio com a Uni√£o por tr√™s anos. Mas enquanto o acordo n√£o fecha, a ang√ļstia do funcionalismo s√≥ aumenta.

H√° sete anos no estado, a t√©cnica em Enfermagem da Policl√≠nica Piquet Carneiro, Daniela Dias, 39 anos, fez concurso p√ļblico em busca de estabilidade. Casada e m√£e de Ana Beatriz, 6 anos, e Rafael, 8, hoje, a servidora sofre a cada m√™s com a imprevisibilidade do pagamento do sal√°rio: ela sustenta os filhos.

Daniela fez concurso para o Estado do Rio para ter estabilidade e garantir equil√≠brio financeiro para a sua fam√≠lia%3B hoje%2C ela lamenta pen√ļriaDaniel Castelo Branco / Ag√™ncia O Dia

‚ÄúCheguei a me mudar para perto do trabalho e a sair de uma cl√≠nica particular para ser exclusiva do estado. Hoje, vivo sem saber de onde vou tirar tirar dinheiro. Busco a m√≠nima dignidade de poder pagar o sustento dos meus filhos‚ÄĚ, declarou a servidora, ao lado do pai, o aposentado Geraldo Dias, 76.

‚ÄúTamb√©m trabalho em uma unidade federal de sa√ļde. √Č o que est√° amenizando a minha situa√ß√£o e da minha fam√≠lia‚ÄĚ, completou.  Tamb√©m v√≠tima da crise do estado, o professor de Qu√≠mica da Faetec, Paulo Coelho, 65, lamenta: ‚ÄúTenho mais de 35 anos de magist√©rio trabalhando de sol a sol. Busquei o m√°ximo de conhecimento profissional e, na Faetec, desenvolvo um trabalho s√©rio aos trancos e barrancos. Quando a gente pensa que vai ter o sal√°rio, que j√° est√° atrasado, recebo R$ 700 do que tenho direito‚ÄĚ.

'N√£o tem uma luz no fim do t√ļnel. N√£o vejo sa√≠da para esse problema. Estudei%2C tenho mestrado%2C e estou perdido', Paulo Roberto Coelho, 65 anos, presidente da FaetecDaniel Castelo Branco / Ag√™ncia O Dia

Ele tamb√©m √© qu√≠mico da Vigil√Ęncia Sanit√°ria do estado e diz que sobrevive com a aux√≠lio da fam√≠lia: ‚ÄúMeus irm√£os ajudam com o essencial. Outro dia eu n√£o tinha dinheiro para o leite da minha filha... Tive que cancelar meu plano de sa√ļde e vou ter que arcar com multa. N√£o vejo uma luz no fim do t√ļnel. N√£o h√° uma sa√≠da para esse problema‚ÄĚ.

A professora aposentada Ieda Ribeiro, 72, precisa arcar com os custos dos medicamentos que toma diariamente. Ela tem uma neta adotiva e foi obrigada a tir√°-la da escola particular desde que a crise do estado estourou.

‚ÄúColoquei ela numa escola p√ļblica de refer√™ncia, mas n√£o √© perto de casa. O pouco dinheiro que entra uso para pagar a condu√ß√£o escolar dela, meus rem√©dios e os do meu marido‚ÄĚ, contou Ieda, acrescentando que a aposentadoria do INSS do marido Francisco cobre apenas algumas despesas, mas n√£o √© suficiente.

Paix√£o e √ļnica fonte de renda

A farmac√™utica industrial da Secretaria de Sa√ļde, Rog√©ria Carvalho, 47, est√° no estado desde 2004, e tem neste trabalho sua √ļnica fonte de renda. ‚ÄúFiz concurso com muito amor para a Vigil√Ęncia Sanit√°ria. Sempre fui apaixonada pelo meu trabalho, e ainda sou. Tenho um filho de 11 anos na escola particular e eu que pago todos os gastos relacionados a ele‚ÄĚ, relatou ela, que acrescentou:  ‚Äú√Č um desespero para fechar as contas a cada m√™s. N√£o consigo entender como o estado chegou a essa ponto e que n√£o h√° arrecada√ß√£o suficiente para poder pagar o funcionalismo. Est√£o maltratando muito o servidor estadual‚ÄĚ, criticou a farmac√™utica.

Inspetor da Escola T√©cnica Estadual Jo√£o Luiz do Nascimento, da Faetec, Marcos Gomes, 59, precisa contar com o aux√≠lio de sua m√£e para quitar pagamentos e custos com a sa√ļde de um dos seus filhos.

‚ÄúEle demanda mais cuidados, pois sofre de s√≠ndrome de patau (doen√ßa gen√©tica que afeta o sistema nervoso, entre outros sintomas) e todo m√™s preciso comprar medica√ß√£o para ele. Semana passada tive que gastar s√≥ R$ 400 de comprimidos. N√£o tenho conseguido arcar com os gastos‚ÄĚ, queixou-se.

'Nunca passei por uma situação dessa. Sempre fui a cabeça da família e%2C hoje%2C conto com ajuda para pagar contas'%2C Ieda Ribeiro%2C professora aposentada do EstadoDaniel Castelo Branco / Agência O Dia

Em nota, a Secretaria Estadual de Fazenda informou que, logo ap√≥s a publica√ß√£o da san√ß√£o do Regime de Recupera√ß√£o Fiscal, no Di√°rio Oficial da Uni√£o, em 22 de maio, ‚Äúo governo do Estado do Rio iniciou imediatamente as conversas com o governo federal para a homologa√ß√£o do plano estadual‚ÄĚ.

A pasta completou alegando que ‚Äúa expectativa √© que essas conversas evoluam satisfatoriamente, visando √† estabilidade financeira do Estado, assim como a regulariza√ß√£o dos sal√°rios dos servidores p√ļblicos estaduais o mais rapidamente poss√≠vel‚ÄĚ.

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