Declaração de Temer no G20 contrasta com indicadores e recebe críticas

A voz das ruas também mostra desacordo com a afirmação de Temer ao minimizar o atual momento

Por O Dia

Rio - Desemprego em alta, baixo nível de investimentos, deflação de 0,23% em junho pelo IPCA — que não representa necessariamente boa notícia —, lojas fechadas, menos brasileiros com acesso a crédito e economia em compasso de espera por conta das incertezas sobre o rumo político do país. Esse é o Brasil “sem crise” que o presidente Michel Temer anunciou ontem ao desembarcar na Alemanha para a reunião do G20.

Na Praça Tiradentes%2C no Centro%2C várias lojas foram fechadas%2C o que mostra enfraquecimento no comércioMárcio Mercante

“Crise econômica no Brasil não existe. Vocês têm visto os últimos dados”, disse aos jornalistas.

Como se não bastasse a declaração, Temer comentou uma nova gafe. Em um vídeo na sua conta oficial no Twitter, disse que seu governo está “fazendo voltar o desemprego” no país. A frase foi dita quando o presidente falava sobre sua mensagem no encontro na Alemanha.

A visão do presidente sobre a crise não é compartilhada por economistas. “A redução do número de desempregados de 14,2 milhões para 13,2 milhões, queda de juros e a inflação sob controle, por exemplo, mostram melhora nos indicadores, mas não é possível afirmar que não existe crise. É muito cedo para isso”, rebate o economista e especialista em Finanças, Alexandre Prado.

A comerciante Marina Pereira afirma que a crise econômica afetou seu estabelecimento Marcio Mercante / AG. ODIA

Nem mesmo a deflação do mês passado comemorada ontem pelo ministro da Fazenda, Henrique Meirelles é sinal de que não há crise. “A deflação, que significa queda de preço, não ocorre pela eficiência do funcionamento da economia, mas pela severidade da crise que o país atravessa”, alerta Gilberto Braga, economista do Ibmec e da Fundação D. Cabral.

Até mesmo a coordenadora de índices de preços do IBGE, Eulina Nunes — responsável pela pesquisa que mostra variação negativa dos preços de 0,23% no IPCA — credita o resultado ao momento conturbado que o país atravessa e a queda no consumo. “O país vive situação de redução acelerada da inflação em função, principalmente, da crise econômica e do desemprego, que desestimulam o consumo”, diz Eulina.

“A queda de preços verificada pela deflação não quer dizer que as pessoas melhoraram de vida. Depende do aumento do poder aquisitivo. E a média da população vem sofrendo muitas perdas nos últimos dois anos”, diz Braga.

A voz das ruas também mostra desacordo com a afirmação de Temer ao minimizar o atual momento.

Já a socióloga Graça Almeida reclama da alta dos preços dos produtos no mercado. E o presidente diz que não há crise Daniel Castelo Branco / Agência O Dia

“Enfrentamos uma grave crise econômica e não vejo essa baixa da inflação em praticamente nada. Ao contrário do que o presidente Temer falou no G20, estamos sim encarando uma grande crise por aqui. Os preços continuam subindo em produtos nos supermercados, conta de luz, gás e em serviços, como, de televisão, que aumentou nos últimos meses. Tudo só aumenta e pagamos cada vez mais caro”, critica Graça Almeida, 60 anos, socióloga e moradora de Santa Teresa.  

Comércio fecha quase 10 mil lojas

Ao contrário do que Temer tenta passar lá fora, a crise tem impacto negativo em setores da economia, como o comércio. Segundo pesquisa da Confederação Nacional do Comércio (CNC), só no primeiro trimestre do ano foram fechadas 9.965 lojas no país.

A conjuntura econômica tem preocupado Marina Pereira, 34, sócia da cafeteria Fazenda Paradiso Café, na Lapa, onde também muitos empreendimentos fecharam. “A declaração do Temer não foi condizente com a realidade. Eu que tenho comércio sinto isso com a perda de clientes”, relata. E desafia: “Acho que o presidente deveria sair pelo país para ver a realidade de perto.”

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