Temer diz que população entenderá impostos sobre combustíveis. Será que vai?

Economistas e o sindicato dos postos do Rio alertam que essa alta provocará impacto negativo na economia

Por O Dia

Rio -  Menos de 24h após o governo Temer dobrar a alíquota do PIS/Cofins, impostos que incidem sobre a gasolina, e elevar em 86% a do diesel, a Petrobras anunciou para hoje outro aumento de preço da gasolina nas refinarias em 1,4% e do diesel em 0,2%. Com a elevação do imposto, o motorista desembolsará mais para encher o tanque e as perspectivas são de aumento de preços de produtos em vários setores da economia. Mas, na contramão do que pensam especialistas, o presidente Temer afirmou ao chegar em Mendoza, na Argentina, que “a população entenderá o aumento de impostos”. Mas será que vai mesmo? 

O motorista Marcio Souza, 52 anos, trabalha há sete meses como Uber. Ele disse que já esperava que o governo faria a população pagar a conta do déficit público. E que gastará mais com o aumento de preço dos combustíveis. “A minha despesa só aumenta. Vou ter que cortar o lazer com meus filhos, nas compras e mudar a refeição diária na minha casa. Além de ter que trabalhar por 15 horas por dia para compensar”, diz.

Márcio Souza%2C motorista de Uber%3A ‘Terei que trabalhar 15 horas por dia para compensar o aumento’Severino Silva / Agência O Dia

Opinião similar tem o comerciante José Carlos Gouvêa, 56, morador de Niterói. “Quando temos contas altas em casa, diminuímos os custos; porém, tanto o governo federal quanto o estadual, ao invés de arcar com seus gastos, transferem para nós”, critica. “Vou restringir o pouco que tenho para bancar esses aumentos”, lamenta.

E não são só as ruas que discordam de Temer, economistas e o sindicato dos postos do Rio alertam que essa alta provocará impacto negativo na economia. “Quem usa 10 litros de gasolina por dia gastará R$ 123 a mais por mês", ressalta o presidente da Associação Brasileira de Educadores Financeiros (Abefin), Reinaldo Domingos.

Fechamento de postos

Já a presidente do Sindicato do Comércio Varejista de Combustíveis do Rio (Sindcomb), Maria Aparecida Schneider, alerta para o risco de fechamento de postos pequenos que não terão como se manter com a alta de impostos. Ela explica que para cada 100 mil litros de combustível vendido, o dono do posto terá que pagar R$ 0,41 a mais por litro devido o aumento. E logo de cara terá que desembolsar R$ 41 mil de diferença.

“Colocar gasolina brasileira no preço da Europa em um país que passa por uma crise sem precedentes, especialmente o Rio que está com queda de 25% nas vendas, é um absurdo”, diz.

Para o economista do Ibmec e da Fundação D. Cabral, Gilberto Braga, o governo aproveitou a folga na inflação — que no mês passado apresentou deflação de 0,23% no IPCA — para promover o aumento. Mas, alerta, “haverá aumento no preço do frete e, consequentemente, de vários nos produtos”.

Até o procurador da República, coordenador da força-tarefa da Operação Lava Jato, Deltan Dallagnol, criticou Temer. “É claro que os brasileiros vão compreender o aumento de impostos, já que desviam R$ 200 bilhões por ano praticando corrupção”, alegou.

Quem paga essa conta?

O pato amarelo da Fiesp, que andava sumido desde o processo de impeachment contra a ex-presidente Dilma Rousseff, voltou à cena ontem. A federação usou o boneco de cinco metros para protestar contra os aumentos de impostos do governo Temer, que imagina que a população entenderá a elevação.

No entanto, será difícil isso ocorrer, tendo em vista que, segundo o “Impostômetro” da Associação Comercial de SP, os brasileiros já pagaram neste ano cerca de R$ 1,2 trilhão em impostos até 10h30 de ontem.

A marca atingida equivale ao montante pago em impostos, taxas e contribuições desde o primeiro dia do ano. O dinheiro é destinado à União, estados e municípios.

Para o engenheiro da Petrobras, Marcos Scofano, 56, “o presidente está fora da realidade” ao dizer que a população entenderia o aumento. “Ele tem que reduzir os altos impostos que pagamos e não são revertidos em Educação e Saúde. A população nunca vai entender essa covardia”, critica o engenheiro.

Colaborou o estagiário Matheus Ambrósio, sob supervisão de Martha Imenes

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