Em tempos de crise, jovens ajudam a aumentar a produtividade das empresas

Antes vistos como mão de obra barata e sem conhecimento técnico, estudantes contribuem cada vez mais para o crescimento das instituições

Por O Dia

Rio - O ano de 2016 não foi fácil para o mercado de trabalho brasileiro. Com as empresas sentindo os efeitos da crise econômica, o setor privado viu a capacidade de investimento minguar e as demissões acabaram virando um meio de reduzir os custos. Por outro lado, algumas companhias seguiram na contramão da crise e conseguiram se manter produtivas mesmo com o cenário financeiro pouco favorável. A Fundação MUDES, por exemplo, instituição sem fins lucrativos que atua na promoção e inserção dos jovens no mercado de trabalho, capacitou e colocou só no mercado do Rio de Janeiro mais de quatro mil profissionais em 2016. Desse total, mais de 89% dos contratos são de estágio e mais 10% correspondem a contratações de jovens aprendizes.

Em tempos de crise%2C jovens ajudam a aumentar a produtividade das empresasDivulgação

De janeiro a setembro de 2016, segundo pesquisa da Fundação MUDES, foram contratados 360 jovens do programa Jovem Aprendiz no Rio de Janeiro. No mesmo período de 2017, foram inseridos no mercado de trabalho 559 jovens, uma evolução de 55%.

Um bom exemplo é a DIME Distribuidora. A empresa administra um Centro de Distribuição com mais de 10 mil produtos, além de trabalhar diariamente para realizar entregas em, no máximo, 24 horas. Por esse motivo, a empresa precisa de profissionais habilitados, capazes de suportar a demanda de um serviço acelerado. E para auxiliar os funcionários mais experientes nesse trabalho, a empresa conta com dez jovens aprendizes, com idades entre 16 e 21 anos, para oxigenar e facilitar o controle do sistema comercial da empresa. Encontrar estudantes capazes de atender a essas expectativas era uma prerrogativa que a direção da distribuidora exigia e, por isso, foi realizado um minucioso processo de seleção em parceria.

"Muitas pessoas pensam que os aprendizes servem apenas para fazer o trabalho que ninguém quer fazer. Não enxergamos dessa maneira. Buscamos jovens que tenham valores alinhados com os nossos. Que se adaptam com facilidade e, principalmente, que tenham interesse em aprender mais e mais a cada dia. Aqui na empresa, todos são treinados e motivados sem qualquer distinção. A noção de que estamos no caminho certo é a quantidade de aprendizes que, ao fim do período do contrato de aprendizagem, são efetivados. Isso é motivo de orgulho para nossa empresa, pois sabemos que estamos no caminho certo. E mesmo quando não são efetivados, sabemos que contribuímos para a formação profissional e pessoal de uma pessoa, que sairá daqui com uma excelente base", diz Adriana Ibiapina, gestora do departamento pessoal da DIME Distribuidora.

Moradora da Curicica, Zona Oeste do Rio, Letícia Reis, de 20 anos, participou de vários processos seletivos até conseguir, em janeiro de 2016, ingressar na empresa onde está até hoje. Ela é uma Jovem Aprendiz e trabalha como auxiliar administrativa na Confederação Brasileira de Futebol (CBF).

"Acredito que Jovem Aprendiz seja um dos cargos mais importantes da empresa. Nós somos a base. Estamos aqui para aprender a conduzir nossa vida profissional. O comprometimento da empresa junto ao programa, com o Aprendiz é essencial. A importância de um Jovem Aprendiz é dada devido à disposição para descobrir. Trabalho sempre disposta a descobrir novos departamentos, soluções, modelos de trabalho, novas funções e o mais importante de tudo, estou disposta a adquirir cada vez mais conhecimento", destaca Letícia.

Outra empresa que valoriza o trabalho do Jovem Aprendiz é a SuperVia. Para a gerente de Relações Trabalhistas da concessionária, Érica Frazão, a empresa vem realizando um investimento histórico na revitalização do trem do Rio de Janeiro. Com isso, estimula o mercado de trabalho e oferece oportunidades aos profissionais que desejam crescer junto com a empresa.

"O Programa de Jovem Aprendiz está incluído nesse cenário. O atendimento e o respeito ao passageiro são prioridades da empresa, e nossos jovens representam um canal decomunicação que cria essa proximidade. No trabalho diário, eles orientam os passageiros e tiram dúvidas referentes à circulação dos trens e funcionamento do sistema ferroviário, auxiliam pessoas com deficiência, apoiam pesquisas de satisfação com o cliente, entre outras atividades. Ou seja, esses jovens são a humanização da empresa SuperVia, grandes responsáveis pela boa experiência que a empresa se propõe a oferecer ao público".

Comportamento antiquado atrapalha

Infelizmente, o mercado brasileiro parece ter dificuldades de enxergar esses benefícios e ainda alimenta uma percepção estereotipada das chamadas gerações Y e Z. Pesquisas mostram que essa visão atrasada, aliada a problemas crônicos de gestão e burocracia, atrapalha o país. Enquanto nos Estados Unidos os jovens são a principal força de trabalho, no Brasil os jovens dessa faixa de idade sofrem com o desemprego beirando a casa dos 20%, segundo dados da Pnad. Já o Relatório Global de Competitividade do Fórum Econômico Mundial coloca os norte-americanos em 3° lugar no ranking. Os brasileiros amargam a 75° posição, despencando 18 lugares em relação ao alcançado em 2014. Não é coincidência que a diferença deprodutividade entre os dois países seja tão discrepante.

A gerente de inserção profissional do MUDES, Sueli Fernandes, aponta que em muitas empresas os jovens profissionais ainda são vistos como mão de obra barata e não como potenciais profissionais que podem contribuir e alcançar resultados significativos para o negócio.

"Quando essa relação profissional é feita de forma coordenada, as empresas
potencializam a capacidade produtiva dos jovens. O aproveitamento do estágio, por exemplo, está intimamente ligado a uma boa orientação do professor responsável e a uma atuação eficaz do supervisor na empresa, além do interesse e participação do estagiário", explica Sueli.

Benefícios para a gestão

A especialista indica que os jovens profissionais também valorizam a imagem
institucional da empresa. Na opinião de Sueli, os consumidores tendem a optar por produtos e serviços socialmente responsáveis e os programas de estágio têm um caráter socioeducativo que atende a essa visão.

"Outro ganho significativo é a oxigenação do quadro de funcionários. Os treinamentos voltados para os estagiários permitem que eles cresçam profissionalmente e possam assumir funções mais estratégicas no futuro. Mas, para que isso se torne realidade, é necessário promover uma gestão organizada. Esse trabalho evitará altos custos com consultorias de recrutamento e seleção para a contratação de novos funcionários", argumenta.

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