Por adriano.araujo

Rio - A 21 dias do primeiro turno das eleições, as pesquisas eleitorais cristalizaram a liderança do ex-governador e deputado Anthony Garotinho (PR), que está empatado com governador do Rio e candidato à reeleição, Luiz Fernando Pezão (PMDB), na corrida pelo Palácio Guanabara. As especulações do momento, portanto, já começam a ter como foco o destino dos apoios de Marcelo Crivella (PRB) e Lindberg Farias (PT) no segundo turno. Deles e de seus eleitores. Afinal, a única certeza entre todos é de que não haverá, em qualquer caso, transferência total dos votos.

No PT, por exemplo, é provável que o partido se divida em três: uma parte votaria em Garotinho, outra em Pezão e uma terceira, em nenhum dos dois, independentemente do caminho seguido por Lindberg. A divisão petista favorecerá, assim, o candidato que terminar o primeiro turno mais bem colocado nas urnas.

Em relação a Crivella e seus eleitores, a questão é diferente. A postura contemporizadora do candidato aponta uma aproximação com Pezão num segundo turno, mas a religião pode fazer com que boa parte de seu eleitorado siga com Anthony Garotinho.

Começa a disputa para saber quem vai herdar os votos de Crivella e LindbergArte O Dia

Para o cientista político Ricardo Ismael, da PUC-RJ, ainda é cedo para fazer qualquer tipo de conclusão, inclusive pelo caráter imprevisível destas eleições.

“Acho que a única coisa que está garantida, de acordo com a evolução das pesquisas, é a presença do Garotinho no segundo turno. Acho que isso está quase que consolidado. O Pezão ultrapassou o Crivella, mas convive sempre com o ônus e o bônus de estar no poder. Não descartaria uma migração de voto útil no fim para alguma outra candidatura”, aponta Ismael.

O especialista acredita, no entanto, que, num eventual segundo turno entre Anthony Garotinho e Luiz Fernando Pezão, a tendência é a reeleição do governador. Ismael acredita que haverá uma união para “demonizar” Garotinho.

“É o que se pode imaginar, sobretudo na capital, batendo na tecla de que ele vai acabar com a UPP. A estratégia será demonizá-lo, explorando sua rejeição e criando um onda contra ele”, explica o cientista político.

A estratégia, no entanto, é perigosa e pode se tornar um tiro no pé de Pezão. Avesso ao estilo bateu-levou, no primeiro turno o governador tem a seu favor o maior tempo de propaganda na TV. No segundo turno, este tempo será dividido igualmente entre os candidatos, o que pode ser um ponto a favor de Garotinho.
“São questões muito complicadas. O Garotinho aproveita muito bem o discurso e a propaganda gratuita. Apesar de a propaganda do Pezão estar muito boa, o Garotinho, com mais tempo, pode mudar o jogo”, avalia.

Pezão prefere Garotinho

A possibilidade de um segundo turno contra Anthony Garotinho foi, desde sempre, a aposta dos coordenadores da campanha de Luiz Fernando Pezão. Na cúpula do PMDB, nunca houve sequer um plano B para a possibilidade de Pezão não ir para o segundo turno, ou mesmo ter de enfrentar Marcelo Crivella ou Lindberg Farias.

Para Ricardo Ismael, mais do que estratégia, foi a consciência de que a grande chance de Pezão está justamente num duelo contra o ex-governador. Uma eleição direta contra novidades como Crivella ou Lindberg seria um risco alto demais para o peemedebista.

“A chance do Pezão é justamente um segundo turno contra Garotinho. Acho que ele perderia contra o Crivella ou Lindberg”, avaliou Ricardo Ismael.

??Petista espera por Lula para tentar último suspiro*

Quando Luiz Inácio Lula da Silva (PT) entra em cena na propaganda de TV de um candidato, aumentam as intenções de votos, dizem analistas. Não à toa, num curto espaço de tempo, o ex-presidente gravou dezenas de inserções para postulantes a governador. Em alguns vídeos, a blusa social azul e o cenário são os mesmos, o que reforça a tese de que as peças foram gravadas no mesmo dia. Só que, no Rio, o candidato Lindberg Farias ainda não conseguiu tirar o esperado proveito do correligionário e decolar nas pesquisas.

Na TV%2C Lula ressalta trajetória de candidatos e até interage com alguns. Discurso para Lindberg é breve Divulgação

O fato de Lula pouco falar do senador petista na TV é apontado como um dificultador. Enquanto o candidato do Mato Grosso, Lúdio Cabral, tem a trajetória lembrada e o nome citado por Lula três vezes, na propaganda de Lindberg o ex-presidente se empenha em enumerar os motivos pelos quais “o Brasil está melhor do que há 12 anos” e, somente nos três últimos segundos da inserção, após um corte de câmera, conclui: “Por isso, peço seu voto em Lindberg Farias.” Lindberg e Lula não interagem no vídeo.

Se comparada às propagandas dos candidatos aos governos de Minas Gerais e São Paulo, a situação fica ainda mais discrepante. Na de Fernando Pimentel, que lidera a disputa em Minas, o candidato e Lula aparecem conversando por cinco vezes. Já Alexandre Padilha é lembrado por Lula pelos serviços prestados no governo federal, como quando foi ministro da Saúde.

“A estratégia da campanha do PT à Presidência não tem ajudado Lindberg. Dilma é apoiada por quatro candidatos ao governo do Rio e, por isso, Lula, mesmo sendo próximo de Lindberg, não pode criticar duramente Luiz Fernando Pezão (PMDB), Marcelo Crivella (PRB) e Anthony Garotinho (PR)”, explicou o cientista político Ricardo Ismael, da PUC-Rio. “Para que Lindberg tenha chance de ir ao segundo turno, teria que associar mais a imagem dele à de Lula, para tirar votos desses três candidatos”, completou, lembrando que em Minas e São Paulo o PT enfrenta os arquiadversários tucanos.

Depois de mais de dois meses de espera, Lindberg contará amanhã com Lula em seu palanque. O petista terá, no entanto, de ‘dividir’ o ex-presidente com seus rivais Garotinho e Crivella no ato em defesa do pré-sal e dos royalties do petróleo.


?*Reportagem de Paulo Cappelli

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