Por bferreira

Rio - A sete dias das eleições, época em que grande parte da população finalmente começa a prestar atenção no assunto, é chegada a hora de os candidatos transmitirem ao eleitor a mensagem final sobre o que sua candidatura representa: Dilma Rousseff (PT) prega a defesa de um legado de 12 anos do governo do PT, com ênfase em políticas sociais e geração de empregos. Aécio Neves (PSDB) se diz o representante de uma transição “segura”, com lastro na experiência de gestão do PSDB. Marina Silva (PSB) levanta a bandeira de uma nova forma de se fazer política, sem se entregar ao ‘toma lá da cá’ da política de coalização.

“Dilma tem feitos como o Bolsa Família, a Copa. Ela conta com a fórmula ‘bolso cheio e barriga satisfeita’. O Aécio representa um voto crítico, mas também um voto mais de continuidade”, avalia o professor de comunicação política da USP, Gaudêncio Torquato. “A Marina representa compromisso com a novidade e consegue passar muita sinceridade”, resume o consultor político.

Nos dias finais da campanha, os candidatos se concentrarão esssencialmente na Região Sudeste. Com 62 milhões de eleitores, ela representa 43,44% do eleitorado brasileiro. Os três virão pelo menos uma vez ao Rio para o último debate do primeiro turno, da Rede Globo, na quinta-feira.

Para Dilma, o desafio é em São Paulo, o maior colégio eleitoral do Brasil. Por lá, ela tem 25% dos votos, de acordo com a última pesquisa Ibope regionalizada para a Presidência. Até domingo, a candidata tem pelo menos mais quatro agendas no estado. Na quarta e quinta, quando irá se preparar para o debate, Lula terá agendas sozinho para captar votos para a candidata. Os dois vão encerrar a campanha juntos com uma caminhada em São Bernardo do Campo, mesmo local escolhido em 2010. A presidenta também tem agendas acertadas em Minas Gerais e no Rio. Na terça-feira, ela vai se encontrar com o prefeito Eduardo Paes em uma visita institucional às obras do Parque Olímpico. Depois vai participar de um ato de apoio com atletas.

Marina também vai se concentrar em São Paulo, onde fará a preparação para o debate. Seu último ato de campanha será na capital paulista, mas ainda não há local definido. Aécio Neves ficará centrado em São Paulo e Minas Gerais, seu estado natal. Apesar de estar praticamente empatado com Dilma em Minas, o candidato acumula outra missão por lá: ser o cabo eleitoral do candidato Pimenta da Veiga, que corre o risco de perder a eleição para Fernando Pimentel (PT), o que daria fim a 12 anos de mandato do PSDB no estado.

Um novo jeito de fazer política

O discurso de unir o melhor de cada partido dentro de um mesmo governo é visto como inviável no meio político, mas o eleitorado embarcou na proposta de Marina Silva (PSB). Virtual opositora de Dilma Rousseff (PT) no segundo turno, a ex-ministra foi resiliente ao fogo cruzado dos adversários, em especial do PT, seu ex-partido. “Ninguém esperava isso vindo de um partido que sofreu as maiores injustiças no passado”, critica o braço direito de Marina, João Paulo Capobianco. Se chegar ao segundo turno, ela irá competir em igualdade de condições na TV, mas terá que mostrar consistência em propostas e alianças. “Vamos honrar o horário eleitoral com propostas”, diz o coordenador da campanha, Walter Feldman. A trajetória sofrida de Marina também será explorada. “Ela é única. Se assemelha a grandes figuras do mundo em termos de superação”, avalia Feldman. Candidata em circunstâncias turbulentas, a ex-ministra surpreendeu até seus aliados quando despontou nas pesquisas como segunda colocada absoluta, captando a insatisfação dos movimentos de julho. Logo, começou a receber chumbo grosso dos adversários, que a pintaram como inapta para o cargo. Para os marineiros, nada mais injusto. “Ela cresceu, desde 2010. Tem um aprofundamento na questão econômica e na questão da infraestrutura e está absolutamente gabaritada”, afirma Feldman.

A defesa do legado petista

Disputar uma reeleição traz para Dilma um bônus e um ônus. De um lado, a presidenta é amparada por legado de conquistas na área social e uma baixa taxa de desemprego — o que é muito caro ao eleitor brasileiro. De outro, há um cenário econômico adverso. Com a morte de Eduardo Campos, a presidenta se desviou desse discurso para o trabalho de desconstrução de Marina Silva (PSB), uma pedra no sapato imprevista. “Existia o ícone Marina, mas ela nunca havia sido escrutinada como candidata porque não era uma opção viável em 2010. Isso foi necessário”, afirma um interlocutor do PT, afirmando que o partido agora vai focar em mostrar para os eleitores que existe uma relação direta entre a melhoria da qualidade de vida com programas como o Mais Médicos, o Pronatec e a política de cotas. O escândalo de corrupção na Petrobras, até agora, não respingou na candidata. Para um dos coordenadores da campanha petista, no segundo turno será necessário suavizar a imagem da presidenta se a comparação com Marina chegar no mano a mano. Endurecer, sem perder a ternura. É que contraposta à figura frágil de Marina, o jeitão bronco da presidenta fica mais evidente. “Ela já tem a imagem de boa gestora, competente e confiável. Falta só as pessoas olharem e sentirem que ela é sensível a seus problemas”, avalia.

A mudança conservadora

Apesar das chances parcas de Aécio Neves (PSDB), o PSDB se apoia no discurso de que o eleitor só se decide na última semana. O final da campanha trará um discurso pedagógico mostrando a capacidade de gestão do senador. “Vamos colocar didaticamente que a mudança tem que ser feita com segurança. De um lado, temos um sonho que pode virar pesadelo. Do outro, a continuidade da crise”, afirma Marcus Pestana, presidente do PSDB de Minas. Anos antes de se oficializar candidato, Aécio tinha um discurso antipetista ensaiado na ponta da língua. A partir da morte de Eduardo Campos, a estratégia veio abaixo. A defesa da mudança, bandeira tucana, passou a ser levantada por Marina. O jeito foi se esgueirar no meio termo: uma transição conservadora, sem se aventurar no desconhecido. Outra dificuldade dos tucanos foi chegar ao eleitor médio. O discurso de Aécio soou hermético quando ele falou em termos como política fiscal e credibilidade na economia. “São deficiências naturais de cada candidato, nenhum é perfeito”, resume um de seus aliados. Mas para os tucanos, o pior adversário do candidato foi a tragédia que vitimou Campos. “Não mudaria nada na campanha. Mas Maquiavel diz que o príncipe tem que ter virtude e sorte. Virtude ele tem”, diz Pestana. Já a sorte...

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