O dia do espetáculo da democracia

Maioria dos 142 milhões de eleitores é de mulher e cidadãos com menos de nove anos de estudo

Por O Dia

Rio - Chegou a hora dessa gente bronzeada mostrar seu valor... Quando o samba de Assis Valente caiu no gosto popular, em 1972, pela voz dos Novos Baianos, o Brasil estava calado pela ditadura militar. Nessas quatro décadas, muita água rolou, o país ganhou uma Constituição, elegeu seis presidentes por voto direto, se uniu em manifestações contra a ‘velha política’ que fez do Congresso um balcão de negócios, e agora está de volta às ruas, na maior festa da democracia nacional. Até às 17h, mais de 142 milhões de eleitores terão passado pelas urnas para definir quem comandará os rumos do país até o fim de 2018.

Depois de 12 anos de governo petista, os brasileiros terão pela primeira vez na história duas mulheres na corrida presidencial e três candidatos — os economistas Aécio Neves (PSDB) e Dilma Rousseff (PT), candidata à reeleição, e uma historiadora, Marina Silva (PSB) — com chances de chegar ao segundo turno, marcado para 26 de outubro. Outros oito candidatos almejam a Presidência da República.

Brasileiros terão pela primeira vez na história duas mulheres na corrida presidencial e três candidatos com chances de chegar ao segundo turnoDilma - Divulgação Marina e Aécio - Ricardo Rímoli

Com 12,1 milhões de votos — 4,8 milhões na capital — e o terceiro maior colégio eleitoral do Brasil, o Estado do Rio será o fiel da balança, que colocou de um lado 1.709 vagas e do outro, 26.169 candidatos, entre governadores, senadores, deputados estaduais e federais. De acordo com última pesquisa Datafolha, divulgada ontem, o governador Luiz Fernando Pezão (PMDB) está na frente, com 36% das intenções de voto, seguido por Anthony Garotinho (PR), com 25%. O senador Marcelo Crivella (PRB) aparece em terceiro lugar, com 22% dos votos, à frente de Lindbergh Farias (PT), com 10%. Na corrida ao Senado, a única vaga do Rio ficará com Romário (PSB), que tem 64% dos votos, contra o ex-prefeito César Maia (DEM).

Na imensa engrenagem eleitoral que move a máquina política, duas peças serão fundamentais nesta reta final da campanha. Mais da metade dos votos virá pelas mãos das mulheres e de brasileiros que têm menos de nove anos de estudo. Cidadãs como a doméstica Arlete Alves. Aos 69 anos e em seu último ano de voto obrigatório, só está certa em relação à Presidência. “Vou votar na Dilma. O resto vou decidir na hora”, revela. Como ela, os 28 milhões de indecisos, ‘órfãos’ do primeiro turno e os ‘infiéis’, que pulam a cerca eleitoral, são os alvos mais cobiçados pelos candidatos na eleição mais disputada desde a redemocratização, em 1989, quando o ex-presidente Lula perdeu a Presidência para Fernando Collor.

Especialistas ouvidos pelo DIA acreditam que, mesmo com a série de escândalos envolvendo o governo, o Congresso e a Petrobras, o brasileiro não perdeu a vontade de fazer valer a sua vontade nas urnas. “As pessoas estão mais conscientes. As manifestações ocorreram, em julho do ano passado, fora do período eleitoral, mas o debate político continuou nas redes sociais, na internet”, avalia o cientista político João Feres. De fato, é cada vez menor o número de brasileiros que pretendem anular o voto. Em 1998, quando Fernando Henrique (PSDB) também tentava a reeleição, brancos e nulos eram 18,7%. Pelos cálculos do Datafolha, os dois juntos somavam 8%.

Jovens que engrossaram os protestos país afora e acompanharam as propostas pelo Facebook e Twitter querem agora ser ouvidos nas urnas. Aos 16 anos, o estudante André Rezende é um dos 480 mil jovens que votarão pela primeira vez. “Até pensei em votar na Marina mas mudei para Luciana Genro (Psol) porque não é influenciada pela Igreja Evangélica”, diz.

Na avaliação da cientista social Silvia Ramos, o desvio de percurso nos rumos da eleição, com o acidente que matou o candidato Eduardo Campos, embaralhou a cabeça do eleitor. “Os campos não estão claros como um Fla-Flu. A escolha ficou mais difícil. Mas acredito que vamos para o segundo turno e que vai ganhar aquele que conseguir transmitir confiança e capacidade de gerir o país e levá-lo para frente”, prevê a socióloga.

O 37º presidente a subir a rampa do Palácio do Planalto, em Brasília, em 1º de janeiro, terá pela frente muitos problemas, a começar pela corrupção, mobilidade em marcha a ré, saúde na UTI, violência urbana com 56 mil assassinatos por ano, superpopulação carcerária e uma economia parada.

Em 2010, no fim do governo Lula, o dólar valia R$ 1,67, o Brasil era a 8ª economia mundial, a inflação estava em 5,91% e o Produto Interno Bruto havia crescido 7,51% — atrás da China e Índia. Até o fim do ano, o PIB crescerá menos de 1%. Por outro lado, passamos a ser a 7ª potência econômica. O dólar foi à R$ 2,44 e, apesar de programas de transferência de renda, como o Bolsa Família, somos o segundo país mais desigual do mundo. Os eleitos entrarão para a História como os primeiros a realizar uma Olimpíada, em 2016. Eles serão conhecidos até meia-noite, quando o Tribunal Superior Eleitoral anunciará o resultado.

Portanto Brasil, como dizia mestre Assis, esquentai vossos pandeiros. Iluminai os terreiros que nós (não) queremos sambar.


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