Por bianca.lobianco
Publicado 27/10/2014 01:28 | Atualizado 27/10/2014 01:49

Rio - A primeira mulher eleita ao cargo mais importante do país vai ficar mais quatro anos no poder. Mesmo se não fosse pelo gênero, Dilma Vana Rousseff, 66 anos, teria outros tantos atributos para encorpar um currículo diferenciado no hall dos presidentes do Brasil. De família de classe média alta, a ex-guerrilheira enfrentou a disputa eleitoral mais acirrada do período de abertura política.

Foto de família%3A Dilma Rousseff (atrás%2C de pé) criança com os pais%2C a brasileira Dilma e o búlgaro naturalizado brasileiro Pedro%2C e os irmãos Zana e IgorUanderson Fernandes / Agência O Dia
Sendo interrogada na sede da Auditoria Militar%2C em novembro de 1970Reprodução

Se, de um lado, o trunfo era o legado dos programas sociais deixados por Lula e um alto percentual de aprovação do governo petista, do outro, uma crise econômica, com alta da inflação, e escândalos de corrupção do Mensalão e da Petrobras colocavam em xeque a permanência do mandato dela.

Dilma reassume sabendo que está bem distante de ser a opção preferida por quase metade dos brasileiros. Com um grau considerável de reprovação no Sul e Sudeste, ela precisará de mais equilíbrio político para governar. A eleição em dois turnos desenhou um cenário para o PT que deve resultar na avaliação dos seus quadros para tentar se reinventar a tempo do pleito de 2018. Nem mesmo quem a conhece de perto, como seu ex-professor marxista Apolo Heringer, 71 anos, tinha convicção na preferência por ela nas urnas.

“Acho que o PT e a Dilma estão precisando de uma profunda transformação. Eles estão muito anacrônicos. Mas eu votei nela, porque apresentei um proposta aos dois candidatos sobre programa de revitalização de rios e bacias hidrográficas e somente Dilma se comprometeu”, afirmou Henriger, que, nos idos de 1965, era companhia da presidenta nas reuniões sobre leitura e discussão de textos de Karl Marx.

Abraçada a Lula em comício em Pernambuco%2C durante a campanhaRicardo Stuckert / Instituto Lula

A Dilma que gagueja nos debates, que corre atrás do neto no Palácio da Alvorada, que parece mais firme quando é ríspida nas respostas carrega marcas do passado que se sobressaem no seu comportamento, apesar do turbulento jogo político. É o mesmo entusiasmo do tempo de militância, garante Antonio Roberto Espinosa, ex-comandante das organizações armadas Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) e Vanguarda Armada Revolucionária Palmares (VAR-Palmares), que promoviam ações armadas contra a ditadura.

“Você percebe nela paixão. Ela é mais ideológica. O Aécio (Neves) é mais cerebral. Claro que o PT é um arremedo do que nós acreditávamos. Não é o VAR-Palmares. Não é um partido que chamamos de revolucionário. O PT cometeu muitos erros e acabou se transformando num partido igual aos demais. Mas ela tem um sentido mais profundo de compromisso com as pessoas”, afirma Espinosa, que hoje é professor de Política Internacional da Unifesp e da Escola Superior de Diplomacia.

Cronologia

1947
Filha do búlgaro naturalizado brasileiro Pedro Rousseff e de Dilma Jane Silva, nasce em Belo Horizonte, Minas Gerais.

1967
Ingressa nas atividades de militância, casa-se no civil como o primeiro marido, Cláudio Galeno Linhares

1970
Presa em São Paulo, é torturada no Dops com choques elétricos, pau de arara e palmatória.

1986
É nomeada pelo então prefeito de Porto Alegre, Alceu Collares, Secretária Municipal da Fazenda, seu primeiro cargo executivo.

1989
Assume a diretoria-geral da Câmara de Vereadores de Porto Alegre. Faz campanha para Leonel Brizola, candidato a presidente.

2002
Torna-se Ministra de Minas e Energia do governo Lula. Três anos depois, assume a Casa Civil.

2009
Anuncia um câncer no sistema linfático. Passa por tratamento no Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, e é considerada curada após cinco meses de tratamento.

2010
Concorre pela primeira vez às eleições presidenciais. Ganha a votação contra o tucano Serra, numa disputa de segundo turno.

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